Os professores não estavam em greve, mas nenhum aluno passou esta manhã a porta do Collège Pierre-Jean de Béranger, em Paris. Uma “Jornada Morta” foi organizada no seguimento do anúncio de encerramento de uma turma da 6ème e de um desinvestimento do Estado na Educação Nacional e os pais aderiram à iniciativa argumentando que estão contra o “Ensino Low Coast”. Está em perigo também o ensino de português neste estabelecimento, lecionado pela professora Chantal da Silva.
Este é um dos mais pequenos colégios de Paris, a três passos da Place de la République. Tem três turmas por cada nível, desde a 6ème até à 3ème. Mas a Academia anunciou a supressão de uma turma de 6ème já na próxima ‘rentrée’.

“Esta decisão representa uma ameaça significativa a médio prazo, podendo conduzir, dentro de quatro ou cinco anos, ao encerramento progressivo do estabelecimento. A situação demográfica em Paris, marcada por uma diminuição do número de alunos, coloca-nos, de facto, num contexto de crise” explica ao LusoJornal a professora Chantal da Silva.
Chantal da Silva não depende do Instituto Camões, porque é professora do Ministério francês da Educação Nacional e leciona há dois anos neste colégio.
.
Ensino de português em perigo

O Collège Pierre-Jean de Béranger propõe o ensino da língua portuguesa e da língua alemã, logo a partir da 6ème. O número de alunos diminuiu, mas com a chegada da professora Chantal da Silva voltou a crescer. Atualmente frequentam as aulas de português 21 alunos em 6ème, 17 em 5ème, 10 em 4ème e 4 em 3ème. No total são 52 anos que depois seguem para o Lycée Sophie Germain, onde têm acesso a uma Secção europeia de português.
“Trata-se de uma oferta particularmente relevante, uma vez que não exige concurso nem seleção prévia: os alunos que estudam português num colégio parisiense podem integrar diretamente o Lycée Sophie Germain” explica Chantal da Silva, que também leciona neste liceu.
“Sendo o português a língua proposta aos alunos de 6ème no âmbito de um percurso bilingue, esta situação coloca o ensino do português numa posição particularmente vulnerável”. Foi por isso que Chantal da Silva também apelou à mobilização dos pais e esteve esta manhã em frente do colégio como forma de protesto e para manifestar descontentamento e sensibilizar as autoridades competentes.
“O nosso objetivo é evitar o encerramento desta turma, prevenindo assim o encerramento do colégio e o desaparecimento desta Secção europeia, que já se encontra em vias de extinção no Lycée Molière, onde leciono igualmente” diz Chantal da Silva. “Este ano, por exemplo, contamos ainda com alunos no último ano do ensino secundário (Terminale), após o qual a Secção será encerrada, devido à diminuição do número de alunos e à perda de atratividade do estabelecimento. Consequentemente, todos os alunos da Secção europeia passarão a estar concentrados no Lycée Sophie Germain”.
.
Ministério já começou a dificultar as “derrogações” de acesso

Tratando-se de uma Secção bilingue, os alunos de qualquer escola primária de Paris podem entrar no Collège Pierre-Jean de Béranger, mas Chantal da Silva confirma que alguns pais já disseram que viram os seus pedidos de “derrogação” anulados para o próximo ano.
Acresce que no bairro há uma escola primária com aulas de sensibilização ao português desde os níveis de CM1 e CM2, lecionados por um professor também do Ministério francês da educação, mas uma parte do bairro não é dirigido para este colégio, pelo que “até uma parte importante dessas crianças podem deixar de se inscreverem neste colégio, e ficar sem continuidade no ensino do português” afirma a professora.
O problema coloca-se também, de forma ainda mais grave, no ensino do alemão, porque tem bem menos alunos.
Chantal da Silva diz que o colégio tem uma dinâmica própria, com aulas de latim e grego, com uma turma especializada de Matemática, com viagens ao estrangeiro. “Eu costumo levar os meus alunos a Portugal, todos os dois anos, alternando com a viagem a Espanha organizada pela professora de espanhol. É uma pena quebrar estas dinâmicas” queixa-se ao LusoJornal.
.
Deputados e autarcas mobilizados

Esta manhã, os pais passaram pelo colégio, com ou sem os filhos, para mostrarem descontentamento e cada um foi mobilizando o poder político contra o encerramento da turma.
Foi neste quadro que o Deputado Amirshahi Pouria eleito no 5° círculo eleitoral de Paris pelo grupo Ecologista e Social, se deslocou ao colégio esta manhã. Amirshahi Pouria é franco-iraniano, nasceu no Irão, neto da intelectual e feminista iraniana Moloud Khanlari, ligada ao Partido Tudeh. Entre 2012 e 2017 foi Deputado eleito pelos Franceses do estrangeiro, na altura eleito com as cores do Partido Socialista.
Também a Maire de Paris 3, Ariel Weil, se deslocou ao colégio para se associar ao movimento de protesto, na companhia da Maire-Adjointe de Paris 3, Karine Barbagli.
Chantal da Silva escreveu à Coordenadora do ensino português em França, Isabel Sebastião, mas não obteve qualquer resposta, e escreveu para a Embaixada de Portugal, que transmitiu o protesto da Professora ao Inspetor do Ensino de Português na Academia.
Uma equipa do canal de televisão France 3 esteve no colégio esta manhã e a reportagem foi difundida no Telejornal deste canal, curiosamente com apresentação da lusodescendente Carla Carrasqueira.






