
David Corceiro, 48 anos, comercial no domínio dentário, é, pela terceira vez consecutiva, candidato às eleições municipais em Soissy-sous-Montmorency (95) e pela segunda vez cabeça de lista. Mas já foi Deputado na Assembleia Nacional Francesa, quando Nathalie Élimas, subiu ao Governo.
O candidato que substituir o atual Maire da cidade, Luc Stréhaiano, 70 anos, um dos autarcas mais antigos da região, Conselheiro municipal desde 1983 e Maire desde 1995.
David Corceiro recebeu o LusoJornal na sede de campanha, que foi também, durante os últimos 6 anos, a sua Permanência municipal, enquanto foi Conselheiro municipal da oposição.
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Para o conhecermos melhor, qual foi o seu percurso?
Eu tenho um percurso bastante atípico. Cheguei a Soisy‑sous‑Montmorency em 2010, foi aqui que criei os meus filhos, foi aqui que cresceram e foi também aqui que a minha carreira política começou, primeiro enquanto encarregado de educação, na escola primária e na creche. Foi assim que cresceu a minha vontade de agir pela cidade. Fui candidato numa lista em 2014, cabeça de lista em 2020, Deputado de 2020 a 2022, não fui candidato à minha reeleição e, em 2026, sou novamente candidato para conquistar a Mairie de Soisy‑sous‑Montmorency.
Quais são os seus laços com Portugal?
São bastante fortes, porque o meu pai é português e a minha mãe é italiana. Mas nem falo português nem italiano. Sabemos bem que, nas famílias portuguesas, os avós têm um papel muito importante na educação dos netos e eu tive avós adoráveis, ambos originários do norte de Portugal, mais propriamente do concelho do Sabugal, e foi com eles que passámos muitas férias, que crescemos, que passámos vários verões em Portugal. Tenho memórias muito boas do país, das grandes ribeiras que existiam nos anos 80 e 90, onde íamos nadar – e que infelizmente desapareceram quase todas. É algo que lamento muito, porque quando volto a Portugal e deixo a memória trabalhar, quando percorro os pequenos caminhos para me perder na serra, já não encontro as ribeiras. Tudo desapareceu. É um dos meus grandes desgostos, e por isso tenho alguma dificuldade em regressar hoje: o Portugal que conheci praticamente já não existe.
Se tivéssemos de situá‑lo politicamente, onde seria?
É muito simples: eu sou aquilo a que se chama um verdadeiro centrista. Para mim, uma boa ideia não é nem de direita nem de esquerda. É simplesmente boa e vai no sentido certo. Dou alguns exemplos: trabalhei na Lei sobre a endometriose na Assembleia Nacional, trabalhei na Lei sobre os maus‑tratos a animais, no combate ao assédio de rua, defendi o direito de voto aos 16 anos porque acredito que é preciso responsabilizar os jovens, trabalhei no direito ao crédito para pessoas que estiveram doentes – o chamado “direito ao esquecimento” – sou bastante eclético e abrangente. Não tenho um tema preferido. O bom senso é o meu motor e a minha linha de orientação.
Como poderíamos descrever Soisy?
Soisy fica mesmo ao lado da primeira cidade turística do Val‑d’Oise: Enghien‑les‑Bains. Toda a gente conhece Enghien pelo lago e pelo casino. Somos a cidade ao lado, portanto é muito fácil situar‑nos. E se mesmo assim não conseguirem localizar Soisy: a partir da Gare du Nord são 15 minutos de comboio.
Mas o que tem de particular esta cidade?
É particular porque soube controlar, honestamente, o seu número de habitantes. Não é uma cidade que tenha crescido demasiado. Temos imensos espaços verdes. Temos o hipódromo de Soisy‑Enghien no nosso território. É uma cidade com um urbanismo bastante controlado, é verdade. Mas, ao mesmo tempo, é uma cidade que se deixou adormecer com o tempo.
Precisamos de renovação: no comércio, num mercado que está a adormecer, nas animações da cidade. Esperámos 30 anos para construir um centro cultural, por exemplo. Hoje existe, mas não basta ter o edifício, é preciso fazê‑lo viver. Há todo um processo a reconstruir: habituar as pessoas a que haja eventos aqui, a que não precisem de pegar no carro para ir para outra cidade.
E o que propõem para isso?
Queremos melhorar a cidade. Melhorar não significa mudar tudo. Precisamos de novos comércios, sobretudo na restauração, para oferecer uma oferta mais variada. Precisamos de uma abertura maior na área da saúde. Temos médicos, mas precisamos de uma Casa de saúde adaptada às novas práticas e ao acompanhamento da deficiência. Precisamos de médicos mais acessíveis, porque a população cresce e envelhece. Temos também de recuperar o atraso no comércio de proximidade ligado à saúde: oftalmologistas, profissionais de saúde. É um eixo essencial para manter a cidade ao ritmo do seu tempo.
Temos igualmente de recuperar o atraso no desporto. Enquanto renovamos os campos de ténis, as cidades vizinhas constroem campos de padel. Estamos completamente ultrapassados.
E precisamos de recuperar equilíbrio financeiro. Hoje, em Soisy, 56% do orçamento municipal são despesas de funcionamento. É enorme. Temos de reduzir isso para poder investir de outra forma. E é fácil fazê‑lo: continuar o trabalho de poupança energética, painéis solares, reciclagem e recuperação de água nos edifícios municipais, isolamento… estamos muito atrasados nisso.
Temos uma equipa no poder desde 1995. É uma equipa envelhecida. A média de idade do Conselho municipal era quase 72 anos. Aos 72 anos, já não se está tão atento à necessidade de reduzir despesas. Vive‑se muito na continuidade.
Foi membro do Conselho municipal da oposição. O que é que isso lhe trouxe como experiência?
A experiência foi extraordinária. Fui Deputado municipal e Deputado nacional ao mesmo tempo. Como Conselheiro municipal da oposição, o campo de ação é muito limitado: votamos contra, abstemo‑nos, mas não podemos propor muito.
Mas quando se é Deputado ao mesmo tempo… dou um exemplo: mesmo à minha frente está a Mairie. A renovação das janelas da Mairie foi possível graças a mim, porque consegui obter uma subvenção adicional. Quando se é apenas Conselheiro municipal da oposição, pode‑se propor ideias, tentar fazer avançar algumas linhas. Mas sem maioria, muitas propostas são relegadas para segundo plano. É a dificuldade da democracia. Mesmo assim, há muito que se pode fazer: organizar reuniões públicas, falar com as pessoas. Somos Conselheiros municipais como os outros. A única diferença é que, nas decisões, somos deixados de lado e menos informados. Cabe‑nos ir atrás da informação e fazer viver a democracia. E isso é difícil quando há uma equipa instalada há tanto tempo, que não aprecia muito a democracia participativa.
Existe algum acordo de geminação com alguma localidade portuguesa?
Não. E faz parte dos projetos que gostaríamos de desenvolver. Há apenas uma geminação com uma cidade alemã.
Mas para criar uma geminação é preciso ter fundos. O nosso objetivo nos primeiros três anos, se ganharmos, é reduzir despesas para poder investir. Depois disso, poderemos desenvolver esse tipo de projeto. Mas é uma segunda fase do programa.

Habitualmente os mandatos municipais são de 6 anos, mas desta vez trata-se de um mandato de 7 anos. Isso muda alguma coisa?
É sempre interessante. Porque quando se chega em março a uma autarquia, é preciso ser realista: de março a dezembro não é um ano completo. Portanto, o orçamento fica um pouco desequilibrado. E muitas vezes, quando chegamos, não conhecemos a realidade das coisas. Há aquilo que nos disseram e há a realidade. É sempre assim. Dizem‑nos que está tudo bem, e depois descobrimos que, na verdade, não está assim tão bem. Por isso, vão ser feitas auditorias, que serão implementadas. E são essas auditorias que vão permitir medir a situação.
Mas ter mais um ano é ter mais um ano para concretizar e responder às promessas feitas. Portanto, sim, é muito interessante. E o mais interessante ainda é que esse ano suplementar permite definir objetivos de curto e de longo prazo, e com esse ano extra pode-se realizar exatamente tudo o que foi prometido. Assim, não poderemos dizer que não tivemos tempo.
Lemos, na imprensa que é difícil ser Maire, há Maires que protestam, outros que desistem. Tem consciência do que o espera se for eleito?
Eu não conheço nenhum trabalho fácil. Essa é a verdadeira resposta. Ouça, eu fui Deputado. Não é mais complicado ou mais difícil do que outra coisa. A partir do momento em que somos leais connosco mesmos, que temos um programa bem definido, que temos uma equipa… Sabe, não se elege apenas um Maire, elege‑se uma equipa. Uma equipa são 35 pessoas que estão consigo no dia a dia. O Maire não é a única pessoa a agir. Delegamos competências, e são essas competências que são aplicadas pela equipa.
Hoje, eu não conheço nenhum trabalho fácil, porque o mundo está mais complexo. Mas, desde que se respeitem os outros, que se cumpram os compromissos, que se vá ao encontro dos habitantes, que se explique o que se vai fazer, não penso que seja mais complicado do que outra coisa. O que é complicado é decidir sozinho num gabinete, sem informar ninguém, e deixar que as pessoas sofram as consequências. Aí sim, pode tornar‑se complicado.
Mas isso é universal. Quando fui Deputado, passava sistematicamente todos os meus fins de semana no meu círculo eleitoral, no terreno, a encontrar pessoas. Organizava cafés‑debate, fosse em cafés específicos ou no mercado. Quando estamos próximos das pessoas, conversamos, informamos, tomamos decisões e explicamos. Não é mais complicado do que isso.
Hoje, não há trabalho fácil, sobretudo na política, com o contexto nacional que existe. Mas penso que é uma experiência muito bonita. Não me arrependo nada da experiência que tive como Deputado, porque cada vez que carregamos no botão para votar um texto, há a nossa lealdade pessoal, a lealdade para com os eleitores, a lealdade para com o partido e as nossas convicções pessoais. Quando se age no bom sentido, as coisas correm bem.
Na sua lista há um outro português, em 5° lugar. Chama-se Lionel Gameiro, tem 46 anos e é responsável de compras. Fale-me dele.
É alguém que se mudou para a cidade há três anos. O acaso fez com que nos encontrássemos num evento municipal. Ele quis envolver‑se e, claro, foi recebido de braços abertos. Mas sabe, não é por sermos ambos portugueses que temos automaticamente cumplicidade, mas descobrimos alguns pontos em comum através das férias, das nossas histórias.
É importante saber que aqui há uma grande Comunidade portuguesa. E vou dar‑lhe a minha opinião pessoal: esta Comunidade não é propriamente respeitada, porque lhe deram um espaço velho, totalmente degradado, no fundo de um parque de estacionamento. Acho que podemos fazer melhor.
No projeto que propomos, sugerimos uma Casa das Línguas. Uma casa onde se possa aprender a língua, onde cada associação venha dar os seus cursos. É muito mais digno do que um pavilhão velho onde ninguém tem vontade de aprender ou de se instalar, porque está completamente degradado. Para mim, uma associação de língua – seja portuguesa, inglesa ou outra – deve ser respeitada na cidade, porque corresponde ao que os habitantes pedem.
E hoje, em Soisy‑sous‑Montmorency, penso que isso não acontece. É algo que existiu no passado, e é pena que esta associação faça mais política do que ensino da língua portuguesa. Não é por sermos portugueses que não devemos abrir‑nos aos outros. Devemos ir ao encontro de todos os habitantes de Soisy. Não podemos ficar fechados sobre nós mesmos. É pena.






