O novo documentário de colaboração internacional, com produção de entre Portugal, França, Espanha e Áustria, “As Estações”, da realizadora franco-portuguesa Maureen Fazendeiro, estreia a 25 de março nas salas de cinema francesase já começa a gerar expectativa no circuito internacional após a estreia mundial na competição oficial do 78º Festival de Cinema de Locarno, onde competiu para o Leopardo de Ouro.
A longa-metragem documental combina depoimentos de trabalhadores rurais com notas de campo de um casal de arqueólogos, imagens de arquivo amador, desenhos científicos, lendas, poemas e canções. O filme propõe uma viagem pela história real e inventada do Alentejo, revelando as camadas de memória inscritas na paisagem e nos gestos do seu povo. A cineasta explica: “O filme escava a paisagem, as vozes e os gestos do povo alentejano para revelar os vestígios de uma história comum, marcada por guerras e revoluções, medo e resistência, permanência e metamorfose”.
Maureen Fazendeiro é realizadora e argumentista francesa, radicada em Lisboa, e estudou literatura e cinema na Université Denis Diderot, em Paris. A inspiração para o filme surgiu após a realizadora se deparar com um artigo intitulado “Nas antas do Alentejo já se falou alemão”, acompanhado por fotografias da década de 1940 que mostravam dois arqueólogos alemães, marido e mulher, deitados sob monumentos megalíticos. Tratava-se de Georg e Vera Leisner, casal pioneiro no estudo dos monumentos megalíticos da Península Ibérica, que permaneceu em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial, período em que desenvolveu parte significativa do seu trabalho de investigação.
Maureen Fazendeiro, cujos filmes foram exibidos na Quinzena dos Realizadores de Cannes, em Nova Iorque, Toronto, Marseille e noutros prestigiados festivais de cinema, divide atualmente o seu tempo entre projetos autorais e colaborações como argumentista e diretora de casting.
Durante a sua investigação, a realizadora ficou particularmente sensibilizada ao descobrir, nos arquivos completos do casal, a correspondência trocada com amigos e colegas, na qual eram descritos os bombardeamentos aliados sobre cidades alemãs. Foi marcante o contraste do esforço dos arqueólogos para reconstruir e desenterrar o passado do início da civilização que coexistia com a devastação que, naquele mesmo momento, assolava a Europa.
Na sua nota de realizadora, Maureen Fazendeiro, colaboradora de longa data do realizador português Miguel Gomes, com quem coescreveu “Grand Tour” e codirigiu com ele “The Tsugua Diaries”, comenta: “queria perceber como realizar um filme sobre arqueologia, não no sentido científico, mas no sentido formal, e explorar como o cinema pode viajar através de diferentes estratos do tempo e da memória a partir de um único e mesmo lugar”.
Resultado de uma coprodução internacional europeia, “As Estações” afirma-se como um projeto que cruza fronteiras, tanto na sua produção como na sua própria matéria temática, propondo uma reflexão cinematográfica sobre memória, território e identidade coletiva. Com este novo filme, Maureen Fazendeiro confirma o seu lugar entre as vozes mais inquietas e poéticas do cinema de autor contemporâneo.







