Saúde: Os contornos da abstinência sexual_LusoJornal·Saúde·12 Janeiro, 2026 Fala-se de castidade e abstinência voluntária. Uma psicóloga explica se se trata de uma escolha consciente ou de uma consequência mais profunda de falta de desejo e interesse. . Na leitura clínica, é importante distinguir realidades diferentes que muitas vezes são colocadas no mesmo plano. Há pessoas para quem a castidade ou a abstinência são uma escolha consciente, estruturada e coerente, enraizada em crenças religiosas, espirituais, éticas ou filosóficas. Nesses casos, não estamos perante falta de desejo, mas perante uma decisão identitária que pode ser vivida de forma estável e sem conflito interno. Noutras situações, porém, a abstinência não nasce de uma escolha clara, mas surge como consequência de dificuldades emocionais, experiências relacionais pouco seguras ou ambivalência em relação à intimidade. Aqui, o desejo existe, mas fica suspenso ou inibido, não por convicção, mas por proteção. Do ponto de vista clínico, o critério não é se a pessoa tem ou não vida sexual, mas como vive essa escolha ou essa ausência. Quando a abstinência é vivida com coerência, tranquilidade e sentido pessoal, não constitui um problema. Quando é acompanhada de sofrimento, culpa, conflito interno ou sensação de bloqueio, merece ser escutada e compreendida. (Um profissional da área da saúde mental experiente não avalia o desejo a partir de normas externas, mas a partir da experiência subjetiva da pessoa. É essa vivência, e não o comportamento em si, que orienta a leitura clínica.) Apesar de vivemos rodeados de estímulos sexuais e discursos de liberdade, esta hiper-exposição coexiste com uma diminuição do desejo e da prática sexual. Do ponto de vista psicológico, não há aqui um paradoxo. A hiper-exposição aumentou o sexo como imagem, discurso e expectativa, mas não aumentou, necessariamente, a capacidade de o viver como experiência íntima. Pelo contrário, em muitos casos trouxe mais comparação, mais autoconsciência e mais pressão para corresponder. Na minha experiência clínica, a diminuição da prática sexual não se deve a uma perda de interesse pelo sexo, mas a uma maior dificuldade em sustentar intimidade. Vivemos num contexto com muito estímulo, muita informação e muitas expectativas, mas com pouco espaço emocional para estar presente no corpo e na relação. O desejo ativa-se facilmente, mas retrai-se quando implica vulnerabilidade, continuidade ou envolvimento emocional. Muitas pessoas sentem-se mais ansiosas, mais comparadas e mais observadas, mesmo na intimidade. Quando o sexo deixa de ser vivido como encontro e passa a ser atravessado por pressão ou autoconsciência, o corpo tende a afastar-se. . A exposição precoce à sexualidade Quando a sexualidade é introduzida precocemente sobretudo através de imagens e estímulos intensos, o desejo tende a ser ativado antes de existir maturidade emocional para o integrar. Isso não elimina o desejo, mas altera a forma como ele se organiza. O desejo passa a responder mais ao estímulo externo do que a um movimento interno próprio. Torna-se mais imediato, mais reativo e menos ligado à experiência emocional e relacional. Como consequência, pode perder profundidade e continuidade. Em vez de se consolidar como experiência íntima, torna-se mais dependente de novidade e intensidade, o que pode gerar uma sensação de saturação ao longo do tempo. Do ponto de vista psicológico, isto traduz-se num desejo menos enraizado, mais instável e mais difícil de sustentar na intimidade real, que é necessariamente mais lenta, imperfeita e menos estimulante do que a exposição visual. Não se trata de ausência de desejo, mas de um desejo que não teve tempo nem condições para se construir de forma integrada. Há quem defenda que o sexo deixou de ser vivido como prazer íntimo e passou a ser percecionado como performance, comparação ou expectativa social. O que habitualmente surge, e com alguma frequência é a sensação de que o sexo deixou de ser um espaço de espontaneidade e passou a ser um lugar onde é preciso corresponder. Mesmo quando não há um olhar externo, muitas pessoas entram na intimidade a avaliar-se: se estão a sentir o suficiente, se estão a responder bem, se estão a ser desejáveis. Do ponto de vista psicológico, isto acontece porque as referências externas, imagens, narrativas, expectativas, foram interiorizadas. O corpo deixa de ser apenas vivido e passa a ser observado. Quando isso acontece, o prazer, que depende de presença e entrega, torna-se mais difícil de alcançar. O afastamento que surge em muitas pessoas não é rejeição do sexo, mas cansaço de uma intimidade vivida como prova. Não é o prazer que falha, é o espaço para o viver sem comparação ou exigência. . Dra. Isabel Henriques Psicóloga clínicaDiretora da Mental Health Clínica em Lisboa, Coimbra e Amesterdão