A animação portuguesa volta a destacar se no panorama internacional. As curtas metragens “Virgem Fandango”, de Marcy Page, e “Porque Hoje é Sábado”, de Alice Eça Guimarães, foram selecionadas para a 68ª edição do Festival Internacional de Cinema de Animação de Annecy, o mais prestigiado evento mundial dedicado ao cinema de animação, que decorre todos os anos em França.
A presença simultânea de duas produções portuguesas – ambas centradas em narrativas sobre a experiência feminina – confirma o dinamismo criativo do setor e reforça a crescente visibilidade internacional da animação feita em Portugal.
“Virgem Fandango”: estreia mundial na competição oficial
A curta metragem “Virgem Fandango” (Portugal/Canadá, 11 min) terá a sua estreia mundial na competição oficial de curtas de Annecy.
Realizado por Marcy Page, o filme resulta de uma coprodução entre a Ciclopes Filmes e a Blue Dada Productions, e distingue se por uma abordagem estética absolutamente singular: a animação é construída a partir de azulejos portugueses pintados à mão, num processo que envolveu mais de 12 mil peças animadas em stop motion.
A obra propõe uma leitura contemporânea e subversiva da figura de Maria, mãe de Jesus, transformada aqui num símbolo de resistência feminina. Através de mosaicos visuais que evocam cerca de 170 mulheres históricas, dança, música e iconografia religiosa cruzam se para construir um discurso sobre memória, identidade e emancipação.
A banda sonora é assinada pelo lendário Normand Roger, figura incontornável do cinema de animação, cuja colaboração em múltiplos filmes valeu 13 nomeações e 6 Óscares ao longo da sua carreira. A ligação de Marcy Page ao universo português deve se, em grande parte, à colaboração com Abi Feijó e Regina Pessoa, dois nomes centrais da animação nacional.
“Porque Hoje é Sábado”: um olhar íntimo sobre a carga mental feminina
Selecionado para a secção competitiva Perspectives, o filme “Porque Hoje é Sábado” (Portugal/França/Espanha, 12 min) confirma o percurso internacional de Alice Eça Guimarães, cuja obra tem sido amplamente premiada.
Depois da estreia no Curtas Vila do Conde em 2025, o filme já passou por 61 festivais e arrecadou 21 prémios. A narrativa acompanha uma mulher num raro dia de descanso, confrontada com a impossibilidade de se apropriar do seu próprio tempo devido às exigências domésticas e familiares.
Com uma linguagem visual depurada e forte carga simbólica, o filme aborda temas contemporâneos como a carga mental, a divisão desigual do trabalho doméstico e a invisibilidade das tarefas de cuidado.
A produção reúne a Animais – Estúdio de Animação (Portugal), a La Clairière Productions (França) e o Studio Kimchi (Espanha), reforçando a dimensão internacional do projeto.
A afirmação internacional da animação portuguesa
A seleção simultânea destas duas obras em Annecy – num festival altamente competitivo que recebe centenas de candidaturas de todo o mundo – representa um momento de grande visibilidade para o cinema português.
O Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) continuará a apoiar a presença portuguesa no MIFA, o mercado profissional do festival, onde produtores, distribuidores e programadores internacionais descobrem novos talentos e projetos.







