Saúde: Já ouviu falar da síndrome da vida vazia?


A síndrome da vida vazia pode ser considerada como um estado emocional crescente embora não seja propriamente um diagnóstico formal como a depressão ou uma perturbação de ansiedade. Como principais sintomas considera-se um sentimento persistente de vazio, falta de propósito, apatia e insatisfação, mesmo quando aparentemente a vida parece estável, completa nas mais variadas áreas como a carreira, relacionamentos, conforto material e financeiro, etc.

É comum em pessoas que vivem longos períodos em piloto automático, cumprindo expectativas externas. Quando agimos em piloto automático tendemos a reagir mais do que a escolher. As decisões são tomadas com base no que esperam de nós, e não naquilo que realmente desejamos ou valorizamos. E isto porque o foco está constantemente nas metas externas o que faz com que negligenciemos as nossas próprias emoções, necessidades e desejos.

Outro aspeto interessante é que estar em piloto automático muitas vezes pode ser uma defesa para evitar refletir sobre temas mais profundos. Na verdade, estar em piloto automático faz com que a vida se torne numa sequência de tarefas, obrigações e metas, com pouco espaço para um sentimento do aqui e agora e para uma conexão e um significado pessoal.

O papel das redes sociais

Efetivamente as redes sociais podem puxar para um estilo de vida mais superficial, mais isento de significado próprio e mais próximo de um cumprimento de objetivos expostos e sugeridos pelos outros. Fazer algo e não “documentar” nas redes sociais é como se não tivesse tido importância ou como se não tivesse realmente acontecido.

Não viver aquilo que a maioria vive provoca um sentimento de exclusão ou de não se estar a viver as coisas certas ou da maneira certa. É desta forma que qualquer pessoa pode rapidamente desconectar-se de si mesma devido a esta constante comparação com os outros.

Maioritariamente esta síndrome é muitas vezes rotulada como uma espécie de crise existencial que se manifesta em momentos mais críticos do nosso crescimento e da nossa evolução. Na adolescência porque são muitos os caminhos e por isso muitas as dúvidas de por onde ir, no adulto porque já se escolheu um caminho mas não se sabe se foi o ideal ou se ainda há margem de tempo para mudar e para enfrentar os medos de se mudar radicalmente de vida e na velhice porque existe um olhar sobre o passado e com isso pode surgir uma reflexão sobre o que não foi alcançado… sobre aquilo que ficou por não ser vivido.

Geração exausta

Tendo em conta que viver em piloto automático prende-se com a velocidade com que os dias passam com que a vida corre, o cansaço e a exaustão emocional torna-se bastante presente e provável. A necessidade de parar e não saber como ou quando está bastante presente e com ela um enorme sentimento de frustração.

O nosso corpo é muito nosso amigo e está programado para nos defender de qualquer ameaça à nossa sobrevivência ou ao nosso conceito de felicidade. Portanto se algo não está bem na nossa vida e nada fazemos há muito tempo para o mudar o nosso corpo vai-se encarregar de manifestar sintomas que nos façam parar para refletir e para cuidarmos de nós. As perturbações do sono são dos primeiros sintomas a surgir, a falta de apetite ou o seu aumento é bastante comum, bem como um constante estado de tensão muscular potenciado por elevados níveis de stress.

Distância emocional

Como tudo na vida, o que está em excesso poderá trazer problemas mais profundos. Esta síndrome da vida vazia quando demasiado prolongada no tempo pode levar ao desenvolvimento de um padrão depressivo ou de ansiedade. O isolamento ou distanciamento emocional pode ser já um sinal disso mesmo. Como tal, estar atento e procurar a ajuda certa pode ser crucial para encontrar as soluções necessárias para desbloquear o que é necessário.

O vazio emocional pode ser um sintoma da depressão ou até mesmo uma porta de entrada para um padrão depressivo, especialmente quando vivido por longos períodos de tempo sem reflexão ou autocuidado.

Muitas vezes, pessoas que vivem desconectadas de si mesmas, apenas a cumprir com rotinas repetidas e enfadonhas e metas impostas por outros, acabam por desenvolver um sentimento crónico de insatisfação que, se não for tratado, pode evoluir para um quadro depressivo mais grave.

Lidar com o vazio existencial não é sobre preenchê-lo o mais rápido possível, mas sim sobre aprender a ouvi-lo, compreendê-lo e transformá-lo. É um processo de reconexão com o que realmente importa, não com o que esperam de si.

O primeiro passo é questionar a sua própria narrativa de vida. Muitas vezes, o vazio surge porque estamos a viver uma história que não é realmente nossa – uma vida guiada por expectativas externas, padrões sociais ou caminhos que foram impostos. Experimente perguntar-se a si mesmo: “De quem é a vida que estou a viver?” Esta pergunta pode ser o início de um processo de reconexão com os seus próprios valores e desejos.

Uma prática simples, mas profunda, é escrever para nos ouvirmos a nós próprios. Colocar no papel o que se sente, sem censura ou autocobrança. Escreva sobre momentos em que se sente vivo, sobre o que o emociona ou revolta, ou simplesmente explore a pergunta: “O que eu faria se ninguém me estivesse a observar?”

É fundamental também aceitar o vazio como parte do processo. Em vez de fugir dele ou tentar anestesiá-lo com distrações, permita-se senti-lo. O vazio não é sinal de fracasso pessoal, é um indicativo de que algo precisa de ser revisto, ressignificado ou transformado.

Em vez de esperar que a vida “entregue” um sentido pronto, aprenda a construir esse sentido com as suas próprias ações. Envolver-se num objetivo grande, como projetos sociais ou causas em que acredita, pode reacender a sensação de propósito. Mesmo pequenos gestos quotidianos, quando feitos com intenção, podem ajudar a reconstruir um caminho significativo.

A prática da presença também é essencial. Estar no aqui e agora, mesmo que por poucos minutos ao dia, ajuda a romper com o piloto automático. Meditações simples, atenção plena nas tarefas diárias e pausas conscientes ao longo do dia fortalecem essa conexão com o presente.

Fazer psicoterapia é essencial. É um espaço seguro para refletir sobre o vazio, dar voz às angústias e reconstruir uma relação mais profunda consigo próprio e com o mundo.

Outro ponto importante é conectar-se com pessoas autênticas. Relações verdadeiras, onde você pode ser quem é sem máscaras. Evite relações superficiais ou apenas convenientes.

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Dra. Catarina Graça

Psicóloga

Clínica da Mente