Viver fora de Portugal dá-nos uma vantagem rara: a distância crítica.
Distância suficiente para reconhecer os excessos do discurso político, mas também para identificar, com clareza, quando alguém fala para governar e quando alguém fala apenas para agitar. Foi com esse olhar, o de quem vive entre dois espaços políticos e culturais que assisti ao debate entre António José Seguro e André Ventura.
Nunca tinha ouvido André Ventura em direto durante tanto tempo. Desligava a televisão ou mudava de canal.
A impressão foi imediata e desconcertante. O seu discurso revelou-se vazio, sem coerência interna, saltando de tema em tema, misturando alhos com bugalhos, insistindo repetidamente na acusação de que o adversário “não tinha programa”.
No entanto, ao longo de todo o debate, Ventura também não apresentou qualquer proposta estruturada para o país.
Para além da recorrente ideia de rever a Constituição segundo critérios vagos e perigosamente personalistas, nada foi apresentado como projeto político consistente.
Mais preocupante ainda foi a recusa sistemática em responder a uma questão central levantada pela jornalista: as afinidades e eventuais ligações ideológicas com Donald Trump e o trumpismo.
Perante a insistência, Ventura escolheu o silêncio e a evasão.
Para quem observa a política a partir da diáspora, onde os efeitos do populismo autoritário já se fizeram sentir com força noutros países, essa fuga não é um detalhe, é um sinal de alerta.
Em contraste, António José Seguro apresentou-se com serenidade e sentido institucional.
Falou com a calma de quem compreende o Estado e respeita as suas regras.
Demonstrou capacidade de diálogo com as forças políticas democráticas, sublinhando sempre os limites e as responsabilidades de um Presidente da República num regime semipresidencial como o português.
Ao contrário do seu adversário, Seguro não confundiu o papel de chefe de partido com o de Presidente, distinção essencial e tantas vezes esquecida no debate público.
A clivagem entre ambos tornou-se ainda mais evidente no tema da imigração, uma questão particularmente sensível para quem vive fora do país.
Aqui, Seguro desmontou com clareza o discurso simplista e alarmista da extrema-direita. Afirmou, sem rodeios, que a imigração não é uma ameaça, mas uma necessidade estrutural para Portugal: para responder ao envelhecimento demográfico, sustentar o mercado de trabalho e acompanhar a modernização da economia.
Para quem faz parte da diáspora portuguesa, este ponto é essencial. Muitos dos que hoje trabalham, produzem riqueza e mantêm laços com Portugal conhecem bem o que significa ser emigrante e sabem que o desenvolvimento do país sempre esteve ligado à mobilidade humana.
Enquanto Ventura explorou o medo e a caricatura, Seguro falou de integração, regulação responsável e dignidade, articulando o interesse nacional com valores humanistas.
No essencial, o debate deixou clara uma diferença profunda. André Ventura falou como líder de um partido de extrema-direita, prisioneiro do ruído, da provocação permanente e da política do ressentimento.
António José Seguro falou como alguém preparado para assumir funções de representação nacional, com sobriedade, visão e sentido histórico.
Para quem observa Portugal a partir da diáspora, a distinção é evidente: entre o ruído e a responsabilidade, entre a agitação e o Estado, entre o imediato e o futuro.
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José Robalo
Movimento Sinergias da Diáspora






