Saúde: Riscos e benefícios da IA na saúde


De que forma a IA chega à comunidade científica e médica e também aos pacientes?

A comunidade científica tem contacto com IA por diferentes meios. Por um lado, pela forma tradicional de comunicar em ciência e na saúde, ou seja, através de formação específica e de revistas especializadas na matéria. Mas, hoje, a literacia científica (incluindo em IA) através das redes sociais ocupa já um importante espaço na vida profissional de médicos e cientistas, pelo que a grande dificuldade é combater a desinformação que surge por vezes nos media sociais. Daí a importância de um jornalismo científico isento, de qualidade, e solidamente alicerçado na mais recente evidência científica, para uma adequada informação dos pacientes que queiram recorrer a estas tecnologias. A televisão, a rádio, a imprensa e o digital têm por isso um papel fundamental na literacia em IA da população.

Quais os benefícios da IA na saúde?

A IA pode trazer inúmeros benefícios à saúde, concretamente na medicina e na investigação científica. Na investigação a IA generativa permite acelerar processos, e agilizar resultados. Na prática clínica, a IA e a IA generativa (tal como o ChatGPT) já hoje são um importante auxílio no diagnóstico médico e mesmo no tratamento e prevenção de doenças em todas as áreas da medicina.

Também, a psicologia, a enfermagem, ou a nutrição são já hoje apoiadas pelas modernas tecnologias de IA. Na gestão da saúde, e na reorganização do SNS a IA é uma ferramenta indispensável para a modernização do nosso sistema de saúde.

A inteligência artificial demonstrou-se, também, uma ferramenta essencial no combate à Covid-19, sendo previsível a sua importância decisiva no combate a futuras emergências de saúde pública, tal como as pandemias.

Perante uma doença, pode a IA sugerir novas soluções de tratamento?

A IA está a ser utlizada com enorme sucesso no diagnóstico médico, através de complexos algoritmos que processam a informação e os dados de um modo extraordinariamente efetivo, por exemplo na radiologia ou dermatologia. Também no diagnóstico cirúrgico, a IA tem sido utilizada para guiar os médicos, por exemplo na biópsia do cancro da mama.

A inteligência artificial está a demonstrar-se particularmente eficaz na criação automática do registo de saúde eletrónico, libertando o médico para um atendimento mais humanizado com os doentes. No plano da investigação científica a IA alavanca todas as áreas da medicina e da saúde sendo revolucionária nas ciências básicas e sua translação para a prática clínica.

De igual modo, em cuidados paliativos a IA tem permitido ajustar as doses de medicamentos às necessidades e preferências dos doentes, o que denota a transversalidade da IA na saúde. Tem-se demonstrado também revolucionária na descoberta de novas moléculas terapêuticas, como vacinas, medicamentos, etc., ou na invenção ou de novos e ambiciosos dispositivos médicos.

Quais os riscos do uso da IA na saúde?

A IA tem riscos que decorrem das suas extraordinárias capacidades. Por um lado, a IA generativa alimenta-se de informação já existente nas bases de dados que fluem livremente na Internet. O que significa que pode existir um viés nos resultados obtidos por IA se os dados primários não forem totalmente válidos. Fenómeno agravado pela falta de explicabilidade da IA, ou seja, a incapacidade de o ser humano entender o modo como a IA processa os algoritmos e alcança determinadas conclusões. Por outro lado, existe a possibilidade de a IA aceder a dados pessoais sensíveis, como são os dados de saúde. Pelo que a investigação em IA deve garantir sempre uma adequada supervisão humana para proteger valores fundamentais, como a autonomia da pessoa e a sua privacidade.

Um desses riscos pode passar pelos pacientes substituírem a consulta médica pelo uso do ChatGPT para fins de diagnóstico?

É um risco real dado que existe uma tendência geral da sociedade para confiar nas novas tecnologias. Por outro lado, a falta de acessibilidade ao sistema de saúde pode facilitar também o acesso recorrente a sistemas de IA na saúde.

Compete aos médicos e demais profissionais aprofundarem a dimensão humana da relação com o doente de modo a que não exista, em qualquer circunstância, uma substituição do médico por um “médico digital”.

Para um bom progresso da IA na medicina, o que é preciso garantir?

É preciso garantir em primeiro lugar níveis adequados de literacia digital da população, para que não se gerem falsas expetativas com a sua utilização. Também os médicos e demais profissionais de saúde devem dispor de elevados conhecimentos técnicos para uma utilização regular da IA sem ficarem dependentes das novas tecnologias digitais. Por outro lado, deve existir um quadro regulamentar que, sem proibições fúteis e desnecessárias, promova uma utilização racional da IA para que esta seja sempre considerada de confiança. A aprovação na União Europeia do AI Act (Regulamento de Inteligência Artificial) é uma garantia de que a IA será sempre utilizada com integridade e profissionalismo.

.

Professor Doutor Rui Nunes

Professor catedrático de Bioética

Faculdade de Medicina da Universidade do Porto