LusoJornal | António Borga

Opinião: A Deputada Rita Matias humilhou-me profundamente


Tenho por norma respeitar todos os políticos, sejam eles de que partido forem, mas não conheço a Deputada Rita Matias, do partido Chega.

Sigo-a nas redes sociais, como sigo outros políticos, até por razões profissionais evidentes, mas acabo de descobrir um vídeo que a Deputada publicou, tentando ler nomes estrangeiros dos cadernos eleitorais da freguesia de Santa Maria Maior. Tentou ler alguns nomes que não tinham consonância portuguesa e indignou-se que estes eleitores pudessem votar para escolher os dirigentes do país.

Eu moro em França há 42 anos. Nunca fui humilhado desta forma. Voto em França nas eleições em que posso votar, estou inscrito nas listas eleitorais, tenho estado nas mesas de voto, implico-me na vida do país em que resido. Nunca, mas mesmo nunca, ninguém chamou a minha atenção pelo facto de me chamar Pereira, nem nunca ouvi qualquer comentário sobre a participação política daqueles que se chamam Oliveira, Fonseca, Carvalho ou Fernandes.

Se Rita Matias fosse Deputada no Parlamento francês, certamente se indignaria por ver sentada ao seu lado, a Deputada Christine Pires, eleita em Riom, o Deputado Christophe Proença, eleito em Saint-Céré, o Deputado Emmanuel Fernandes, eleito em Strasbourg ou o Deputado Ludovic Mendes, eleito em Metz.

Em Portugal, como em França, o voto está relacionado com cidadania. Vota quem tem a cidadania, quem é cidadão. Ponto final.

Devemos deduzir das palavras da Deputada Rita Matias que apenas deviam votar as pessoas que ela consegue pronunciar o nome?

Por esse caminho, qualquer dia vai querer que apenas votem aqueles que são da religião dela. Qualquer dia vai querer que apenas votem aqueles que são da cor dela. E só não vai dizer que só deviam votar os homens, porque quer guardar o lugar de Deputada, mas qualquer dia vai dizer que apenas deviam poder votar os que pensam como ela e levantar a bandeira do “orgulhosamente sós”.

Há 42 anos que eu tenho de soletrar, em França, o meu nome. Há 42 anos que tenho de corrigir aqueles que escrevem Pereirra ou Pereyra. Mas nunca – mesmo nunca – me senti discriminado por me chamar Carlos e não Charles, ou Pereira e não Poirier.

Ao discriminar os eleitores pelo nome, humilhou-os como eu nunca fui humilhado em França.

Nem Marine Le Pen ousa entrar por este caminho, deixando comentários do mesmo teor dos de Rita Matias ao ultra-extremista francês Eric Zémour, que queria impor que todos os franceses usassem “nomes franceses”. Acabou por, também ele, ser humilhado com os resultados eleitorais na eleição para a Presidência da República para a qual concorreu.

Mais: Rita Matias humilhou também o seu próprio colega de partido, o Deputado José Dias Fernandes que, como eu, vive em França, e, como eu, vai poder votar, nos próximos dias 15 e 22 de março, mas eleições municipais francesas, para eleger o Maire da localidade onde reside. Mesmo chamando-se José Dias Fernandes!

Rita Matias humilhou-nos aos dois, porque nós também somos imigrantes e também temos um nome estrangeiro no país onde residimos.

Que falta de sentido político da Deputada Rita Matias!