
No passado dia 14 de março, teve lugar, na sede da Associação Alegres do Norte, em Ivry-sur-Seine, uma conversa-debate dedicada ao tema do voto nas Comunidades portuguesas, que tive o prazer de moderar com a participação do historiador Victor Pereira e de Suzette Fernandes enquanto representante das subscritoras da carta aberta “182 Mulheres portuguesas em França pela democracia e clareza política”.
A conversa não foi gravada intencionalmente, de modo a criar um espaço de palavra livre e informal, onde todos os intervenientes pudessem partilhar ideias e vivências sem qualquer constrangimento. Aqui fica uma espécie de “compte-rendu”.
O encontro reuniu dirigentes associativos, académicos e membros da Comunidade de diferentes gerações, incluindo pessoas que viveram diretamente o período da ditadura e da transição democrática. A iniciativa procurou, assim, criar um espaço aberto e plural de análise e diálogo em torno da evolução do comportamento eleitoral da diáspora portuguesa no pós-Revolução de 25 de Abril de 1974.
Num contexto europeu marcado pelo crescimento de forças nacionalistas e extremistas, o debate centrou-se não apenas na expressão recente do voto na Extrema-direita, mas sobretudo numa constatação partilhada: a abstenção continua a ser o maior “partido” nas Comunidades portuguesas no estrangeiro, configurando um dos principais desafios democráticos da atualidade.
O encontro foi atravessado por uma forte dimensão emocional, onde o sentimento de indignação e a defesa da dignidade emergiram como expressões de uma memória que ser sempre viva: a daqueles que enfrentaram das mais variadas formas a ditadura e se sacrificaram para garantir a liberdade e a democracia. Essa dimensão foi constantemente articulada com a análise de dados concretos, sublinhando que a reflexão política constrói-se tanto a partir de valores e experiências vividas como de números e factos. A atenção aos níveis persistentes e preocupantes de abstenção foi complementada pelo recurso à investigação histórica, lembrando que não é possível compreender plenamente o presente sem conhecer o caminho que o influenciou.
Entre os principais obstáculos identificados ao exercício do direito de voto, destacaram-se as dificuldades logísticas, como o número insuficiente de mesas eleitorais e a distância geográfica, que continuam a impedir muitos cidadãos de participar. Foi sublinhada a necessidade urgente de reforçar os mecanismos de acesso, nomeadamente através de acordos com as autoridades francesas para a abertura de novos locais de voto, do alargamento dos períodos de votação e da consideração de soluções como o voto eletrónico.
Os participantes chamaram igualmente a atenção para a forma como a comunicação institucional e administrativa permanece frequentemente inacessível, distante e elitista, contribuindo para fenómenos de iliteracia política, para a desvalorização da fratura numérica e para um sentimento persistente de não legitimação, como se muitos emigrantes não se sentissem plenamente autorizados a exercer a sua voz cívica.

A reflexão destacou ainda o peso da história: para muitas gerações que viveram a ditadura, falar de política implicava riscos concretos, o que ajuda a explicar a dificuldade em transmitir, ainda hoje, o gesto de participação eleitoral como prática natural e indispensável. Neste contexto, foi também sublinhada a importância de investir na educação cívica, em particular junto das gerações mais jovens.
Outro ponto central do debate foi o sentimento de desvalorização do contributo das Comunidades emigrantes para Portugal. Apesar do papel determinante das remessas na economia nacional, persiste a realidade de que os emigrantes são frequentemente remetidos para uma posição de reivindicação residual, como se estivessem a pedir concessões, a “pedir migalhas” em vez de exercer direitos plenos de cidadania. O próprio direito de voto dos emigrantes, tem aliás, sido posto em causa no debate público. Somos mesmo todos portugueses?

A instrumentalização da imigração portuguesa por partidos da Extrema-direita nos países de acolhimento foi igualmente objeto de preocupação. Os participantes alertaram para estratégias de divisão que procuram explorar fragilidades sociais e políticas, lembrando que os portugueses não estarão imunes a medidas como a “preferência nacional” ou a contestação da binacionalidade, frequentemente associada à ideia de não ser francês “de souche”. Sem deixar de levar a sério o voto na Extrema-direita, foi rejeitada a generalização segundo a qual as Comunidades portuguesas votariam maioritariamente na Extrema-direita, considerando-a uma simplificação perigosa que contribui para o isolamento face a outras Comunidades igual ou maioritariamente alvo de discriminação.
Foi ainda consensual a ideia de que num contexto de participação reduzida, basta uma mobilização organizada de um número limitado de eleitores para influenciar de forma decisiva os resultados eleitorais nas Comunidades. Mais do que compreender apenas o crescimento do voto na extrema-direita, impõe-se então enfrentar as causas profundas da abstenção e reconstruir as condições de participação democrática.
Os intervenientes sublinharam ainda que o interesse dos partidos políticos pelas Comunidades tende a ser episódico e concentrado em períodos eleitorais, contrastando com o trabalho contínuo desenvolvido por associações no terreno, representados na conversa-debate pelos seus dirigentes ou membros como a Memória Viva, Cap Magellan, CCPF e a própria associação Alegres do Norte, que acolheu o evento.

Como foi sublinhado durante o encontro, por um dos seus dirigentes, Bruno Araújo, “o que estamos a viver agora faz parte da história”, lembrando a nossa responsabilidade coletiva perante as gerações futuras.
A conversa-debate evidenciou também que o voto na Extrema-direita não pode ser encarado como expressão de renovação ou solução política, como uma alternativa nunca experimentada. Pelo contrário, o projeto defendido por estas forças, incluindo declarações que sugerem a necessidade de “três Salazares”, revela a intenção de regressar a um passado autoritário ainda mais duro, e não de modernizar ou revitalizar a democracia.
Esta perspetiva reforça a urgência de refletir sobre os riscos reais da sua instrumentalização política e sobre a responsabilidade das Comunidades portuguesas em afirmar os valores de liberdade e cidadania conquistados com tanto esforço pessoal, coletivo e histórico. A Extrema-direita tem instrumentalizado o prazer supremacista e o orgulho histórico de alguns portugueses, mas esse sentimento pode e deve ser canalizado para valorizar a resistência, os valores de liberdade, igualdade e justiça social da democracia e afirmar-nos como herdeiros do 25 de Abril.
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Luísa Semedo






