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Estabelecer um diálogo entre a imagem e o poema é uma preocupação constante do poeta Natan Barreto, que se verifica mais uma vez nesta última recolha “O ritmo da roda” (Ed. Kalango, 2019), apresentada recentemente na Librairie Portugaise et Brésilienne, em Paris. Com efeito, tanto nos livros “Movimento imóvel” (2016) e “Bichos: poesias desenhadas” (2017), como agora em “O ritmo da roda”, que compõem a Trilogia dos Livros das Capas Brancas, Natan Barreto reúne poemas relacionados a imagens.

Natan Barreto nasceu num subúrbio de Salvador da Bahia, em Periperi, o “quintal” de sua infância e adolescência. Foi em Paris que Natan Barreto descobriu a Europa, há quase trinta anos, antes de se estabelecer em Londres, onde vive atualmente. É professor do ensino primário e tradutor. Também foi modelo e ator. Em poesia publicou vários livros, dentre os quais «Um quintal e outros cantos» (2018), aqui apresentado há pouco mais de um ano e com o qual o autor obteve o Prémio Sosígenes Costa de Poesia.

“Neste “O ritmo da roda”, – diz-nos Ricardo Viel no prefácio -, o leitor terá diante dos olhos parte da história da humanidade no último século e meio, contada através de 34 fotografias: imagens icônicas, de fotógrafos consagrados ou de autoria desconhecida, acompanhadas de 33 poemas. Por este livro passam escravos e refugiados, passam vítimas de um sistema excludente e preconceituoso, passa a guerra, passa a fome, passa a dignidade que a pobreza às vezes produz, passam a solidão e a injustiça, passa muita dor. Mas passam também beleza, esperança, força, resistência, sorrisos, amor e sonhos”.

Os poemas aqui reunidos são na maioria constituídos por versos livres, numa linguagem sem academismos e numa sintaxe original que sustenta o ritmo e as sonoridades, frequentemente valorizados pelas aliterações. De um poema para outro, o leitor vai participando de um jogo de espelhos imagem/palavras, como no poema “Fim de Fortino Sámano” que dialoga com a foto onde se vê o soldado mexicano encarar o pelotão de execução: “O moço amansa a morte, / como quem doma a noite / que vai cair qual lona: / e será dona dele. / Dona da dor, do nada / (armadilha sem vãos) – / rua que os pés apagam”.

Poderíamos concluir retomando uma das epígrafes do livro: “O que vejo não é uma lembrança, uma imaginação, uma reconstituição (…), mas o real no estado passado” (Roland Barthes).

 

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