O escritor luso-francês Manuel Maia Teixeira publicou recentemente o seu primeiro romance, “D’Amarante à Valparaíso”, uma obra, em língua francesa, que cruza memória, ficção e testemunho, e que acompanha o percurso de vida de um jovem transmontano desde a infância em Amarante até à descoberta do mundo, passando pela grande vaga de emigração portuguesa para França nos anos 60. O livro, escrito entre recordações pessoais e episódios reinventados, é também um tributo à diáspora e às múltiplas identidades que se constroem entre países, línguas e afetos.
Nascido em Borba de Godim, Manuel Maia Teixeira viveu a infância em Amarante antes de emigrar para França, fixando-se em Montceau-les-Mines (71), na Bourgogne. A região, marcada pela história mineira, pela multiculturalidade e pela forte presença de famílias portuguesas, tornou-se o cenário da sua vida adulta e o espaço onde amadureceu a vontade de escrever. Depois de quarenta anos de carreira profissional na área tecnológica e de inúmeras viagens, o autor decidiu transformar as memórias dispersas em narrativa literária, dando origem a um romance que é, ao mesmo tempo, íntimo e universal.
O livro abre com a infância do narrador, vivida num ambiente rural marcado pela dureza da terra, pela simplicidade das relações e pela força das tradições. As primeiras páginas revelam um mundo de descobertas, jogos, medos e fascínios, onde a natureza é refúgio e cenário de aventuras. O autor descreve com sensibilidade episódios marcantes, como a amizade com Gracinda, os jogos inocentes sob a laranjeira, ou o choque provocado pela morte de Miguel, um jovem vizinho mobilizado para a guerra colonial em Angola.
A violência deste acontecimento, que atravessa a vida da aldeia, funciona como um ponto de viragem emocional e como prenúncio de mudança.
A narrativa acompanha depois o quotidiano da família, dependente de uma exploração agrícola que não lhes pertence, e onde o pai do narrador trabalha com dedicação, mas também com frustração. A injusta repartição do vinho, a dureza dos trabalhos, a falta de perspetivas e o peso das tradições tornam-se elementos centrais na decisão de emigrar. O livro descreve com detalhe o ambiente social da época, as tensões entre proprietários e trabalhadores, e a crescente consciência de que o futuro não poderia ser construído apenas na terra natal.
A morte de Miguel e um acidente vivido pelo narrador precipitam a decisão do pai: partir para França, onde novas oportunidades começavam a surgir para os portugueses. O romance acompanha essa transição, marcada pela esperança, pelo medo e pela necessidade de recomeçar.
A chegada a Montceau-les-Mines abre um novo capítulo: a adolescência vivida no contexto de Maio de 68, as primeiras amizades, os primeiros amores e a descoberta de uma sociedade em transformação. O autor retrata com autenticidade o choque cultural, a integração, o trabalho árduo e a solidariedade entre emigrantes.
A partir daí, o livro expande-se para o mundo. O narrador viaja pela Ásia, pelas Américas, encontra pessoas, histórias e lugares que o transformam. Entre encontros com anónimos e celebridades, entre peripécias e revelações, surge finalmente Valparaíso, no Chile, como uma espécie de epifania: um lugar onde o passado, o presente e o futuro parecem convergir, oferecendo ao protagonista uma nova forma de olhar a vida.
“D’Amarante à Valparaíso” é um romance de formação, de viagem e de memória. É também um testemunho da diáspora portuguesa, das suas dores e conquistas, e da capacidade de reinvenção que marcou milhares de famílias que deixaram Portugal nas décadas de 60 e 70. A escrita de Manuel Maia Teixeira é direta, sensível e profundamente visual, permitindo ao leitor entrar nos espaços, nas emoções e nas paisagens que moldaram o protagonista.
O livro representa a estreia literária de um autor que encontrou na escrita uma forma de unir as suas duas pátrias – Portugal e França – e de celebrar as histórias que, tantas vezes, permanecem apenas na memória dos que as viveram.
Manuel Maia Teixeira está disponível para participar em sessões de apresentação do livro.







