Memória, Guerra e Herança: Conversa com Pedro Ribeiro de Menezes

A memória individual é, muitas vezes, o mais precioso arquivo da História coletiva. Nesta entrevista, Pedro Ribeiro de Menezes, de 86 anos, pai do atual Embaixador de Portugal em França, Francisco Ribeiro de Menezes e do historiador e escritor, Filipe Ribeiro de Menezes, partilha recordações da infância, da figura marcante do pai – oficial português na I Guerra mundial -, da influência da cultura francesa na sua formação e da continuidade dessa herança nas gerações seguintes. Entre memórias íntimas e reflexões históricas, desenha-se o retrato de uma família cuja trajetória atravessa fronteiras, guerras e diplomacias.

Pedro Ribeiro de Menezes teve uma carreira variada e brilhante. Começou como Secretário de embaixada e acabou com o grau de Embaixador.
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O seu filho Filipe, disse que o senhor passava pela França e depois ia vê-lo à Irlanda. Tem feito muitas viagens?

Passei a vida toda nisto, sempre a andar de um lado para o outro. Tenho 86 anos, nasci em 1939.

A sua mãe era de origem francesa?

Sim, era. Chamava-se Renée. [ndr: O seu nome era Laure, mas todos a tratavam por Renée].

Ainda mantém ligações familiares em França?

Sim, tenho primos e primas em França, sobretudo na região de Montauban, no sudoeste do país.

A sua educação esteve, de alguma forma, ligada à cultura francesa?

Bastante. A minha mãe manteve sempre uma forte ligação à cultura francesa. Viveu muitos anos em Portugal, mas nunca se sentiu completamente integrada. Para ela, Portugal era o homem com quem casou e a família que construiu, não uma identidade nacional. Falava mal português, cometia erros ao escrever, apesar de ser uma mulher culta e bem-educada. O meu pai falava português connosco, mas com ela falava muitas vezes em francês.

Nunca perdeu o contacto com a língua francesa?

Não. O francês é natural para mim. Culturalmente, cresci entre os dois mundos, muito por influência da minha mãe.

Que imagem guardou de seu pai, Mário Sílvio Ribeiro de Menezes?

Vou falar com o coração nas mãos. Desde pequeno, desde que comecei a ir à escola e a perceber o mundo, senti que havia algo diferente na minha família em relação às dos outros meninos.

Diferente em que sentido?

Tinha um pai de cabelos brancos e uma mãe ainda jovem, com cerca de 40 anos. A minha mãe era muito bonita, muito mesmo. E até aos 14 anos vivi sempre com a preocupação constante com a saúde do meu pai.

Porquê? Ele era muito mais idoso?

Exatamente. E uma criança vai percebendo, pouco a pouco, que as pessoas podem casar mais do que uma vez, que os filhos nascem em diferentes fases da vida. Eu tinha consciência de que viria a perder o meu pai muito cedo, pelo que tinha uma relação com ele de muito afeto, de muita ternura e de preocupação. O meu pai sempre esteve muito presente. Ainda fez outros trabalhos depois de passar à reserva. Trabalhos também um bocadinho “à peça”, aquilo que lhe iam pedindo – por exemplo, a participação em processos disciplinares instaurados dentro do Exército. Eram tarefas encomendadas a profissionais que já estavam meio desligados do serviço. Chegou uma altura em que tudo isso acabou finalmente. Quando, para o meu pai, o trabalho cessou completamente, eu ainda era um miúdo, andava de escola primária, o que explica o facto de ter passado muito tempo com ele.

O seu pai, Mário Sílvio Ribeiro de Menezes, conversava consigo sobre o tempo em que esteve na I Guerra mundial?

Falava muito. O meu pai era um homem com várias qualidades: fundamentalmente bom, bem formado e com um coração do tamanho do mundo. Era um homem afetuoso, católico, conservador e monárquico – mas tudo isto temperado por bom senso. Se me tenho como democrata, se nunca votei em partidos da direita ou da extrema-direita, devo-o ao meu pai. Dizer-se democrata é uma coisa; sê-lo é outra. Nunca vi no meu pai uma atitude que não fosse a de um verdadeiro democrata, próximo de toda a gente. Não fazia distinção entre pessoas: para ele, éramos todos iguais. A maior descompostura que me deu – e eu passei um dia a chorar, tinha cinco anos – foi quando eu disse uma malcriação à criada que tínhamos. O meu pai repreendeu-me como nunca mais voltou a fazê-lo.

Foi para a tropa com os seus dois irmãos. Gostava profundamente da vida militar, sem ser um militarista. Era a sua profissão. Gostava do seu país e da profissão das armas. Foi um oficial correto. Serviu sempre muito devotadamente o seu país até ao fim. Nessa altura, as promoções eram lentas, sobretudo entre Capitão e Major; podiam passar-se, por vezes, vinte anos.

Fez uma guerra muito decente em termos militares. Teve comandos. No 9 de Abril foi totalmente correto, enquanto outros oficiais – não vale a pena citar nomes – estavam mais resguardados. O meu filho Filipe conta isso no seu livro “De Lisboa a La Lys” (ler AQUI). O meu pai preocupava-se sempre com a sorte da sua unidade. Dizia: “Meninos, estou aqui muito bem, mas vou ver o que se passa com a minha rapaziada”. E alguns respondiam-lhe: “O que vais fazer? Estás maluco. Fica aqui e logo se vê”. Mas ele ia à procura dos seus homens. Acabou por ser preso a 9 de abril de 1918 durante a Batalha de La Lys, ligeiramente ferido foi dado como morto. No campo da batalha chegou-se a dizer que estava agarrado a uma metralhadora e que lhe tinham deitado uma manta por cima. Esses rumores chegaram a Portugal. Felizmente, tinha apenas sido feito prisioneiro. Em Lisboa, o seu irmão e meu tio, Vítor Ribeiro de Menezes, pediu informações ao Comité de Prisioneiros de Lausanne. Chegou a rezar-se missa por sua alma. Durante muito tempo esteve dado como desaparecido.

Este assunto da guerra era algo de que seu pai falava facilmente?

Contava muitas histórias. Falava dos seus comandantes e dos homens que serviram com ele. Lembro-me de lhe perguntar, ainda muito novo, se tinha matado alguém durante a guerra. Respondeu-me que podia ter dado ordens de combate – porque era oficial -, mas que preferia não falar disso. Nunca esqueci essa frase.

Chegou a falar-lhe do 9 de Abril?

Sim, mas sempre num tom de desculpabilização da tropa portuguesa. Hoje sabemos que a derrota não se deveu à falta de coragem dos soldados, mas a problemas de organização, recrutamento, treino, equipamento e relacionamento com os aliados ingleses. Uma coisa eram as decisões políticas; outra era o camponês enviado para a guerra sem perceber bem porquê. O meu pai tinha consciência disso e falava muitas vezes da violência brutal do ataque.

Chegou a falar da forma como foram conduzidos como prisioneiros?

Sim. Falou da marcha forçada depois da captura. Sei que passaram por Lille e que houve um campo intermediário antes do definitivo. Muitos fizeram grande parte do caminho a pé.

Como oficial, como viveu o seu pai o tempo que passou no cativeiro?

Contou muitas histórias da camaradagem entre os oficiais portugueses. Havia também questões políticas, mas nunca se sentiu perseguido. Considerava que a guerra tinha sido dura, mas dizia que nunca foi maltratado deliberadamente. Falava da rudeza, do desconforto, da falta de comida e da irregularidade no correio. Comparando com a II Guerra mundial, dizia que a situação tinha sido incomparavelmente menos violenta.

Existe uma fotografia de seu pai no campo de prisioneiros?

Sim, e até aparece num dos livros do meu filho Filipe. Está à porta da barraca, de farda, com camisa branca e gravata, e com uma braçadeira de luto pela morte da mãe dele, a minha avó Filomena.

O seu pai queixou-se da fome no cativeiro?

Sim. A fome foi a maior queixa. Recebiam encomendas muitas vezes abertas ou já com produtos estragados. Chegaram a comer carne de foca. O meu pai era muito esquisito para comer, mas a fome a tudo obriga.

O seu pai escreveu durante a guerra?

Sim escreveu um manuscrito durante o seu cativeiro, manuscrito que esteve sempre guardado. Não era um diário íntimo, mas registros factuais do dia a dia. Após a morte dos meus pais, a minha irmã Cristina, encontrou uma caixa com esses cadernos. Entregou-os ao meu filho Filipe, historiador, que se tornou o guardião dessa memória.

Como sente o facto de o seu filho Francisco, ser hoje Embaixador de Portugal em França, sendo neto de um combatente da I Guerra mundial?

É uma história muito bonita. Os franceses apreciam muito essa ligação. Saber que o avô do Embaixador combateu em solo francês cria uma ligação especial.

Ligação especial mesmo até na língua, não?

Sem dúvida. Eu sou completamente bilíngue e, sinceramente, não noto sotaque no Francisco. Ele está muito bem integrado e tem muito orgulho na memória do avô.

Lembra-se do seu tempo de escola, do tema da I Guerra mundial ser lecionado?

Na escola, a I Guerra mundial era pouco tratada. Havia alguma exaltação cívica, mas pouco aprofundamento. Tudo o que aconteceu entre 1910 e 1928 surgia apenas de passagem. Hoje, a situação é diferente. Há mais acesso à informação, excelentes programas e uma vasta produção historiográfica. No nosso tempo, esses livros não circulavam ou não existiam.

Pedro Ribeiro de Menezes, considera importante estudar-se a história?

Muito importante. Se não conhecemos a nossa História, não nos conhecemos a nós próprios. Sem esse conhecimento, ficamos vulneráveis à manipulação. Faz parte da minha história, da história familiar, a honra de ser Comendador da Legião de Honra, algo que acredito teria deixado os meus pais muito orgulhosos.

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A conversa com Pedro Ribeiro de Menezes revela como a História se entrelaça com a vida privada. A figura do pai – oficial, prisioneiro de guerra, homem de princípios – permanece como eixo moral e afetivo de várias gerações. A influência francesa, a experiência da guerra, a diplomacia contemporânea e o trabalho historiográfico convergem numa mesma linha de continuidade: a consciência de que a memória é responsabilidade.

Como afirma o entrevistado, “somos o que somos também por causa da nossa História”. Preservá-la, estudá-la e transmiti-la não é apenas um dever académico, mas um compromisso cívico e familiar.

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