Soisy-sous-Montmorency inaugurou exposição sobre a emigração portuguesa e reforçou laços com Fafe

A cidade de Soisy-sous-Montmorency (95), a norte de Paris, inaugurou este fim de semana uma exposição dedicada à emigração portuguesa para França, intitulada “Pour une vie meilleure…”, com fotografias de Gérald Bloncourt do acervo do Museu das Comunidades de Fafe, evocando as décadas de 1960 e 1970, o fenómeno do “salto” e as vidas reconstruídas na região parisiense.

A inauguração foi presidida pelo Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa, pelo novo Maire de Soisy, Nicolas Naudet, eleito precisamente no dia anterior, e pelo Presidente da Câmara municipal de Fafe, Antero Barbosa. Estavam ainda presentes o Diretor Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas, António Moniz, a Cônsul-Geral de Portugal em Paris, Mónica Lisboa, o Adjunto do Secretário de Estado das Comunidades Vítor Oliveira e a Vereadora da Câmara municipal de Fafe Paula Nogueira, com o pelouro da cultura, do turismo, do desporto, da saúde, das relações internacionais e Diáspora.

La linha da frente, lá estava Emília Fayol, grande impulsionadora da aproximação entre Soisy e Fafe, a quem o novo Maire de Soisy prestou homenagem e pediu, publicamente, que continue a acompanhar o relacionamento entre as duas cidades.

Este evento, marcado por uma forte presença institucional portuguesa, serviu também para reafirmar a aproximação entre Soisy-sous-Montmorency e Fafe, atualmente ligadas por um Pacto de amizade que poderá evoluir para uma geminação formal.

Uma aproximação que pacifica os povos”

O Presidente da Câmara Municipal de Fafe sublinhou a importância deste reencontro entre as duas cidades. Recordou que o Pacto de Amizade foi assinado no ano passado e que vê com agrado a vontade do novo Maire de aprofundar a relação. “Se houver esta disponibilidade, nós estamos disponíveis para aproximarmos ainda mais as nossas duas cidades”, afirmou numa entrevista ao LusoJornal, lembrando que Fafe tem uma dimensão maior, mas está totalmente aberta à cooperação.

Para o autarca, estes laços têm um valor que ultrapassa o Protocolo. “É para mostrar a quem cá reside a nossa cultura e também aos de lá aquilo que se vai fazendo aqui”, disse, defendendo que desta convivência pode resultar “uma pacificação entre os povos”, algo que considera urgente num mundo marcado por conflitos e falta de acolhimento.

O Autarca de Fafe deixou ainda um apelo ao Governo português: “Espero que o governo entenda que temos aqui um ativo muito importante para a economia do país e que não está suficientemente explorado. Nos discursos diz-se que sim, mas na prática não tem tradução real”.

Cecília Besnard: emoção perante a memória do “salto”

A nova Maire-Adjointe da Cultura de Soisy, Cecília da Silva Besnard, de origem portuguesa, viveu a exposição de forma profundamente pessoal. “Quando vi as imagens, chorei”, confessou ao LusoJornal. As fotografias evocavam o percurso dos seus pais, que também viveram a dureza da emigração. “Fez-me pensar na história dos meus pais, em como chegámos aqui em França e porque viemos” disse ao LusoJornal.

Cecília Besnard, que tomou posse no dia anterior à inauguração da exposição, admitiu que não conhecia o Pacto de Amizade com Fafe, mas vê nele uma oportunidade. “É uma descoberta. Espero que façamos muitas coisas juntas”, afirmou, mostrando vontade de dinamizar intercâmbios culturais e trazer a Soisy projetos artísticos ligados à memória da emigração.

Para Emídio Sousa, “as geminações constroem a Europa dos povos”

O Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa, destacou a importância das geminações e dos intercâmbios europeus, lembrando que muitos destes processos foram incentivados pela União Europeia nos anos 1980. “É uma ideia brilhante”, afirmou, defendendo que estes laços ajudam a criar “uma Europa comum, unida e democrática”.

O governante recordou a sua própria experiência enquanto Presidente de Câmara de Vila da Feira, quando herdou uma geminação com Joué-lès-Tours. “Todos os anos vínhamos com delegações a França e havia intercâmbios de jovens. Isto cria relações pessoais, e são essas relações que constroem uma cultura democrática”.

Sobre a exposição, Emídio Sousa falou com emoção. “Sou filho de imigrantes que vieram ao assalto. Foi uma infância dolorosa”. Recordou as bidonvilles, o frio de Paris e a dureza das primeiras vagas migratórias. “Vieram para trabalhar duro e poupar duro. A maioria conseguiu melhorar a sua vida e ajudou a reconstruir uma França que saía da II Guerra mundial.”

Para o Secretário de Estado, recordar esta história é um dever. “Um povo sem cultura e sem memória não existe. Temos de perceber o que somos, e muito do que somos vem do que fomos”.

O novo Maire de Soisy quer reforçar os laços com Fafe

No seu primeiro evento oficial, o novo Maire de Soisy-sous-Montmorency fez questão de sublinhar a importância da Comunidade portuguesa na cidade. “Temos uma Comunidade muito forte aqui e nas cidades vizinhas”, afirmou ao LusoJornal, lembrando que cresceu rodeado de amigos portugueses e lusodescendentes. “Temos culturas muito próximas. Honra-me começar o mandato com um evento português”.

Sobre a relação com Fafe, foi claro: “Queremos reforçar os laços. Hoje é um simples Acordo de Parceria, mas podemos evoluir para algo mais forte, talvez uma Geminação”. Atualmente, Soisy tem apenas uma geminação formal, com Freiberg, na Alemanha.

O Maire Nicolas Naudet revelou ainda que pretende visitar Fafe em breve e aprofundar o conhecimento da cultura portuguesa. “Gosto muito da cultura portuguesa e vamos colocá-la em destaque aqui”. Acrescentou que já visitou Lisboa com amigos franceses e franco-portugueses.

A exposição inaugurada em Soisy-sous-Montmorency não foi apenas um exercício de memória histórica. Foi um momento de reconhecimento, de emoção e de reafirmação dos laços entre Portugal e França – laços feitos de trabalho, sacrifício, cultura e pertença.

Entre fotografias que evocam o “salto”, testemunhos de vida e projetos de cooperação futura, Soisy e Fafe deram mais um passo para transformar a memória da emigração num espaço de encontro e de futuro.

Aliás, entre uma degustação de Pão de Ló e de Vinhos de Fado, atuaram os grupos de Bombos e de Folclore de Montmorency.

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