Saúde: Segunda volta das eleições pode afastar-nos para sempre


Uma segunda volta de eleições presidenciais é, por natureza, um momento de clivagem. O país divide-se em dois, as conversas tornam-se mais acesas e, por vezes, as nossas relações mais próximas são postas à prova. O que antes eram apenas divergências de opinião podem transformar-se em muros que nos separam de amigos, familiares e colegas.

Embora uma eleição seja um evento temporário, pode abrir feridas permanentes. Quando a discussão política deixa de ser sobre ideias e passa a ser sobre valores fundamentais e identidade, o risco de rutura é real. O que vemos hoje não é apenas uma discordância sobre economia ou políticas sociais, é um choque entre visões de mundo. Se uma pessoa sente que a escolha política de um amigo ou familiar ameaça valores que considera fundamentais ou a sua própria segurança.

O distanciamento torna-se, para muitos, uma forma de autoproteção.

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Radicalismo

O radicalismo acontece quando as nossas convicções políticas se tornam tão rígidas e absolutas que deixamos de conseguir ver para além delas. A pessoa radicalizada perde a capacidade de ouvir, de duvidar, de considerar outras perspetivas. O mundo divide-se entre “nós” e “eles”, entre os que estão certos e os que estão errados. Quem pensa diferente deixa de ser alguém com quem podemos discordar, podendo tornar-se um inimigo ou uma ameaça.

Quando isto acontece, o diálogo pode tornar-se impossível. A empatia pode ser afetada e pode tornar-se difícil ver a pessoa por detrás da ideologia e ela a nós. Podemos perder a relação porque perdemos a base que a sustentava: o respeito mútuo, a empatia e a capacidade de partilhar uma realidade comum.

Gerir estas situações exige um equilíbrio delicado entre proteger a relação e proteger-se a si mesmo.

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Algumas estratégias podem ajudar:

1. Estabeleça limites claros: Defina o que é e o que não é aceitável. Pode dizer: “Gosto muito de ti, mas não vou discutir política contigo”, ou: “Não aceito que uses esse tipo de linguagem desrespeitosa na minha presença”.

2. Foque-se no que vos une: Tentem encontrar interesses e atividades em comum que não envolvam política. Relembrem os momentos bons e os valores que partilham para além das urnas.

3. Escolha as suas “batalhas”: Nem todas as discussões precisam de ser tidas. Se a conversa está a escalar, por vezes o melhor é recuar e dizer: “Acho que não vamos chegar a um consenso sobre isto, vamos mudar de assunto”.

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A decisão de se afastar é profundamente pessoal e dolorosa, mas torna-se necessária quando a relação se torna tóxica e o custo para a sua saúde mental é demasiado alto. Se a outra pessoa se recusa a respeitar os seus limites, se os ataques são constantes, se a sua segurança emocional ou física está em causa, ou se a relação lhe causa mais dor do que alegria, afastar-se pode ser o maior ato de autocuidado que pode ter.

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Impacto da radicalização

O impacto da radicalização é um processo que se pode instalar gradualmente. Começa muitas vezes com ansiedade, uma preocupação crescente com o estado das coisas que se pode transformar em insónias, pensamentos obsessivos e numa vigilância constante das notícias. Esta hipervigilância é exaustiva e alimenta ainda mais a ansiedade.

Pode surgir a desconfiança nas instituições e nas pessoas. Podemos questionar as intenções de amigos, familiares e colegas. As conversas podem tornar-se mais tensas, os gestos serem interpretados com desconfiança e o benefício da dúvida desaparecer.

Esta falta de confiança pode afetar profundamente as relações, criando distância onde antes havia proximidade.

O medo pode tornar-se uma presença constante, especialmente quando os discursos políticos se tornam mais agressivos ou excludentes. É um ciclo que se auto-alimenta e que pode corroer tanto a saúde mental individual como o tecido social.

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Dra. Ângela Rodrigues

Psicóloga Clínica da Mente

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