Opinião: Presidenciais – vitória de Seguro, alerta democrático na diáspora_LusoJornal·Opinião·10 Fevereiro, 2026 A campanha eleitoral terminou com uma vitória inequívoca e indiscutível de António José Seguro. Uma vitória construída sobre a salvaguarda da estabilidade institucional, não no entusiasmo eufórico de uma política anunciada: afastou-se deste modo o confronto permanente suscitado e alimentado pela Extrema Direita. O país escolheu um Presidente percebido como garante do equilíbrio do regime democrático. No entanto, quando se observa o comportamento eleitoral da Comunidade portuguesa em França, o resultado impõe uma leitura mais exigente e um olhar politicamente inquietante. A participação foi extremamente baixa: cerca de 4% dos eleitores inscritos. Entre os poucos que se mobilizaram, foi a extrema-direita que obteve a maioria dos votos. Este dado não pode ser relativizado nem banalizado. Não traduz uma adesão massiva da Comunidade a projetos autoritários, a ódios raciais, mas revela algo talvez mais grave: a capacidade da Extrema-direita em ocupar o vazio deixado pela ausência das instituições democráticas junto da diáspora. Quando a maioria se abstém, não vence a neutralidade, vence quem grita mais alto, simplifica mais e mobiliza melhor o ressentimento. A extrema-direita não cresce por convencer maiorias, mas por explorar a distância, o abandono político e a sensação de invisibilidade cívica. Este voto não é apenas um voto ideológico; é um voto de rutura, alimentado por anos de negligência política em relação às comunidades no estrangeiro. Ignorar este sinal seria um erro estratégico e um erro democrático. . Depois da campanha: o papel político do Presidente A eleição de António José Seguro encerra um ciclo eleitoral, mas abre uma fase de responsabilização política, incluindo no que respeita à emigração. Durante a campanha, nomeadamente na sua passagem por Paris, o candidato manteve posições vagas sobre temas centrais para as comunidades portuguesas no estrangeiro. Essa prudência eleitoral já não é suficiente, nem aceitável. O Presidente da República não governa, mas tem poder de influência, de palavra e de agenda. E é precisamente nesses domínios que pode fazer a diferença. . 1. Política de emigração Portugal continua a olhar para a emigração através de um prisma assistencialista e emocional. A diáspora é frequentemente evocada como memória, sacrifício ou saudade e raramente como ator económico, social, cultural e estratégico. O Presidente pode e deve exigir uma política pública que reconheça as Comunidades no estrangeiro como parte integrante do povo português. . 2. Voto eletrónico A abstenção massiva no estrangeiro não é apatia cívica: é consequência direta de um sistema de voto desajustado. O voto eletrónico tem sido sucessivamente adiado, diluído em estudos e comissões, sem qualquer resultado pratico. O Presidente pode e deve forçar um debate sério, exigir compromissos claros e prazos concretos. A democracia não pode aceitar que milhões de cidadãos fiquem, na prática, excluídos da vida política da República Portuguesa. . 3. Representatividade parlamentar da diáspora Quatro Deputados para milhões de portugueses espalhados pelo mundo constituem uma distorção democrática evidente. Esta sub-representação irrisória alimenta o afastamento, a desconfiança e, em alguns casos, o voto de rutura. O Presidente pode colocar esta questão no centro do debate nacional, não como concessão, mas como exigência de igualdade cívica inscrita na Constituição da República Portuguesa como direito e igualdade de cidadania. . Menos saudade, mais cidadania A Extrema-direita não venceu em França por força própria; venceu porque o Estado português continua ausente do espaço cívico da emigração. Enquanto milhões de portugueses no estrangeiro permanecerem politicamente sub-representados, logisticamente excluídos do voto e simbolicamente reduzidos à saudade, o terreno continuará fértil para discursos de rutura. A eleição de António José Seguro oferece uma oportunidade clara: ou a Presidência assume a diáspora como questão central da democracia portuguesa, ou aceitará que outros ocupem esse vazio com respostas simplistas e perigosas. O tempo dos gestos simbólicos terminou. O combate à abstenção, à radicalização e à marginalização política da emigração não se faz com palavras, faz-se com reformas, pressão institucional e coragem política. António José Seguro é o Presidente de todos os portugueses: dos portugueses do Chega, dos portugueses do PS, dos portugueses do PSD, dos portugueses de todos os partidos e dos PORTUGUESES DE LÁ E DE CÁ. . A diáspora não pede privilégios. Exige direitos. E um Presidente da República não pode ignorar esse aviso. . José Robalo Movimento Sinergias da Diáspora