Opinião: Presidenciais – vitória de Seguro, alerta democrático na diáspora


A campanha eleitoral terminou com uma vitória inequívoca e indiscutível de António José Seguro. Uma vitória construída sobre a salvaguarda da estabilidade institucional, não no entusiasmo eufórico de uma política anunciada: afastou-se deste modo o confronto permanente suscitado e alimentado pela Extrema Direita. O país escolheu um Presidente percebido como garante do equilíbrio do regime democrático.

No entanto, quando se observa o comportamento eleitoral da Comunidade portuguesa em França, o resultado impõe uma leitura mais exigente e um olhar politicamente inquietante.

A participação foi extremamente baixa: cerca de 4% dos eleitores inscritos. Entre os poucos que se mobilizaram, foi a extrema-direita que obteve a maioria dos votos.

Este dado não pode ser relativizado nem banalizado.

Não traduz uma adesão massiva da Comunidade a projetos autoritários, a ódios raciais, mas revela algo talvez mais grave: a capacidade da Extrema-direita em ocupar o vazio deixado pela ausência das instituições democráticas junto da diáspora.

Quando a maioria se abstém, não vence a neutralidade, vence quem grita mais alto, simplifica mais e mobiliza melhor o ressentimento. A extrema-direita não cresce por convencer maiorias, mas por explorar a distância, o abandono político e a sensação de invisibilidade cívica.

Este voto não é apenas um voto ideológico; é um voto de rutura, alimentado por anos de negligência política em relação às comunidades no estrangeiro. Ignorar este sinal seria um erro estratégico e um erro democrático.

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Depois da campanha: o papel político do Presidente

A eleição de António José Seguro encerra um ciclo eleitoral, mas abre uma fase de responsabilização política, incluindo no que respeita à emigração.

Durante a campanha, nomeadamente na sua passagem por Paris, o candidato manteve posições vagas sobre temas centrais para as comunidades portuguesas no estrangeiro. Essa prudência eleitoral já não é suficiente, nem aceitável.

O Presidente da República não governa, mas tem poder de influência, de palavra e de agenda. E é precisamente nesses domínios que pode fazer a diferença.

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1. Política de emigração

Portugal continua a olhar para a emigração através de um prisma assistencialista e emocional. A diáspora é frequentemente evocada como memória, sacrifício ou saudade e raramente como ator económico, social, cultural e estratégico. O Presidente pode e deve exigir uma política pública que reconheça as Comunidades no estrangeiro como parte integrante do povo português.

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2. Voto eletrónico

A abstenção massiva no estrangeiro não é apatia cívica: é consequência direta de um sistema de voto desajustado. O voto eletrónico tem sido sucessivamente adiado, diluído em estudos e comissões, sem qualquer resultado pratico.

O Presidente pode e deve forçar um debate sério, exigir compromissos claros e prazos concretos.

A democracia não pode aceitar que milhões de cidadãos fiquem, na prática, excluídos da vida política da República Portuguesa.

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3. Representatividade parlamentar da diáspora

Quatro Deputados para milhões de portugueses espalhados pelo mundo constituem uma distorção democrática evidente. Esta sub-representação irrisória alimenta o afastamento, a desconfiança e, em alguns casos, o voto de rutura. O Presidente pode colocar esta questão no centro do debate nacional, não como concessão, mas como exigência de igualdade cívica inscrita na Constituição da República Portuguesa como direito e igualdade de cidadania.

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Menos saudade, mais cidadania

A Extrema-direita não venceu em França por força própria; venceu porque o Estado português continua ausente do espaço cívico da emigração. Enquanto milhões de portugueses no estrangeiro permanecerem politicamente sub-representados, logisticamente excluídos do voto e simbolicamente reduzidos à saudade, o terreno continuará fértil para discursos de rutura.

A eleição de António José Seguro oferece uma oportunidade clara: ou a Presidência assume a diáspora como questão central da democracia portuguesa, ou aceitará que outros ocupem esse vazio com respostas simplistas e perigosas.

O tempo dos gestos simbólicos terminou. O combate à abstenção, à radicalização e à marginalização política da emigração não se faz com palavras, faz-se com reformas, pressão institucional e coragem política.

António José Seguro é o Presidente de todos os portugueses: dos portugueses do Chega, dos portugueses do PS, dos portugueses do PSD, dos portugueses de todos os partidos e dos PORTUGUESES DE LÁ E DE CÁ.

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A diáspora não pede privilégios. Exige direitos.

E um Presidente da República não pode ignorar esse aviso.

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José Robalo

Movimento Sinergias da Diáspora