Memória Viva

Morreu o realizador francês Christian de Chalonge, o realizador de “O Salto”


O realizador francês Christian de Chalonge, que realizou a única longa-metragem sobre a passagem clandestina dos Portugueses para França nos anos 60, “O Salto”, faleceu no passado dia 6 de dezembro, em Saint Denis, na região parisiense, com 88 anos de idade, mas a mulher, Dominique Garnier só anunciou a sua morte na quinta-feira da semana passada.

Christian de Chalonge não era um cineasta qualquer. Embora desconhecido atualmente, recebeu o César do melhor filme e o César do melhor realizador com a sua terceira longa-metragem “L’argent des autres”, em 1979, um filme com Michel Serrault, Catherine Deneuve e Jean-Louis Trintignant, sobre o universo dos bancos.

No total, Christian de Chalonge realizou 9 filmes entre o fim dos anos 1960 e o fim dos anos 1990, tendo terminado a sua carreira com a realização de vários telefilmes, adaptando nomeadamente peças de Molière, assim como vários episódios da série Maigret, de Georges Simenon.

Em “Le Saut / O Salto”, um dos primeiros filmes do realizador, Christian de Chalonge trabalhou com o músico português Luís Cília, então exilado em Paris, que, para além de ter composto a música, foi também consultor do realizador.

Trata-se de um filme – a única longa-metragem até agora realizada – sobre a grande vaga de emigração portuguesa para França nos anos 60, onde quase um milhão de portugueses recorreram a um Passador para fugir da ditadura de Salazar ou das suas consequências.

António, o personagem principal do filme, é um jovem carpinteiro que decide fugir clandestinamente do país para escapar à guerra colonial e à repressão do regime de Salazar. Sem passaporte e sem recursos, decidiu fazer a travessia ilegal pela fronteira espanhola rumo a França.

O filme, construído a partir de uma longa investigação e de testemunhos reais, mergulha no quotidiano desses fugitivos, expondo o medo, a precariedade e a coragem que marcaram esse percurso.

Christian de Chalonge filmou a viagem como um processo de desgaste físico e psicológico, marcado por enganos, exploração e violência. É um dos raros testemunhos filmados que temos dessa época. A clandestinidade transforma cada encontro num risco, e a fronteira, longe de ser apenas uma linha geográfica, torna‑se um espaço de tensão permanente.

Mas ao chegar a Paris, António confronta-se com uma realidade muito distante do sonho de prosperidade que o motivara a partir. A França das “Trinta Gloriosas” precisa de mão de obra, mas acolhe os imigrantes portugueses com hipocrisia e indiferença. O filme mostra alojamentos indignos, trabalho clandestino e redes de intermediários que lucram com a miséria dos recém-chegados. A integração revela-se quase impossível, e a promessa de uma vida melhor esbarra na dureza da condição de imigrante sem documentos.

“O Salto” continua a ser, hoje, um retrato profundamente humano e politicamente incisivo sobre o exílio português nos anos 60 porque combina elementos documentais e ficcionais para denunciar tanto a violência do regime salazarista quanto a ambiguidade da sociedade francesa que se beneficiava dessa imigração.

O filme recebeu o Prémio Jean Vigo em 1968, reconhecimento da sua força estética e do seu compromisso social. Hoje, permanece como uma obra fundamental para compreender a memória da diáspora portuguesa e as dinâmicas migratórias da época. Foi projetado recentemente na Casa de Portugal André de Gouveia, na Cidade universitária internacional de Paris, numa iniciativa de Agnès Pellerin.

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