Viveu grande parte da vida em Paris: Exposição com obras de Bertino Cordeiro em Penamacor


O Museu Municipal de Penamacor inaugurou na semana passada a exposição “Prémios Nobel na Obra de Bertino Cordeiro”, uma mostra que apresenta pinturas nas quais o artista reinterpretou obras literárias de 12 autores distinguidos com o prémio Nobel. Patente até 31 de outubro, a exposição convida os visitantes a mergulhar no universo de um criador que transformou literatura em linguagem visual, recorrendo à abstração, à cor e à desconstrução gráfica dos nomes dos escritores.

As obras apresentadas correspondem às criações inspiradas em Alexandre Soljenitsyne, Boris Pasternak, Günter Grass, Heinrich Böll, Hermann Hesse, José Saramago, Luigi Pirandello, Rudyard Kipling, Samuel Beckett, Thomas Mann, William Butler Yeats e Wislawa Szymborska. Em vez de retratar os autores, Bertino Cordeiro optou por trabalhar a anatomia dos seus nomes, entrelaçando letras com formas geométricas preenchidas por cores puras e primárias. Cada nome torna-se, assim, uma composição autónoma, onde a tipografia se converte em gesto pictórico e cada letra ganha expressão própria.

Nascido no Porto em 1928, Bertino Cordeiro manteve sempre uma ligação profunda a Penamacor, terra dos seus pais e irmãs, que visitava todos os anos. Em 1959 mudou-se para Paris como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian e foi na capital francesa que viveu grande parte da sua vida, se afirmou como pintor letrista e consolidou uma carreira marcada pela experimentação gráfica e pela fusão entre palavra e imagem.

Paris foi também o lugar onde faleceu em 2014, deixando um vasto legado artístico que inclui pintura, escultura e objetos de criação singular.

A relação entre o artista e Penamacor ganhou novo impulso em 2021, quando a família doou ao Museu Municipal três peças simbólicas do seu espólio: um bandolim, um violino e o primeiro quadro da sua autoria, intitulado “Penamacor”. Este gesto abriu caminho a um protocolo de cedência, em depósito, da sua obra completa, composta por cerca de 16 mil peças, permitindo ao município preservar, estudar e divulgar um acervo de grande relevância para a história da arte portuguesa contemporânea.

A exposição agora inaugurada reforça essa ligação e oferece ao público uma oportunidade rara de conhecer a dimensão literária da obra de Bertino, um artista que fez da tipografia um território de criação e que, a partir de Paris, desenvolveu uma linguagem plástica singular, hoje reconhecida como parte importante da memória artística da diáspora portuguesa.

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