Saúde: Portugal tem mais de metade da população com excesso de peso


Portugal tem hoje mais de metade da população adulta com excesso de peso ou obesidade, o que significa que este já é um dos principais problemas de saúde do país e do nosso tempo. Enquanto endocrinologista, vejo diariamente como “acertar o peso” vai muito além da balança: trata-se de recuperar saúde, anos de vida e qualidade de vida.

A dimensão do problema: mundo e Portugal

A obesidade é descrita como uma verdadeira pandemia do século XXI, com previsões de que, em 2030, cerca de 60% dos adultos no mundo terão excesso de peso ou obesidade.

Todos os anos, o excesso de peso está associado a mais de um milhão de mortes na Europa, tornando-se uma das principais causas de morte evitável.

Em Portugal, as estimativas mais recentes apontam para cerca de 68% da população com excesso de peso ou obesidade e perto de 30% com obesidade. Isto significa que a “exceção” já não são as pessoas com excesso de peso, mas sim as que mantêm um peso considerado saudável. Isto é muito preocupante não só em termos de saúde, mas também em termos económicos o que está associado com empobrecimento das pessoas que vivem com obesidade, mas também do país.

Obesidade: doença crónica, complexa e mal compreendida

A obesidade é uma doença crónica, complexa e multifatorial, resultante da interação de fatores genéticos, comportamentais, psicológico, ambientais, hormonais e sociais.

Não é apenas “comer demais e mexer-se de menos”, ainda que alimentação e atividade física sejam peças importantes do puzzle.

Sabemos hoje que o cérebro, o intestino, o tecido adiposo (a gordura), as hormonas e até o microbioma intestinal participam na regulação do apetite, do gasto energético e da forma como o corpo “defende” um determinado peso. Em muitas pessoas com

obesidade, estes mecanismos estão alterados, o que faz com que o organismo resista à perda de peso e “puxe” de volta para o peso anterior, o que ajuda a explicar porque é tão difícil “manter” o peso perdido apenas com força de vontade.

Apesar disto, a obesidade continua a ser frequentemente vista como falha pessoal, preguiça ou falta de autocontrolo, tanto pela sociedade como, infelizmente, por alguns profissionais de saúde. Este estigma atrasa o diagnóstico, faz com que muitas pessoas tenham vergonha de pedir ajuda e leva a que a doença só seja tratada em fases mais avançadas.

Mais de 220 doenças associadas e 13 tipos de cancro

A obesidade e o excesso de peso, sobretudo a nível abdominal, está ligada a um grande número de doenças crónicas. Entre as principais, contam-se:

– Diabetes tipo 2.

– Hipertensão arterial e outras doenças cardiovasculares (enfarte do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca).

– Apneia do sono e outras doenças respiratórias.

– Doença hepática esteatósica (“fígado gordo”) que pode evoluir para cirrose.

– Artroses e dores nas articulações, principalmente joelhos, ancas e coluna.

– Alterações hormonais, infertilidade e problemas reprodutivos em homens e mulheres.

– Perturbações de saúde mental, como depressão e ansiedade, amplificadas pelo estigma.

A obesidade está ainda associada a pelo menos 13 tipos de cancro, incluindo cancro do cólon, rim, endométrio e mama pós-menopausa, entre outros.

Ao aumentarmos o peso e a gordura corporal, aumentamos também o risco de desenvolver estes tumores e de morrer mais cedo por qualquer outra causa.

Tratar a obesidade é possível e compensa

A boa notícia é que a obesidade tem tratamento e, ao tratar, podemos reduzir ou mesmo reverter muitas das mais de 220 doenças associadas, bem como diminuir o risco dos 13 tipos de cancro ligados ao excesso de peso. Mesmo perdas de peso aparentemente modestas, na ordem dos 5-10% do peso corporal, já se traduzem em melhorias muito significativas na glicemia, na tensão arterial, nos lípidos (colesterol e triglicerídeos), na função hepática e na qualidade de vida.

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Hoje dispomos de várias abordagens:

– Tratamento farmacológico específico para a obesidade, prescrito por médicos e integrado num plano global.

– Cirurgia bariátrica/metabólica em casos selecionados, com resultados muito expressivos na reversão de diabetes e outras comorbilidades.

– Tanto o tratamento com medicamentos, como a cirurgia e a terapia cognitivo-comportamental promovem mudanças importantes que devem ser acompanhadas por uma transformação no estilo de vida – nomeadamente na alimentação, na prática de atividade física, no sono e na gestão do stress.

Idealmente, a pessoa com obesidade deveria ser acompanhada por uma equipa multidisciplinar, que inclua um endocrinologista, um nutricionista, um psicólogo ou psiquiatra e um fisiologista do exercício físico, entre outros profissionais de saúde.

Tratar precocemente é também uma medida inteligente em termos económicos: prevenir a instalação de doenças crónicas graves é muito menos dispendioso do que tratar as suas complicações durante décadas.

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O foco não é o peso, é a saúde

Um dos equívocos mais prejudiciais é pensar que o sucesso do tratamento se mede apenas em quilos ou em índice de massa corporal (IMC). Na perspetiva médica, o objetivo principal não é atingir um “peso ideal de revista”, mas reduzir o risco de doença, melhorar as doenças já existentes e aumentar qualidade e quantidade de vida.

Quando tratamos a obesidade de forma adequada, o que procuramos é:

– Normalizar ou melhorar a diabetes, a hipertensão e o colesterol.

– Reduzir o risco de enfarte, AVC e cancro.

– Melhorar o sono, a respiração, a mobilidade e a capacidade de trabalhar, cuidar da família e participar na sociedade.

– Aumentar a autoestima, reduzir o sofrimento psicológico e o isolamento.

Imagine uma pessoa que perde “apenas” 8% do seu peso, mas deixa de precisar de insulina, controla a tensão arterial com menos medicamentos, volta a dormir sem apneias e consegue caminhar sem dores intensas. Clinicamente, isto é um enorme

sucesso – mesmo que a balança ainda não mostre um número “perfeito”.

Combater o estigma e pedir ajuda

Para mudar o rumo desta epidemia silenciosa, precisamos de olhar para a obesidade como olhamos para a hipertensão ou a diabetes: uma doença crónica, com causas complexas, mas com tratamentos eficazes. Isso implica:

– Reduzir o estigma, evitando culpar a pessoa e reconhecendo que ninguém “escolhe” ter obesidade.

– Garantir acesso a equipas especializadas, com endocrinologistas, nutricionistas, psicólogos, fisiologistas do exercício e outros profissionais.

– Investir em políticas públicas que promovam ambientes saudáveis: acesso a alimentos mais saudáveis, espaços para atividade física, educação para a saúde desde cedo.

Portugal já reconheceu formalmente a obesidade como doença crónica e vários organismos nacionais sublinham que é a doença do presente e do futuro, se nada fizermos. Mas reconhecer não chega: é preciso tratar, sem vergonha e sem culpas. E, sobretudo, é preciso lembrar que buscar ajuda não é sinal de fraqueza, é um ato de coragem e de cuidado consigo próprio.

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Professora Doutor Paula Freitas

Presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM)

Departamento de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

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