Ricardo Caliço, Diretor Geral da Caixa Geral de Depósitos, diz que a Comunidade portuguesa está bem integrada em França

Fundada no dia 10 de abril de 1876, a Caixa Geral de Depósitos, é um banco do Estado português com uma vasta rede de agências em Portugal, mas também com algumas sucursais no estrangeiro.

A Caixa Geral de Depósitos chegou a França nos anos 70 e depois da fusão com o Banque Franco-Portugaise, pode dizer que está em França, oficialmente, há mais de 100 anos.

Ricardo Caliço é o Diretor Geral da sucursal de França da Caixa Geral de Depósitos e nesta longa entrevista ao LusoJornal fala da missão do banco em França, mas também faz uma análise da Comunidade portuguesa instalada neste país.

Ricardo Caliço está em França desde 2018, mas tem uma vasta experiência internacional, que vai dos Estados Unidos à África do Sul.

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Quais são as bases da Caixa Geral de Depósitos em França?

O Banque Franco-Portugaise estava muito implantado na Comunidade portuguesa e era, por natureza, um banco de retalho, ligado aos negócios e aos pequenos negócios dos portugueses em França. A Caixa Geral de Depósitos chegou mais tarde, numa lógica de captação de poupança. A fusão destes dois bancos deu aquilo que é hoje a Caixa Geral de Depósitos em França. A Comunidade portuguesa está no ADN do banco, muito ligada ao imobiliário, aos serviços, ao retalho alimentar, à prestação de serviços ligados à logística, à construção civil, portanto, um leque relativamente importante de atividades, muito tipicamente de pequena e média dimensão. E, com esta atividade, a Caixa tem tido uma presença sempre estável em França, a apoiar a comunidade.

É um percurso interessante?

É um aspeto que é importante, porque, de facto, é muito difícil vingar no setor financeiro em França porque o mercado é muito sofisticado. Tal como noutros setores. As pessoas podem não ter a noção disso, mas em quase todos os setores económicos, a França tem um representante, quer na farmacêutica, quer na construção automóvel, quer nos seguros, quer na banca, tem sempre um ou dois representantes ou até mais. Em termos relativos, compara com grandes blocos económicos, como a China ou os Estados Unidos, apesar da França ter uma dimensão relativamente pequena, face a esses países. Continua a ter uma forte presença, em todos os setores que podemos pensar, dos vinhos, ao alimentar, ao retalho, ao grande retalho, à hotelaria, temos sempre um grupo francês que vai rapidamente chegar ao topo, e no setor financeiro também, portanto, é muito difícil, de facto, ser competitivo aqui. E isso é mais um testemunho à capacidade dos portugueses e aos empresários portugueses em particular, que conseguiram vingar neste mercado, que é um mercado relativamente duro, e também é verdade para o grupo Caixa Geral de Depósitos, que conseguiu afirmar-se neste mercado e encontrar o seu espaço, ligado de início à Comunidade portuguesa, mas alargando a sua base de atividade ao que é hoje o presente da Comunidade portuguesa, que é uma Comunidade muito implantada, integrou-se muito bem, e verdadeiramente – para sucesso de todos e também do banco – é uma Comunidade que teve sucesso em França.

Então, o que distingue a Caixa Geral de Depósitos dos grandes bancos franceses?

Somos um banco de relação – aqui chamamos-lhe “à taille humaine” – um banco que tem ainda a proximidade com o cliente e isso é que, no fundo, valoriza o posicionamento do banco face aos demais. O banco não trabalha só com a Comunidade portuguesa, é um banco aberto ao público em geral. Após o Covid, as pessoas começaram a valorizar ainda mais a possibilidade de ter alguém ao telefone, ter alguém com quem conversar e não ter de cair num ‘call center’ e não conseguir, de facto, avançar com os seus negócios. E com as pequenas e médias empresas isso ainda é mais uma necessidade. Esse é o nosso modelo, e funciona, está visto.

Qual é a rede do banco em França?

Temos 48 agências, sobretudo concentradas na Îlle-de-France, onde temos 39 agências e as outras 9 na província, espalhadas onde há mais concentração histórica de portugueses. Mas hoje, mais do que falar de agências, o nosso modelo não é estar sentado, bem distinto daquilo que são outros posicionamentos da banca francesa, que é estar sentado na agência à espera que o cliente entre e faça negócio. A nossa lógica é de ir ver o cliente, falar com ele, perceber, sentir o negócio. E sentimos um grande prazer nisso, porque os clientes também têm um grande prazer em mostrar os seus negócios.

E quantos clientes tem o banco em França?

Temos cerca de 150 mil clientes, 10% deles – 15 mil – são empresas, espalhadas por toda a França.

Que tipo de clientes-empresas tem a Caixa Geral de Depósitos?

O essencial das empresas está muito ligado aos setores tradicionais da Comunidade portuguesa. Não termos saído muito do nosso ADN. Temos muitas empresas ligadas ao imobiliário, empresas de construção, empresas de promoção, investidores imobiliários… historicamente os Portugueses têm investido muito no setor imobiliário. Não são os únicos, outras Comunidades também o fazem, como por exemplo os judeus ou a Comunidade chinesa. Por um lado, o português gosta do investimento em imobiliário, por outro lado, teve bons resultados no investimento imobiliário. Também há aqui tendências macrofrancesas que nos ajudam: o mercado de arrendamento funciona, um terço das pessoas alugam casa, há um mercado de arrendamento estável, há uma procura de arrendamento constante e é fácil encontrar quem aluga. Os portugueses têm tido bons retornos neste setor e um bom investimento traz outro bom investimento. Em França têm sido criados muitos incentivos de diferentes governos em diferentes momentos, na questão da construção, da promoção imobiliária, da falta de imóveis e na renovação, é fácil ver em Paris e noutras grandes cidades, a preservação do património histórico, que implica renovações e adaptação, mais uma vez, são negócios que têm muito a ver com a Comunidade portuguesa. O mercado é muito regulado, com muitas regras, com muitos regulamentos, que têm vindo a ser alterados sistematicamente, necessita efetivamente de experiência, de conhecimento, e aí, as nossas equipas, como estão focadas nesse setor, nesse segmento, acabam por se diferenciar e ajudar os clientes.

Os clientes da Caixa não são, então, as grandes empresas…

Claro que grandes clientes não é o nosso ‘target’. O nosso ‘target’ são os pequenos e médios clientes, onde o aconselhamento e a valorização é maior. Depois também temos, claro, os outros tipos de atividades, no setor industrial, no setor da logística, transportadoras, restaurantes e outras atividades de serviços. Mas muitos dos nossos clientes acabam por ter sempre uma vertente imobiliária. Por exemplo, um cliente que opera um restaurante, se contratar empregados, pode precisar de comprar uma casa, ir buscar um financiamento à banca, e alugar aos empregados, e ter mais um investimento que depois pode passar para os filhos. Em França, trata-se de um mercado de taxa fixa e isto também simplifica a vida aos clientes. Põe mais dificuldades aos bancos, que têm de gerir esses riscos de outra maneira, é um problema que o banco tem que internalizar, mas para os clientes esta estratégia parece relativamente simples. O cliente sabe exatamente o que tem de pagar ao banco, faz um financiamento a longo prazo, encontra o edifício, faz as renovações, muitos deles têm contactos no setor e muitos deles trabalham no setor, depois alugam e pagam o crédito com o aluguer. É uma estratégia que funciona, temos muitos clientes que fazem isso, há outros que depois se tornaram profissionais disso, começaram por uma coisa pequena e depois, pouco e pouco, tornam-se profissionais disso. Esta atividade continua a expandir-se em França de uma forma significativa, mesmo com clientes franceses.

Como evoluiu, na sua opinião, a atividade empresarial dos Portugueses de França?

Sabemos bem que muitas pessoas vieram para a França com baixa qualificação e foram trabalhar na área da construção civil. A verdade é que, passado poucos anos, fruto da capacidade, do dinamismo, do empreendedorismo de cada um, muitos deles criaram empresas. Começaram verdadeiramente por baixo, na construção civil e, pouco e pouco, passados os anos, tornaram-se chefes de equipa, responsáveis de equipa, diretores de empresas, e muitos deles gerem as suas empresas hoje de construção. E muitos deles tornaram-se promotores imobiliários, fizeram grandes empreendimentos, usando as empresas de construção ou passando a usar terceiros. Outro percurso clássico é trabalhar no mercado dos produtos da saudade, que ainda é uma realidade hoje. Eu acho que hoje em dia é preciso não esquecer o facto que temos muitos franceses que vivem em Portugal. A ideia da França face a Portugal alterou-se bastante no passado recente. Eu não iria exagerar que temos franceses aqui com saudade dos produtos portugueses, mas a verdade é que as pessoas já ganharam algum sentimento com os produtos portugueses.

Os Franceses também emigram para Portugal agora…

Temos muitos turistas franceses em Portugal, estavam no top recentemente. Temos bastante investimento francês em Portugal. Portanto, há um fluxo nos últimos anos – isto não era verdade há 20, 30 anos – e isto faz com que este mercado dos produtos portugueses em França tenha algum dinamismo. Eu acho que a perceção que a França tem de Portugal, do contacto que eu vou tendo com as pessoas, também se alterou: era uma perceção muito focada só sobre a Comunidade e a Comunidade também foi mudando, foi evoluindo, foi progredindo no bom sentido, está bem integrada, há outros problemas com outras Comunidades, mas não se fala de problemas com a Comunidade portuguesa, de uma forma geral.

Constato que há muitos empresários que transmitem as suas empresas aos filhos. Esta é também a sua perceção?

A geração mais nova nasceu em França, descendente de portugueses, que chegaram a um determinado momento, se calhar alguns nos anos 60, 70, 80, mas hoje a geração que está a tomar conta das empresas são franceses de origem portuguesa, foram criados num ambiente francês, mesmo se tiveram sempre um enquadramento familiar português e visitas a Portugal, mas a verdade é que o enquadramento, é um enquadramento francês, na escola francesa, portanto, pensam como um francês. São de origem portuguesa, têm as suas raízes, têm os seus valores e os seus princípios que foram incutidos pelos pais, mas eu diria que é importante notar que são pessoas que foram educadas aqui, pensam no essencial e foram enquadradas numa mentalidade francesa. Esta nova geração domina perfeitamente a língua, sente-se perfeitamente à vontade, domina a cultura francesa, domina a história francesa e, portanto, isso sente-se no dia-a-dia, nos negócios… quando a coisa se torna séria, vamos falar em francês, vamos ver o contrato em francês, vamos ver os advogados em francês! Também vemos muitos casos em que os filhos levam o negócio para outra dimensão, amplificam na verdade aquilo que os pais estavam a fazer. Vemos muitos casos de empresas em que os filhos, da nova geração, estão a fazê-las crescer para uma dimensão que os pais não tinham capacidade. É muito curioso ver a evolução desta nova geração de 30, 40, 50 anos que está a pegar nas empresas dos pais e está a conseguir levá-las para outra dimensão em termos de qualidade.

Muitos empresários queixam-se de dificuldades quando querem investir em Portugal. Acha que, de facto, há esta dificuldade em investir no país?

Eu acho que há sempre dificuldades em investir em outro sítio qualquer. Quando se vai investir no exterior, a perceção é sempre mais difícil, porque há um desconhecimento. O nosso apoio ao negócio bilateral é esse mesmo: como temos estruturas em Portugal e em França, podemos estar numa situação de melhor apoiar um cliente que esteja numa situação de negócio bilateral. Claro que nós sabemos que Portugal tem muita burocracia. Às vezes a França também. Não é fácil ir para outros mercados, é sempre um desafio. As pessoas tendem a perceber, a conhecer a forma de funcionar, a língua, as técnicas do seu mercado e quando passam a fronteira e as coisas não são exatamente iguais, há uma barreira. Cabe-nos a todos nós, aos Governos e aos operadores que, como nós, estamos nos dois lados, tentar simplificar e traduzir o que estamos a dizer. O problema muitas vezes é tentar encontrar aqui uma base de entendimento comum. A Caixa tenta facilitar isso.

Na sua opinião, o mercado está favorável para os negócios bilaterais?

Hoje fala-se muito da reindustrialização. É um tema que em Portugal é muito sensível e também em França. A França beneficia em larga medida de estar no centro da Europa, mas tem vindo a perder algum poder industrial com a deslocalização, e agora há um discurso alargado politicamente – e não só centrado no Governo – de reindustrializar e repor os centros de produção em França. O que pode constituir, de facto, oportunidades. Portugal não está assim tão longe da França, e do contacto que temos com vários clientes, muitos clientes franceses, dizem-nos que estão a trabalhar com Portugal, e quando nós perguntamos porquê, se é, por exemplo, por uma questão de preço, respondem que não é uma questão de preço, é qualidade de serviço, dos materiais, é a capacidade de adaptar, a capacidade de ser reativo, por exemplo, nos materiais de construção. Esta capacidade de estar perto dos mercados, e mercados grandes como o da França, que têm grande capacidade industrial, está a criar outras oportunidades a quem quiser trabalhar com esses mercados, a quem tiver a capacidade de se adaptar. A França é um país industrializado e que está habituado a pagar pela qualidade – é a capital do luxo e isso não é por acaso – mas exige qualidade de serviço, paga pela qualidade, mas é exigente na qualidade de serviço, e isso constitui, de facto, uma oportunidade para empresas portuguesas.

Mas também há empresas francesas que deslocalizam produção para Portugal.

Sim. O BNP Paribas tem 8 mil funcionários a trabalhar em Portugal. Há, de facto, atualmente, um grande investimento francês em Portugal, quer de origem francesa, quer de origem lusodescendente. Portugal, efetivamente, tem uma mão de obra qualificada, mas penso que continuava a haver um desafio: falar francês. Em termos do ensino valorizou-se mais, claramente, o inglês e, em alguma medida, o espanhol. O francês ficou mais perdido, o que significa que, de facto, a geração mais nova tem mais dificuldade no francês. Eu penso que esse talvez seja um pequeno desafio para as novas gerações. Apesar disso, vê-se claramente que há uma interação muito grande entre a França e Portugal, um investimento muito grande e uma grande afinidade. Eu penso que há um respeito grande, quer ao nível político e ao nível das instituições, quer ao nível das pessoas da rua, acho que há uma valorização positiva e isso claramente contribui num momento em que a França vive desafios importantes de integração. Os portugueses, de uma forma geral, estão muito integrados aqui, e são todos muito bem vistos.