Hoje em dia, toda a gente tem alguma coisa. Ansiedade, burnout, depressão. Parece quase obrigatório. Antes chamava-se vida normal, agora virou doença.
Um desgosto amoroso é logo um “trauma”. Um dia mau já é um “episódio depressivo”. Há uma certa moda em não estar bem – e, curiosamente, quanto mais se fala disso, mais pessoas aparecem com o mesmo problema.
A verdade é que, se a pessoa continua a trabalhar, a sair com amigos e a rir, dificilmente está assim tão mal. A depressão a sério vê-se. Nota-se. Quem está deprimido não funciona. Tudo o resto é uma enorme falta de vontade ou uma fase que passa. Pelo menos para os fortes de carácter. Para esses, há sempre escolha. Têm em si a capacidade de se superar.
Há sempre a explicação da “química do cérebro” para justificar a preguiça de uns e outros. Um conceito conveniente, difícil de provar e fácil de usar para justificar tudo. No fundo, transforma-se sofrimento humano em diagnóstico e diagnóstico em tratamento – muitas vezes sem questionar se era mesmo necessário.
Criou-se a ideia de que toda a gente precisa de terapia. Ir ao psicólogo ou ao psiquiatra passou de excepção a rotina. E que sociedade essa a que estamos a criar – tudo precisa de ser analisado, tratado ou medicado.
E depois há a questão da medicação. Antidepressivos, ansiolíticos e outros tais – hoje tomam-se como quem toma vitaminas. Mas a que custo? Há quem diga que não causam dependência, mas a verdade é que muitas pessoas não conseguem estar sem eles. Começam com uma dose pequena e, de repente, não sabem viver de outra forma.
Nem tudo é doença. Nem tudo precisa de intervenção.
Ou será que precisa?
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Se leu isto tudo e concordou, então é parte do problema.
É isto que os doentes ouvem todos os dias – em casa, no trabalho, na rua.
E é por isto que chegam tarde. E é por isto que chegam pior.
Tudo o que leu acima está errado.
Feliz Dia das Mentiras.
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Dra. Maria Moreno
Médica psiquiatra
@mariamoreno.medicapsiquiatra






