LusoJornal | António BorgaOpinião: A Democracia está em perigo?Carlos Pereira·Opinião·9 Janeiro, 2026 Quando aconteceu a Revolução do 25 de Abril de 1974 eu era ainda um catraio. Mas lembro-me dos meses seguintes, quando as viaturas dos militares percorriam a aldeia onde eu vivia, em Trás-os-Montes, com megafones a convidar a população para as Sessões de esclarecimento na escola primária. Eu ia com a minha avó e assisti a esta “formação” de democracia que jovens soldados faziam, perante uma sala cheia de gente e com a criançada, como eu, sentada no chão, na linha da frente. Foi ali que aprendi o que era a democracia, para que serviam as eleições, quais as funções do Presidente da República, da Assembleia da República e também do poder local (Câmara municipal, Assembleia Municipal, Junta de Freguesia, Assembleia de Freguesia,…). Suponho que os soldados utilizaram propositadamente uma linguagem simples para que a população percebesse e, talvez por isso, também eu percebi ali, naquele contexto, o que era a Democracia. Depois, quando chegava a casa, o meu avô, que não queria saber destas coisas de política para nada, tinha de me ouvir repetir, tintim-por tintim, aquilo que tinha sido explicado. Lembro-me das primeiras eleições livres depois do 25 de abril, com carrinhas a abarrotar de gente que vinha das aldeias vizinhas, vestida a rigor. A taxa de participação ultrapassou os 90%! Qualquer país da Europa nos invejaria hoje. . A Europa ocidental deixou de fazer formação para a Democracia. Partimos do princípio de que tudo se aprende na escola e toda a população sabe o que é um Estado democrático. Pessoalmente lamento que assim seja. A Democracia deve ser aprendida sempre, durante toda a vida. Por exemplo, a grande parte da Comunidade portuguesa de França, chegou aqui antes de 1974 e nunca tinha votado, antes, em Portugal. Aqui também não votavam, porque não podiam e não participaram nas tais Sessões de esclarecimento que foram organizadas em Portugal depois da Revolução, porque já não moravam lá. Agora que podem votar aqui, em França, para as eleições municipais, há muitos portugueses que continuam a não votar. Nunca votaram. . Quando comecei a ver gente a comentar a atualidade política nas redes sociais, confesso que achei que era uma boa notícia. No fundo, estavam a reproduzir, nas redes sociais, o que outrora eram os terreiros das aldeias portuguesas. Descobri, enfim, pessoas que não falavam de política, a fazer intervenções, a serem reativos e a exporem as suas próprias opiniões. Mas confesso também que foi “sol de pouca dura”. As redes sociais não foram feitas para fazer política. Tudo é muito condensado, temos de resumir um pensamento em poucas palavras e a Democracia é precisamente a troca de opiniões, o debate de ideias. E para debater temos de ter tempo para expor, tempo para ouvir, e depois encontrar compromissos. Nas redes sociais nada disto existe, é tudo muito espontâneo e depois, basta que um diga “mata-se” e há logo quem diga “esfola-se”! Há tudo, menos debate. Escrevem-se coisas, mas não se ouvem as opiniões outros. Se é natural que cada um ache que as suas opiniões são as melhores, o debate para ouvir o contraditório e para melhorar as nossas propostas. Na internet, ninguém cede em nada. Então, entram na arrogância e até na violência. Tratam os políticos por tu, como se tivessem andado na escola com eles, insultam e, mais grave ainda, julgam, como se fossem juízes. Tratam os políticos de corruptos, de ladrões, sem qualquer julgamento, como se fossem tribunais. . Os próprios políticos parecem contaminados com esta situação. No interior dos seus próprios partidos, dão cotoveladas nos colegas, para se chegarem à frente, na esperança de terem mais “likes” do que os demais. E os debates? A que ponto chegaram os debates? Na televisão, no Parlamento… Também os políticos são agressivos, falam alto, cortam a palavra dos outros, utilizam linguagem brejeira, achincalhada, de baixo nível… Basta ver como fala Mélenchon ou Ventura, Maduro ou Trump, e quantos outros mais. Pessoalmente, desconfio daqueles que acham que no partido deles todos são bons e nos partidos dos outros todos são maus. Desconfio daqueles que acham que as ideias deles são as melhores e as dos outros não valem nada. Desconfio porque isso é, precisamente, antidemocrático. O pensamento único, é coisa de ditaduras e não de Estados democráticos. Sim, a Democracia está em perigo, embora ainda possa ser salva. . Esta é apenas, a minha opinião!