Fafe disponível para acolher um Museu nacional da memória da emigração


O Município de Fafe dedicou alguma atenção à preservação da memória da emigração portuguesa e constituiu um Museu das Comunidades, que, entretanto, tem estado sem Diretor. Aproveitando a presença em França, este fim de semana, do Presidente da Câmara Municipal, Antero Barbosa, o LusoJornal questionou-o sobre o Museu e o autarca reforçou a ambição de transformar Fafe num polo nacional dedicado à “história das partidas, dos regressos e das vidas construídas além-fronteiras”.

Fafe detém uma parte do espólio do fotógrafo francês Gérald Bloncourt, entretanto falecido e, no quadro de um Pacto de Amizade, emprestou fotografias da “emigração do salto” que estão atualmente patentes ao público no Centro Cultural Le Trèfle, em Soisy-sous-Momorency.

O acervo do fotógrafo Gérald Bloncourt, figura maior do registo da emigração portuguesa, é hoje uma das peças centrais desse projeto museológico em Fafe.

“O Fafe de hoje resulta muito daquilo que foi o papel da imigração”

Em entrevista ao LusoJornal, o Presidente da Câmara Municipal de Fafe recordou que a história do concelho está profundamente marcada pelos movimentos migratórios. “O Fafe de hoje resulta muito daquilo que foi o papel que a emigração teve no nosso concelho”, afirmou, sublinhando que a primeira grande vaga – no final do século XVIII e ao longo do século XIX – teve como destino o Brasil.

Ao contrário da emigração mais recente, essa primeira geração não era composta pelas classes mais pobres. “Fizeram fortuna no Brasil, foram bem-sucedidos nos negócios e, no retorno, fizeram grandes investimentos em Fafe”, explicou. A indústria têxtil, que ainda hoje tem peso no concelho, nasceu em grande parte desse regresso. “As grandes fábricas, com 2.000 ou 3.000 trabalhadores, foram instaladas por estes emigrantes de retorno, já com novas tecnologias”.

Mas o impacto não se ficou pela economia. Os emigrantes regressados deixaram marcas na beneficência, na cultura, nas escolas e nos palacetes que ainda hoje caracterizam a cidade.

Da emigração para o Brasil à diáspora na Europa

A partir do século XX, a emigração fafense voltou a intensificar-se, desta vez rumo à Europa, e particularmente para França. O autarca tem procurado reforçar essa ligação desde que assumiu funções. “Considero-me Presidente de todos os fafenses, os que residem e os que estão fora”, afirmou ao LusoJornal. E acrescentou que, nos últimos anos, tem sentido que esse contacto é “reconfortante” para a diáspora.

A estratégia passa também por aproveitar o potencial económico dos emigrantes. Muitos desempenham hoje funções de relevo em empresas e autarquias europeias, e o município quer criar redes que facilitem contactos com empresários locais. “O país no seu todo pode e deve valorizar mais a emigração”, defendeu.

O Museu das Comunidades: um espaço para contar a dureza e a dignidade da partida

O Museu das Comunidades de Fafe nasceu precisamente dessa vontade de reconhecer e valorizar a história migratória. O Presidente recorda que o projeto começou quando ainda era Vereador da Cultura, em articulação com o historiador Miguel Monteiro, entretanto falecido.

O objetivo é claro: mostrar às novas gerações a dureza das partidas. “Era muito duro sair sem conhecer a língua, sem conhecimentos, sem as tecnologias que hoje facilitam tudo”, sublinhou.

Mas o autarca considera que o país deveria ter um Museu Nacional da Emigração – e não necessariamente em Lisboa. “Lisboa não é exemplo da emigração. O Museu devia estar num município com uma marca forte da emigração. Fafe é um deles”.

O município está disponível para acolher esse projeto, caso o Governo o venha a considerar. “Durante muito tempo houve um sentimento de alguma vergonha sobre a emigração. Hoje é importante valorizar o sucesso que muitos tiveram e falar com carinho das dificuldades que passaram”.

No sábado passado, em Soisy-sous-Montmorency, Antero Barbosa convidou o Secretário de Estado Emídio Sousa a visitar Fafe e a descobrir o Museu das Comunidades. “O que eu disse aqui ao senhor Secretário de Estado, de forma muito simpática, é de vir conhecer a nossa realidade, ver o trabalho que já fizemos nesta área. Não há aqui uma competição com outros municípios, mas se ele entendesse que nós, pelo trabalho que desenvolvemos, com a sensibilidade que temos nesta área da emigração, se quiser aproveitar o trabalho que temos para servir de base a um Museu Nacional da Emigração, estamos disponíveis para avançar” disse o Presidente da Câmara.

Antero Barbosa lembrou o trabalho que tem sido feito pela socióloga Maria Beatriz Rocha Trindade e pelo historiador Daniel Bastos.

Gérald Bloncourt: o olhar que eternizou a emigração portuguesa

A ligação de Fafe à memória da emigração ganhou uma nova dimensão com a doação de uma parte do espólio fotográfico de Gérald Bloncourt, o grande cronista visual da emigração portuguesa para França nos anos 60. O fotógrafo, que acompanhou de perto as travessias clandestinas, os bidonvilles e a integração dos portugueses, encontrou em Fafe um projeto que o tocou.

“O Gérald Bloncourt apaixonou-se pelo nosso trabalho e doou-nos este espólio ainda em vida”, recordou o Presidente. As fotografias, muitas delas “duras e profundamente humanas”, integram hoje exposições que o município tem vindo a conceber e a fazer circular.

Para o autarca, este acervo é essencial para combater perceções erradas sobre a emigração. “Temos o dever de fazer esta pedagogia junto da nossa população”, afirmou, sublinhando que as imagens de Gérald Bloncourt são um testemunho incontornável da coragem e da resiliência dos emigrantes portugueses.

Para além do Pacto de Amizade com Soisy-sous-Montmorency, Fafe mantém também uma geminação com Sens, também em França, embora ainda em fase de consolidação. O Presidente reconhece que não quer “geminações por geminações”, mas sim manter relações vivas, sustentadas e úteis para as Comunidades.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

Não perca