De 11 a 14 de março, o Festival Bordeaux Rock reforça a sua vocação de encontro entre culturas musicais ao dedicar uma noite especial ao cenário da música portuguesa contemporânea. Integrada na programação oficial, a “Soirée Portugal com Amor” convida o público de Bordeaux a descobrir propostas artísticas que cruzam tradição com modernidade, num momento de celebração da diversidade criativa e do diálogo cultural que define o espírito do festival, contando com a presença de artistas portuguesas como Ana Lua Caiano e Rita Braga.
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O Festival Bordeaux Rock é um dos eventos incontornáveis da cena musical alternativa e independente em França, realizado anualmente na cidade de Bordeaux. Criado pela associação Bordeaux Rock, este festival tem vindo a afirmar-se como um ponto de encontro essencial para os amantes do rock independente, post-punk, indie e outros estilos ligados à música.
A associação Bordeaux Rock foi criada inicialmente para celebrar e reavivar a memória do movimento rock que marcou Bordeaux no final da década de 1970. Numa primeira fase, a associação funcionou como editora discográfica, tendo publicado cerca de trinta álbuns e várias compilações dedicadas a recuperar, documentar e reconstituir a história do rock na cidade. Foi desse trabalho de investigação e edição que surgiu o festival anual, criado para assinalar esses lançamentos, reunir as bandas envolvidas e afirmar-se como uma montra da dinâmica musical da cidade.
A associação mantém uma forte aposta na valorização da história e da identidade musical da cidade, promovendo também projetos paralelos, como ciclos de cinema e eventos especiais, que reforçam a ligação entre música, imagem e território. Desta forma, o festival afirma-se não só como palco da música independente, mas como motor contínuo de criação e reflexão cultural.
Desde a sua criação em 2004, o Festival Bordeaux Rock tornou-se um evento aguardado tanto pelo público local como por visitantes de outras regiões. Ao longo de mais de duas décadas, tem dado destaque a artistas emergentes e a nomes já reconhecidos internacionalmente, consolidando a sua reputação como festival de referência para a música alternativa e independente que reuniu mais de 5.000 espectadores em 2019.
Na sua 22ª edição, o arranque do festival será marcado por uma noite temática dedicada a Portugal – “Soirée Portugal com Amor” – que contará com a participação das artistas Ana Lua Caiano e Rita Braga, duas propostas singulares da música portuguesa contemporânea, reforçando a dimensão internacional e o espírito de diálogo cultural que caracteriza o festival.
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Ana Lua Caiano: A ponte entre o canto rural português e a música eletrónica

Uma das vozes mais originais da nova música portuguesa, Ana Lua Caiano, abre a primeira noite do Bordeaux Rock 2026 com um universo sonoro onde tradição e vanguarda caminham lado a lado. Natural de Lisboa, a cantora e compositora apresenta uma visão refrescante que surge organicamente da junção daquilo que a rodeou em criança com as paixões e influências que surgiram mais tarde.
Esta celebração da herança musical encontra-se com a exploração de sons pouco convencionais e alcança a harmonia na música de Ana Lua Caiano, criando uma ponte entre o canto rural português e uma eletrónica pulsante, atmosférica e assumidamente contemporânea.
Ana Lua Caiano cresceu num ambiente artístico e contou com uma formação clássica em piano, bem como uma passagem pelo jazz, onde encontrou mais liberdade na criação. A sua música parte quase sempre de uma ideia melódica simples que depois se expande em camadas. Os elementos basilares e primordiais são a melodia inicial e uma base rítmica que se juntam mais tarde com vozes sobrepostas, sintetizadores, batidas insistentes, gravações de campo e sons do quotidiano – do ruído de um frigorífico a plásticos amachucados – que permitem à artista alcançar novas dimensões de textura sonora. O resultado é uma linguagem própria, onde o tradicional é reinterpretado à luz da música eletrónica, com referências como Björk ou Laurie Anderson.
Depois de se afirmar como artista emergente com os EPs “Cheguei Tarde a Ontem” (2022) e “Se Dançar É Só Depois” (2023), Ana Lua Caiano lançou o seu álbum de estreia, “Vou Ficar Neste Quadrado”, pela editora alemã Glitterbeat Records. O disco consolidou a sua projeção internacional, com mais de 60 datas de digressão e passagens por festivais como WOMEX, Les Trans Musicales e Roskilde Festival. Em 2024, venceu o Globo de Ouro para Melhor Canção com “Deixem o Morto Morrer!”.
Em palco, costuma apresentar-se como uma “one-woman band” onde, num espaço de poucos metros quadrados, rodeada de teclado MIDI, loop station, bombo e diversas ferramentas rítmicas, constrói as músicas em tempo real. Cada concerto é uma impressão digital do momento em que é feita, uma combinação singular de diversos agentes: a inspiração, ruídos imprevistos, atmosfera da sala e energia do público. Os concertos transformam-se numa versão diferente do álbum gravado em estúdio e permitem uma combinação de sabores individuais, consequência do seu ambiente. As canções são “músicas vivas”, moldadas pelas circunstâncias: loops gravados ao momento, camadas que se sobrepõem e se transformam, arranjos que nunca se repetem exatamente dão lugar a uma experiência inédita e íntima.
A exposição à tradição musical portuguesa, aliada a um amor pela experimentação com sintetizadores e música eletrónica, faz da sua música uma tapeçaria complexa com influências que incluem o canto tradicional em grupo, a música concreta e os compositores do período revolucionário dos anos 70 em Portugal ícones da música eletrónica. A sua presença neste festival não será apenas um concerto, mas uma experiência única de celebração do passado sem medo da reinvenção da tradição.
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Rita Braga: Entre o Cabaré Futurista e a Reinvenção do Fado

Nesta primeira noite do Festival Bordeaux Rock, o palco abre-se também à artista Rita Braga, criadora de um universo onde o passado e o futuro se encontram com elegância num registo sonoro ímpar.
A artista iniciou o seu percurso a solo no cenário da música independente em 2005 e, desde então, tem apresentado o seu trabalho em inúmeros palcos por toda a Europa, bem como nos EUA, Brasil, Austrália e Japão. Artista multifacetada, é também autora de bandas sonoras e conta com um breve percurso pelas áreas da ilustração, banda desenhada e cinema de animação – influências que alimentam e expandem a sua expressão musical, fortemente marcada por uma estética cinematográfica.
A sua formação em Ciências Musicais, em Lisboa, e mais tarde em Performance Making, em Londres, ajuda a compreender a sofisticação conceptual do seu trabalho, onde o post-punk entra em diálogo com o cinema, a ilustração e a ficção científica. No seu trabalho cruzam-se influências e movimentos ecléticos que, desafiando a intuição, encontram-se com harmonia e equilíbrio, desde pop sci-fi ao jazz, passando por ritmos latinos e por um folk onírico.
Inicialmente armada apenas com um ukulele, Rita Braga trouxe ao underground português um cabaré retro-fantasiado. Hoje, mantém as suas raízes na tradição popular, mas propõe uma perspetiva inteiramente estrangeira e reafirma-se como uma artista sem fronteiras, contando com colaborações que incluem Ana da Silva (The Raincoats), Felix Kubin, Ian Svenonius e The Legendary Tigerman.
Em 2023 editou Illegal Planet, disco aclamado pela crítica internacional. Antes disso, lançou Time Warp Blues (2020), Bird on the Moon (2018) – distinguido pela revista The Wire no Top 15 de discos com ukulele -, o EP Gringo in São Paulo (2015) e o álbum de estreia Cherries That Went To The Police (2011), produzido por Bernardo Devlin.
Mais recentemente lançou o single “Fado Tango”, primeiro avanço do álbum que vai publicar em março de 2026: “Fado Tropical”. Esta música parte de uma gravação dos anos 1930 da fadista e atriz Ercília Costa. Com arranjos elegantes e cinematográficos, a canção resgata um clássico esquecido e reinscreve-o no presente. No vídeo, realizado por Joana Linda, Rita presta homenagem às vozes pioneiras do fado – das cantoras de rua do século XIX às atrizes de revista do início do século XX – reafirmando o seu compromisso com a memória e a reinvenção. Este novo álbum, que marca uma surpreendente incursão pelo mundo do fado por parte da artista, vai ser inteiramente em português e vai contar com diversos convidados.
Mantendo-se fiel à sua inspiração nos anos 20, dedica-se a este projeto com uma perspetiva de “lentes portuguesas”, propondo uma nova abordagem à música – em particular ao fado. Essa reinvenção concretiza-se, nomeadamente, na colaboração com uma percussionista que culminou na substituição do papel tradicional da guitarra pela marimba e convoca ainda outros instrumentos para reinventar o género, criando uma nova linguagem sonora onde se destacam vozes como o saxofone e o violoncelo.







