Saúde: Doença cardiovascular na mulher


A doença cardiovascular (DCV) constitui a principal causa de morte na mulher, estimando-se que uma em cada três mulheres morre por DCV.

Na verdade, o risco CV na mulher não tem sido adequadamente identificado e valorizado pela comunidade médica, pela sociedade e pela própria mulher.

Para uma estratificação de risco CV eficiente é fundamental integrar as especificidades relacionadas com o sexo, o género e com as patologias exclusivas da mulher, associadas a um aumento e, por vezes ao início precoce, do risco de DCV.

Assim, para além da aplicação dos scores tradicionais usados na avaliação do RCV em prevenção primeira, devemos avaliar:

Fatores tradicionais (particularidades específicas): HTA, tabagismo, dislipidemia, diabetes, sedentarismo, dieta pobre, história familiar.

Fatores hormonais: menopausa prematura (idade <40 anos), terapêutica hormonal, síndrome do ovário poliquístico, obesidade e risco cardiometabólico.

Outros fatores: condições associadas à gravidez (distúrbios hipertensivos, diabetes gestacional, parto pré-termo, interrupção da gravidez e restrição do crescimento intrauterino), doenças autoimunes (lúpus eritematoso sistémico e artrite reumatoide) e terapêuticas associadas ao cancro (radiação da parede torácica e cardiotoxicidade associada à quimioterapia).

Determinantes sociais de saúde: raça/etnia, educação, nível socio-económico, pobreza.

Fatores de risco psicológico: depressão, ansiedade, solidão.

Estratificação de risco de DCV na mulher de meia-idade

Os scores clássicos de risco CV não estão adaptados à mulher. Apesar das estimativas de risco serem menores na mulher do que no homem, na realidade, o risco na mulher é apenas adiado em 10 anos.

Assim, para além dos principais fatores de risco CV clássicos incluídos nos scores, deve ser considerada a avaliação adicional de outros fatores de risco relevantes para a reclassificação do risco CV total na mulher, particularmente importante nos casos em que o score está próximo de um valor limite de decisão para iniciar terapêutica. Na presença de fatores de RCV específicos da mulher, o risco individual pode ser reclassificado para um nível superior.

Transição para a menopausa

A incidência de DCV aumenta de forma dramática na mulher de meia-idade, particularmente no período de transição para a menopausa, considerado como um tempo de risco CV acelerado. Este momento, deve ser encarado como uma janela crítica para a implementação de estratégias de intervenção precoce para reduzir o risco CV.

Atualmente, é recomendada a avaliação dos fatores de risco CV, incluindo o perfil lipídico, em mulheres com mais de 50 anos ou após a menopausa.

A identificação precoce destes fatores de risco específicos da mulher é fundamental para uma correta valorização do risco CV total, modificação agressiva e precoce de estilos de vida, controlo de fatores de risco CV e, se necessário, início de terapêutica farmacológica.

Particularidades da doença coronária na mulher

A doença coronária (DC) na mulher é muitas vezes subdiagnosticada, subestimada e, consequentemente, subtratada na prática clínica.

Com frequência, os sintomas tendem a ser atípicos (cansaço, dispneia ou síncope), o que dificulta o diagnóstico e atrasa a instituição do tratamento, mesmo no contexto de EAM. Desta forma, perante a suspeita de DC, as mulheres devem ser cuidadosamente investigadas, com recurso a técnicas de imagem funcional não-invasiva para determinação de isquemia ou avaliação anatómica com TAC coronária como testes de primeira linha, uma vez que a prova de esforço apresenta uma performance inferior na confirmação ou exclusão de doença.

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No contexto de Enfarte agudo do Miocárdio, as mulheres são diagnosticadas mais tarde, são pior tratadas e morrem mais.

Numa análise recente do Registo Nacional de Síndromes Coronárias Agudas, que incluiu 14.177 mulheres admitidas por síndroma coronária aguda em Portugal, verificou-se uma apresentação mais frequente de sintomas atípicos em comparação com o sexo masculino. As mulheres foram tratadas mais tarde e de forma menos agressiva, tendo-se observado tempos mais longos até à instituição da terapêutica de reperfusão (fibrinólise ou angioplastia primária), menores taxas de revascularização e de terapêuticas de prevenção secundária, mesmo quando considerado o período mais recente do registo, podendo justificar a maior taxa de complicações e mortalidade intra-hospitalar. Apesar de uma melhoria global do prognóstico intra-hospitalar ao longo do tempo, o gap entre os dois sexos manteve-se.

Infelizmente, ainda temos um caminho a percorrer na prevenção, diagnóstico e tratamento da DCV das nossas mulheres.

Perante este status quo, o que fazer?

Mudar perceções e comportamentos:

– Identificação precoce dos fatores de risco específicos da mulher para uma correta valorização do risco CV total

– Modificação agressiva e precoce de estilos de vida

– Controlo rigoroso de fatores de risco CV e, se necessário, início de terapêutica farmacológica

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Construir um novo paradigma:

– Melhorar a literacia em saúde CV da mulher

– Tornar a proteção cardiovascular da mulher como uma prioridade de Saúde Pública

– Promover um mundo mais inclusivo, onde cada mulher, em todas as fases da sua vida, possa beneficiar dos melhores cuidados de saúde preventiva e curativa.

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Apesar da correria do dia a dia, dos cuidados com a família, do trabalho profissional… Não se esqueça de si e da sua saúde. Faça uma avaliação rigorosa e periódica do seu risco cardiovascular.

Lembre-se: mais vale prevenir do que remediar!

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Dra. Sílvia Monteiro

Cardiologista na Unidade de Cuidados Intensivos Cardíacos, ULS Coimbra

Membro da Direção da Sociedade Portuguesa de Cardiologia

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