Há algo que me custa profundamente entender em relação a alguns portugueses que vivem fora e em Portugal. Muitos dos que hoje apoiam discursos que culpam os imigrantes por tudo e todos os “males” pelas ajudas sociais, pela criminalidade, pelas dificuldades económicas ou pela falta de oportunidades. São, muitas vezes, os mesmos que apontam o dedo aos emigrantes portugueses quando regressamos ao nosso país no verão.
Chamam-nos “avecs”, dizem que entupimos as estradas, que fazemos subir os preços, que criamos filas em todo o lado. Olham-nos com desdém quando vestimos roupas de marca ou conduzimos um carro melhor, como se isso fosse sinal de ostentação e não o resultado de anos de trabalho duro, sacrifícios, saudades e distância da família.
Esquecem-se das jornadas longas, dos empregos difíceis, da solidão e das renúncias que a emigração exige. Esquecem-se de que nada nos foi oferecido.
No fim de agosto, ouve-se quase com alívio: “Agora já se pode andar, os avecs já foram embora”.
É duro ouvir isto no nosso próprio país.
Nós, emigrantes, quando chegamos a Portugal, somos muitas vezes tratados como estrangeiros, quase como intrusos. Paradoxalmente, quem mais parece apreciar a nossa presença são os restaurantes, os cafés, os supermercados, os pequenos comércios, as oficinas. A economia local beneficia do nosso regresso, mas parte da sociedade continua a olhar-nos de lado.
Esta não é uma realidade recente. Desde os anos 70 e 80 que muitos emigrantes vivem com este estigma. Fomos sempre vistos como “os que foram embora”, como se tivéssemos traído o país, quando na verdade tivemos apenas a coragem de procurar uma vida melhor, tal como os imigrantes que hoje chegam a Portugal.
No fundo, a história repete-se.
Portugal sempre foi um país de emigrantes. Milhares de famílias portuguesas espalharam-se pelo mundo em busca de dignidade e futuro. Criticar quem agora faz o mesmo, é esquecer a nossa própria história.
É falta de memória.
O que mais me entristece é ver filhos da emigração, pessoas cujos pais ou avós também partiram, juntarem-se a discursos anti-imigração.
Como é possível negar aos outros aquilo que um dia foi essencial para nós?
Precisamos de mais empatia, mais respeito, mais humanidade.
Votar é um direito. E, se não nos revemos em determinado candidato, também existe a possibilidade de não votar. O que não podemos é cair em discursos de medo, divisão e ódio.
“Porque uma raposa disfarçada em cordeiro continuará sempre a ser raposa”.
Tenham memória.
Abril sempre.
Fiquem bem
.
Luís Gonçalves







Obrigado Luís pelo seu testemunho.
António Nogueira (psicólogo)