Durante décadas repetiu-se uma ideia simples – e injusta: quem tem obesidade tem falta de força de vontade. Come demais porque quer. Move-se pouco porque não tem disciplina.
Era uma narrativa confortável. Mas uma história a metade.
O Dia Mundial da Obesidade, assinalado em março, lembra-nos algo que a ciência tem vindo a provar com cada vez mais clareza: a obesidade não é um defeito moral. É uma doença biológica.
Por isso, sim – a “alma de gordo” existe. Mas não é preguiça, gula ou fraqueza de carácter. É biologia.
No centro desta história toda está o culpado habitual – o cérebro. É ele o verdadeiro painel de controlo da fome. Não é o estômago que decide quando comemos, quanto comemos ou quando sentimos que já chega. Essa decisão nasce numa rede complexa de sinais hormonais e circuitos cerebrais que regulam o apetite, mas também o prazer e o gasto de energia.
A grelina, produzida no estômago, levanta a bandeira “preciso de comer”. A leptina, libertada pelo tecido adiposo, tenta travar o apetite. Pelo meio, entram a insulina, o cortisol do lado do stress e a dopamina da claque do prazer. Quando este sistema funciona bem, o corpo mantém um equilíbrio notável.
Mas quando este mesmo sistema se desregula – e isso pode acontecer porque a nossa genética está contra nós, porque dormimos mal ou vivemos em stress – o cérebro começa a enviar sinais errados. A fome aumenta. A saciedade tarda em chegar. O sistema de recompensa amplifica o desejo por alimentos densos em açúcar, gordura e sal.
De fora parece simples: “basta comer menos”.
Por dentro, o corpo está a lutar contra si próprio.
É por isso que tratar a obesidade como uma questão de carácter levou a anos de dieta em dieta, durante tanto tempo. Estávamos focados apenas no comportamento, quando o problema está muitas vezes, também, no sistema biológico que o regula.
Não me interpretem mal. O estilo de vida ajuda, sim.
Mas boa notícia é precisamente esta mudança de olhar.
Quando percebemos que a obesidade também é uma doença orgânica – do cérebro, das hormonas, do metabolismo – deixamos de culpar as pessoas e começamos finalmente a tratar a doença certa.
E isso muda tudo.
Porque quando o termóstato da fome está avariado, a questão não se resolve com sermões ou tentativas de mudanças de hábitos a que aquela pessoa não está preparada para conseguir seguir.
Temos de mudar o nosso alvo.
Na semana em que celebramos o dia da obesidade, proponho também que celebremos a mudança transformadora na visão que temos hoje sobre esta doença.
.
Dra. Maria Moreno
Médica psiquiatra
Clinica CogniLab
@mariamoreno.medicapsiquiatra




