Saúde: Compatibilidade química do beijo


Há algo de profundamente injusto, e ao mesmo tempo absolutamente honesto, no beijo. Ele acontece cedo, sem avisar, sem ensaio, e em poucos segundos responde a perguntas que o cérebro ainda nem formulou.

Do ponto de vista da sexologia, o beijo não é um detalhe romântico: é um verdadeiro exame de compatibilidade relacional, emocional e sexual. E raramente falha.

O beijo pode indicar compatibilidade com uma precisão desconcertante.

Quando beijamos alguém, não estamos apenas a trocar lábios, estamos a ativar um sistema neurobiológico sofisticadíssimo.

O beijo envolve olfato, paladar, tato, ritmo, pressão, timing e leitura do outro.

Estudos em sexologia e neurociência mostram que o beijo ativa circuitos ligados à dopamina (prazer e motivação), oxitocina (vínculo) e serotonina (bem-estar).

Em linguagem simples: o corpo decide antes da razão.

O beijo é, muitas vezes, o primeiro lugar onde a compatibilidade se manifesta, ou se denuncia.

O beijo revela:

– Capacidade de sintonia

– Gestão de proximidade

– Entrega e presença

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Antes do sexo existir, o beijo já mostra se duas pessoas sabem dançar juntas.

Porque o sexo pode ser aprendido, ajustado, explorado. A química, essa ou aparece… ou não aparece.

E quando o beijo “não funciona”, pode ser falta de desejo ou falta de timing, e aqui é importante não cair em absolutos. Às vezes, o beijo não funciona porque há ansiedade, expectativas demasiado altas, nervosismo, ou um momento emocional pouco disponível.

Mas há uma diferença clara entre “não foi incrível” e “não quero repetir”.

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Quando o corpo rejeita, quando há tensão, desconforto, vontade de interromper, estamos mais perto de uma falta de desejo do que de um simples desencontro momentâneo.

O corpo raramente mente. E o beijo é uma das suas formas mais claras de comunicação.

O beijo como deal breaker: exagero ou sabedoria corporal, é extremamente comum. E é legítimo.

Muitas pessoas relatam: “Gostava tanto dele(a), mas o beijo matou tudo”.

Não é superficialidade, é coerência somática.

O beijo é o primeiro espaço onde o desejo se torna real. Se ali não há resposta, o corpo está a dizer algo que a mente ainda tenta negociar.

Ignorar isso no início de uma relação costuma ter um preço mais tarde.

A química não se força, não se educa e não se racionaliza.

É por isso que o beijo pesa mais do que o sexo, porque o beijo é espontâneo e o sexo é, muitas vezes, adaptável.

No sexo, podemos aprender técnicas, comunicar preferências, ajustar ritmos.

No beijo, não há tempo para isso. Ele é cru, imediato, instintivo. É ali que se percebe se há linguagem comum, ou se estamos a falar dialetos incompatíveis.

Além disso, o beijo envolve intimidade sem o “ruído” do desempenho sexual. Não há papeis, não há guiões. Só dois sistemas nervosos a tentar encontrar-se.

E nas relações duradouras, quando o beijo desaparece. Aqui tudo muda de tom, e ganha peso.

O desaparecimento do beijo raramente é só hábito. Muitas vezes, é um sinal silencioso de afastamento emocional, erosão do desejo, ressentimentos não falados, ou perda de curiosidade pelo outro.

Casais que continuam a beijar-se, não os beijinhos funcionais, mas os beijos inteiros, tendem a manter maior intimidade emocional e sexual.

O beijo, numa relação longa, não é preliminar: é termómetro.

Quando ele desaparece, vale a pena perguntar: o que deixou de circular entre nós?

Em resumo (sem moralismos):

O beijo não é um detalhe romântico. É um dado clínico. Um sinal de compatibilidade. Um aviso precoce. Um convite, ou uma recusa elegante do desejo.

Antes de tudo, o beijo.

Porque o corpo sabe. E quase nunca se engana.

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Dra. Isabel Henriques

Diretora da Mental Health Clinc em Coimbra e Lisboa

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