Um dos dramaturgos mais conhecidos no Mundo do Teatro, a nível Europeu, ou mesmo a nível Mundial, é Tiago Rodrigues. Não diria que Tiago Rodrigues é português, porque ele é Universal: na arte que é a sua, Tiago Rodrigues, transporta valores universais que se revelam serem valores de toda a Humanidade.
A peça de teatro “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas” atacada com muito alarido por gentes ligadas às políticas da Extrema-Direita em França ou na Alemanha, enquadra-se perfeitamente na era do nosso tempo. Por toda a parte na Europa e no Mundo este renascimento de ideias fascizantes tornam esta peça de teatro um símbolo vivo do que é essencialmente esta arte:
Se compararmos o Teatro com a Literatura, a Poesia, e a Pintura obtemos um quadro explicito e revelador da essência do dramaturgo Tiago Rodrigues:
– A Literatura fica no papel e pode ser lida séculos depois…
– A Pintura fica na tela e pode ser contemplada séculos depois…
– A Poesia fica na palavra e pode ser declamada séculos depois…
– O Teatro vive-se no corpo e acontece aqui e agora…
“Catarina e a Beleza de Matar Fascistas” é uma vivência aqui e agora do que acontece aqui e agora… em Portugal, em França, na Alemanha… na Europa.
A peça: um ritual, uma hesitação, uma pergunta
Estreada em 2020, a peça coloca-nos perante uma família portuguesa que mantém, há gerações, um ritual perturbador: matar um fascista por ano. O nome Catarina evoca inevitavelmente, Catarina Eufémea, símbolo da resistência ao regime salazarista.
Mas o centro da peça não é o ato em si mesmo, é a hesitação.
A jovem Catarina, chamada a cumprir o ritual pela primeira vez, recusa a obediência automática. Questiona a legitimidade moral do gesto. Quem decide quem é fascista? Pode a violência defender a democracia? Será possível combater o autoritarismo sem nos tornarmos autoritários?
Tiago Rodrigues não oferece respostas. Oferece tensão. E no teatro, a tensão é pensamento em estado puro.
Tiago Rodrigues, o teatro e a coragem de fazer perguntas difíceis
Quando um título incomoda antes mesmo de se abrir o pano, sabemos que estamos diante de teatro verdadeiro. “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas” não é um slogan político nem um manifesto incendiário. É, um questionamento, é uma pergunta como tantas outras que poderíamos fazer: quem é fascista? Quem é antissemita?
E talvez seja essa a função mais nobre da arte: perguntar quando todos preferem respostas fáceis.
O seu autor, é hoje uma das figuras centrais do teatro europeu. Desde 2022 dirige o prestigiado Festival d’Avignon, tornando-se o primeiro português a assumir a direção artística daquele que é considerado o mais importante festival de teatro da Europa. Não é apenas uma conquista pessoal. É um sinal de maturidade cultural de um país que durante décadas viveu sob censura.

Memória portuguesa e inquietação europeia
Portugal viveu 48 anos de ditadura. A geração que hoje enche as salas de teatro não viveu o Estado Novo, mas vive a sua memória. Esta geração vive as sucessivas transmissões da nossa Sociedade.
E na Europa contemporânea, França, Alemanha, Itália, Portugal, etc., assistimos ao crescimento de discursos extremistas, revisionismos históricos e tentações autoritárias.
A peça, “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”, não é um apelo literal à violência, mas sim uma reflexão sobre o paradoxo democrático:
– Até onde deve ir a tolerância?
– Pode uma democracia aceitar quem quer destruí-la?
– O chamado “paradoxo da tolerância” deixa de ser conceito filosófico e torna-se conflito dramático diante dos nossos olhos, aqui… e agora…
Talvez por isso tenha gerado protestos em várias cidades europeias. Porque toca num nervo sensível. Porque obriga a pensar.
O teatro como arte viva
A literatura permanece no papel.
A pintura permanece na tela.
A poesia permanece na palavra escrita.
O teatro, pelo contrário, vive no corpo. Acontece diante de nós. Respira o mesmo ar que o público. Não é apenas representação, é uma presença, tornando-se uma reflexão coletiva.
Essa dimensão viva explica a polémica. O que num livro poderia ser metáfora, no palco torna-se confronto direto. O teatro não permite distância confortável. Obriga-nos a decidir intimamente onde nos posicionamos e imediatamente tomarmos posição, aqui… e agora… da problemática apresentada.
E isso é profundamente democrático.
Tiago Rodrigues em Avignon: um símbolo
A presença de Tiago Rodrigues à frente do Festival de Avignon é também um símbolo. Um dramaturgo português, oriundo de um país periférico da Europa, dirige hoje o centro do pensamento teatral europeu. Não exportamos apenas sol e gastronomia. Exportamos pensamento crítico, memória histórica e capacidade de questionamento.
Num tempo de simplificações mediáticas e discursos inflamados, a arte de fazer perguntas é um ato de coragem.
Conclusão: a verdadeira pergunta
Talvez a questão essencial de “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas” não seja “é belo matar fascistas?”. Talvez seja outra: Como impedir que o fascismo volte sem perdermos a nossa humanidade?
O teatro não resolve a política. Mas lembra-nos que a política é feita de escolhas morais. E quando uma peça provoca desconforto, talvez seja porque ainda estamos vivos o suficiente para sentir e agir.
Tiago Rodrigues honra essa tradição: a de um teatro que não consola, mas desperta.
E num mundo adormecido por certezas rápidas, despertar já é um gesto revolucionário.
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José Robalo
Movimento Sinergias da Diáspora






