Portugal tornou-se, nos últimos anos, um país de imigração.
Mas não de uma imigração única. De duas imigrações profundamente diferentes, com impactos económicos, sociais e demográficos opostos.
No início de 2025, Portugal contava com cerca de 1,55 a 1,6 milhões de imigrantes residentes legais, o equivalente a 14-15% da população total.
Tratar este universo como um bloco homogéneo é um erro que empobrece o debate público e alimenta discursos simplistas.
Os dados disponíveis permitem distinguir claramente entre imigração económica e imigração de conforto (a que eu chamo imigração Museu), realidades que não devem ser confundidas.
Quem trabalha e sustém o país
A imigração económica é composta maioritariamente por trabalhadores oriundos do Brasil, PALOP, Índia, Nepal, Bangladesh, Paquistão e Norte de África.
Estes trabalhadores garantem o funcionamento de setores estruturais como a agricultura, a construção, a hotelaria, a restauração, a limpeza, a logística e os serviços.
São áreas onde a mão-de-obra nacional é insuficiente e onde a economia portuguesa depende hoje, de forma objetiva, do trabalho de mão de obra estrangeira.
Atualmente, cerca de 500.000 a 550.000 imigrantes encontram-se em emprego formal, com descontos regulares para a Segurança Social.
Em 2023-2024, esses trabalhadores contribuíram com 3,3 a 3,6 mil milhões de euros por ano para a Segurança Social e receberam menos de 700 milhões de euros em prestações sociais.
O saldo é claramente positivo.
Estima-se, aliás, que cerca de 17% das pensões pagas em Portugal sejam hoje financiadas por contribuições de trabalhadores imigrantes.
Sem imigração económica, o sistema de pensões estaria sob pressão muito maior.
Crescimento, PIB e demografia
O contributo direto e indireto da imigração económica representa 5 a 6% do PIB português.
Entre 2015 e 2022, a imigração foi responsável por 0,3 a 0,5 pontos percentuais do crescimento anual do PIB.
Sem estes trabalhadores, o crescimento seria mais fraco, as receitas fiscais menores e o Estado Social mais vulnerável.
Do ponto de vista demográfico, o impacto é igualmente evidente.
Portugal tem uma das taxas de natalidade mais baixas da União Europeia, e em várias regiões uma parte significativa dos nascimentos já corresponde a filhos de imigrantes.
A imigração económica não é um custo.
É um fator de estabilidade económica e social.
A imigração que não trabalha
Existe, porém, uma outra realidade raramente questionada no debate público: a imigração de aposentados e residentes abastados, sobretudo oriundos do Norte da Europa.
São pessoas que vivem de pensões, rendas ou capitais gerados no estrangeiro; não exercem atividade produtiva em Portugal; têm contribuição inexistente ou marginal para a Segurança Social; concentram-se em zonas turísticas e pressionam fortemente o mercado imobiliário.
Aqui, os números também falam por si.
Se Portugal tem 1,55-1,6 milhões de imigrantes residentes e apenas 500-550 mil estão em emprego formal, então existem cerca de 1 milhão de imigrantes fora do mercado de trabalho formal.
É nesta diferença que se encontram os aposentados estrangeiros, os residentes de conforto e uma imigração essencialmente rentista: a tal imigração museu.
Uma imigração que consome, mas não produz, e que contribui para a inflação dos preços da habitação sem resolver os problemas estruturais da economia.
Designá-la como imigração museu não é um insulto.
É uma descrição económica.
Um discurso politicamente contraditório
O discurso extremista revela uma contradição evidente: ataca quem trabalha, produz e paga impostos, enquanto silencia ou protege a imigração rica e improdutiva.
O trabalhador agrícola é apresentado como ameaça.
O aposentado estrangeiro que compra imóveis é apresentado como investidor.
Não se trata de patriotismo.
Trata-se de diferença de classe disfarçada de discurso identitário.
O outro lado da equação: a emigração portuguesa
Qualquer debate sério sobre imigração deve incluir um dado frequentemente esquecido: a emigração portuguesa.
Os emigrantes portugueses espalhados pelo mundo, uns dizem 5 milhões de Lusodescendentes (não há estatísticas oficiais) continuam a ter um impacto económico estrutural sobre Portugal, através de: remessas financeiras; consumo de produtos portugueses no exterior (mercado da saudade); investimento imobiliário; impostos pagos em Portugal; Turismo de Regresso.
As estimativas disponíveis apontam para um impacto global da emigração portuguesa entre 8 e 10% do PIB, considerando o conjunto destes fluxos.
Portugal sempre beneficiou da mobilidade dos seus cidadãos.
Ignorar este facto é esquecer a própria história económica do país.
Imigração e emigração – números essenciais
Imigrantes residentes totais: 1,55 a 1,6 milhões
Percentagem da população: 14-15%
Imigrantes em emprego formal: 500-550 mil
Contribuições para a Segurança Social: 3,3-3,6 mil M€/ano
Prestações sociais recebidas: <700 M€/ano
Pensões financiadas por imigrantes: ~17%
Contributo da imigração para o PIB: 5-6%
Imigrantes não-ativos: ~1 milhão
Impacto da emigração portuguesa no PIB: 8-10%
Distinguir para decidir
Portugal não precisa de slogans sobre imigração. Precisa de distinções claras, políticas racionais e dados verificáveis.
A imigração económica sustém o país.
A imigração de conforto cria desequilíbrios.
A emigração portuguesa continua a ser um pilar silencioso da economia nacional.
Portugal constrói-se com quem trabalha, cá dentro e lá fora.
E isso não é ideologia.
São números.
Fontes estatísticas e institucionais
1. Número de imigrantes residentes em Portugal (2024-2025). Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA); Instituto Nacional de Estatística (INE). População estrangeira residente estimada entre 1,55 e 1,6 milhões (≈14-15% da população total).
2. Imigrantes em emprego formal. Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social; Segurança Social; Comissão Europeia (DG HOME). Trabalhadores estrangeiros com descontos regulares estimados em 500.000 a 550.000.
3. Contribuições para a Segurança Social. Segurança Social; Ministério das Finanças; Comissão Europeia. Contribuições anuais dos trabalhadores imigrantes: 3,3 a 3,6 mil milhões de euros (2023-2024). Prestações sociais recebidas: < 700 milhões de euros.
4. Financiamento do sistema de pensões. Comissão Europeia – Directorate-General for Migration and Home Affairs. Estimativa de ~17% das pensões pagas em Portugal financiadas por contribuições de trabalhadores imigrantes.
5. Impacto da imigração no PIB e no crescimento económico. Banco de Portugal; estudos económicos citados pela imprensa económica portuguesa. Contributo direto e indireto da imigração estimado em 5-6% do PIB. Impacto no crescimento anual do PIB: +0,3 a +0,5 pontos percentuais (2015-2022).
6. Demografia e natalidade. INE; Eurostat. Parte significativa dos nascimentos em várias regiões atribuída a filhos de imigrantes; taxa de natalidade nacional entre as mais baixas da UE.
7. Remessas dos emigrantes portugueses. Banco de Portugal. Remessas financeiras recebidas: ≈4,3 mil milhões de euros em 2024 (valor recorde).
8. Impacto económico global da emigração portuguesa. Banco de Portugal; estudos sobre balança de pagamentos, consumo externo de produtos portugueses e investimento da diáspora. Impacto económico agregado (remessas, consumo, investimento, turismo de regresso, impostos): estimado entre 8 e 10% do PIB (ordem de grandeza). As estimativas agregadas referem-se a ordens de grandeza e combinam dados oficiais, estudos económicos e fluxos macroeconómicos consolidado;
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José Robalo
Movimento Sinergias da Diáspora






