Lusa / André Kosters

Novas edições das obras de Eduardo Lourenço começam a chegar este mês às livrarias

Novas edições dos livros “O Labirinto da Saudade” e “O Fascismo Nunca Existiu”, de Eduardo Lourenço, chegam este mês às livrarias portuguesas, publicadas pela Gradiva, que inaugura assim a reedição da obra de um dos maiores pensadores da cultura portuguesa.

Considerados dois dos textos-chave de Eduardo Lourenço (1993-2020), “O Labirinto da Saudade” e “O Fascismo Nunca Existiu” constituem um “resgate profícuo sobre a identidade portuguesa para compreender os dias de hoje”, destaca a editora, em comunicado.

O primeiro, publicado originalmente em 1978, é um livro “provocador e lúcido”, considerado “um dos mais marcantes éditos sobre a condição humana e as imagens que criamos de nós mesmos”.

Como descreveu o escritor, ensaísta e professor de filosofia Miguel Real, trata-se de um “livro fundacional da mitologia filosófica portuguesa moderna”, que mergulha nas profundezas do imaginário coletivo para decifrar as tensões, mitos e sonhos que moldaram Portugal ao longo dos séculos, descreve a Gradiva.

Esta obra, não só apresenta um retrato da identidade nacional, como também convida o leitor a “perder-se e a reencontrar-se no espelho enigmático de Portugal”.

“Com olhar crítico, sensibilidade literária e rara capacidade de interpretação cultural, Eduardo Lourenço mostra como a saudade – mais do que sentimento – se tornou a chave simbólica para entender a forma como os portugueses se pensam e se narram”, acrescenta.

Desse modo, serve como um convite a atravessar o “labirinto” que ele próprio cartografa: um espaço onde convivem memória, melancolia, projeções de grandeza e inquietações modernas.

“O Fascismo Nunca Existiu”, lançado em 1976, é uma “provocação intelectual”, como se infere logo do próprio título, uma vez que se trata de um texto que não se limita a discutir o fascismo como fenómeno histórico ou político, questionando-o como mito, como construção imaginária e como espelho das angústias da modernidade europeia.

“Com a lucidez e a ironia que marcam toda a sua obra, desmonta certezas, desafia leituras simplistas e expõe as ambiguidades profundas entre cultura, poder, identidade e violência”, descreve a editora.

Obra entre a filosofia, a história e a crítica cultural, desafia o leitor a pensar para lá das categorias habituais, mostrando que talvez o fascismo “nunca tenha existido” exatamente porque nunca deixou de assumir novas formas.

“Mais do que um ensaio político, este é um livro sobre a fragilidade da democracia, o poder das palavras e a inquietação do homem moderno”, sublinha a editora.

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Viveu grande parte da sua vida em França

Filósofo, ensaísta, crítico literário e professor, Eduardo Lourenço nasceu em 23 de maio de 1923, em S. Pedro de Rio Seco, concelho de Almeida, distrito da Guarda.

Licenciou-se em 1946, em Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, com uma dissertação intitulada “O Idealismo Absoluto de Hegel ou o Segredo da Dialéctica”

Exerceu como professor assistente nessa mesma universidade até 1953 e, desde então, até 1958, exerceu as funções de Leitor de Língua e Cultura Portuguesa nas Universidades de Hamburgo, Heidelberg e Montpellier, tendo lecionado ainda nas universidades de Brasília, Grenoble e Nice.

Ao seu livro “Pessoa Revisitado – Leitura Estruturante do Drama em Gente” foi atribuído o Prémio Casa da Imprensa (1974) e em 10 de junho de 1981 foi condecorado com a Ordem de Sant’Iago d’Espada.

Foi conselheiro cultural na Embaixada de Portugal em Roma, entre 1989 e 1991, e em 2002 foi nomeado Administrador da Fundação Calouste Gulbenkian.

Em 2010, passou a residir entre França e Portugal, até se radicar definitivamente em Lisboa, onde morreu em 01 de dezembro de 2020.

Nos últimos anos, Eduardo Lourenço recebeu inúmeras distinções, entre as quais se destacam o Prémio Camões, em 1996, o Prémio Pessoa, em 2011, o Prémio da Academia Francesa, em 2016, e ainda o Prémio Vida e Obra, da Sociedade Portuguesa de Autores.

A Gradiva mantém a publicação da obra de Eduardo Lourenço há mais de duas décadas, tendo colaborado também com o projeto editorial dedicado ao ensaísta desenvolvido pela Universidade de Évora e a Fundação Calouste Gulbenkian, entre 2011 e 2023.

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