Dulce GabrielInstituto Fernando Paulouro das Neves salvaguarda legado do antigo Diretor do Jornal do Fundão e “porta-voz dos emigrantes”_LusoJornal·Comunidade·3 Janeiro, 2026 Eugénia Ferrão, a mulher de Fernando Paulouro das Neves, o antigo Diretor do Jornal do Fundão, falecido no ano passado, acaba de criar o Instituto Fernando Paulouro das Neves, associação sem fins lucrativos (em constituição), cuja primeira Assembleia Geral se realizará no dia 31 de janeiro de 2026 (data de aniversário do homenageado), às 15h00, no Casino Fundanense, no Fundão, e tem como principal objeto a salvaguarda e a difusão do legado de Fernando Paulouro Neves, através de publicações, bem como da promoção de iniciativas educativas e culturais que afirmem os seus valores humanistas e incentivem a reflexão crítica e o progresso da sociedade. Fernando Paulouro das Neves nasceu em 1947 e faleceu em 2025. Foi uma das figuras mais marcantes do jornalismo regional português, profundamente ligado ao Jornal do Fundão, onde trabalhou durante toda a vida profissional. Morreu aos 78 anos. Para a geração de hoje, nativa digital, o passado recente é já iluminura medieval, mas os mais velhos que na década de 1960 chegaram a França com “a mala de cartão”, sabem e recordam como era confortante na frialdade dos “bidonville” saber que havia quem os não esquecesse lá na sua “ingrata terra”. O elo que lhes trazia essa saudade era o jornal, papel impresso, mas que ao invés dos que se viam nos quiosques, falava em português. Só para recordar – A Bola, o Expresso (a partir de 1973) e o Jornal do Fundão eram os jornais portugueses mais lidos em Paris e em Bruxelas. Vendiam-se em quiosques de referência que passavam de quem já lá estava para os que chegavam. “O 25 de Abril foi um sobressalto porque uma revolução traz em si a surpresa de uma nova sociedade. Ora para a Comunidade emigrante lusíada que labutara sem dó nem mercê durante uma década ou mais, as surpresas são como os ‘melões’ – só se sabe o que valem depois de se abrirem. Para todos, a mesma questão: as economias (depositadas nos bancos) estão a salvo?” lembra António Melo, antigo jornalista do Jornal do Fundão. O Jornal do Fundão foi o mensageiro que tranquilizou a comunidade, muita dela de raiz beirã. Tinha confiança no António Paulouro, fundador do semanário em 1946, e em toda a equipa, tanto mais que o Chefe de redação, Fernando Paulouro das Neves, era o sobrinho. “Foi justa essa atitude. O tempo deu-lhe inteira razão e o JF, como se popularizou na terminologia da época, foi garantindo a confiança no regime e a segurança na grande viragem política do país, mesmo em tempos de libertação colonial” assume António Melo numa nota enviada ao LusoJornal. O Jornal do Fundão teve um ativo colaborador em França, Abílio Laceiras, que muito fez para também levar para Portugal notícias de quem morava em terras gaulesas. Fernando Paulouro das Neves sucedeu, naturalmente, ao fundador e prosseguiu o rumo que o editorial fundador anunciou aos seus leitores vai fazer 80 anos em 26 de janeiro: “No nosso posto estaremos ao lado dos que trabalham e dos que sofrem, em fraterna compreensão que não é de hoje, mas de sempre”. Esteve ao leme até 2012, quando passou a ocupar-se da escrita literária. O 5 de outubro passado, numa data bem escolhida para lançar um novo livro, “As Sombras do Combatente”, onde romanceia a vida de um resistente antifascista, Eduardo Monteiro, foi um dia de júbilo para o Fernando Paulouro das Neves. Na biblioteca municipal Eugénio de Andrade, repleta de gente, prolongou a sessão de lançamento com um visível prazer, inteiramente partilhado por todos os que queriam um autógrafo e um dedo de conversa. Foram cinco horas de amável convivência, num dia em que também se celebrava a implantação da República. No dia seguinte foi o fim. Quando se esperava por ele, para mais um encontro de amizades, ele faltou. Despediu-se ao fim da tarde. Ficou a tristeza. Foi para que o seu exemplo prossiga, que Eugénia Ferrão, sua mulher, lançou o Instituto Fernando Paulouro das Neves. “Os municípios do Fundão e Covilhã afirmaram já a vontade de apoiar institucionalmente a iniciativa, mas o objetivo é conseguir que ela se torne uma associação, com participação individual de quem dela se quiser fazer membro”. A oficialização da Associação Instituto Fernando Paulouro das Neves está feita, mas a sua expansão em sócios animadores que participem e contribuam com uma quota, mesmo simbólica, será o objeto da reunião que se realizará a 31 de janeiro, no Fundão. Desde então, as homenagens e o reconhecimento do legado de Fernado Pauloro das Neves têm-se sucedido, destacando-se o Voto de Pesar da Assembleia da República, aprovado por unanimidade em sessão plenária. Igualmente, a Associação Portuguesa de Imprensa atribuiu-lhe, a título póstumo, no dia 18 de novembro, o Prémio APImprensa – Carreira de Excelência, em reconhecimento por “todo o trabalho desenvolvido ao longo das últimas décadas em prol da defesa da Imprensa, da Liberdade e do jornalismo regional”. . O endereço eletrónico ifpn2025@gmail.com está disponível para todos os interessados em obter informações, manifestar apoio ou acompanhar as atividades do Instituto.