Será o sarcasmo uma forma de dizer verdades que não teríamos coragem de dizer diretamente? Efetivamente este é um dos equívocos mais comuns em que o sarcasmo pode cair. O sarcasmo pode sim funcionar como uma espécie de “escudo” permitindo dizer algo verdadeiro, ou até criticar, sem assumir de forma totalmente direta aquilo que se pensa. Caso a outra pessoa reaja mal, quem falou pode sempre recuar e dizer que estava “só a brincar” – este é de facto um movimento muitas vezes detetado na utilização do sarcasmo e aquele que pode efetivamente instalar maior polémica na sua utilização.
Se analisarmos psicologicamente a utilização do sarcasmo é possível detetar que esta forma de comunicação permite a algumas pessoas expressar pensamentos que teriam dificuldade em dizê-los se tivesse sido de uma forma frontal. O sarcasmo pode sim ser usado para criticar, demonstrar desagrado, provocar ou até revelar sentimentos que não são fáceis de admitir.
Ao mesmo tempo, o sarcasmo também pode ser uma forma de evitar a vulnerabilidade. Dizer “estou magoado contigo” é muito mais direto e emocional do que fazer uma piada sarcástica sobre aquilo que a pessoa lhe fez. O sarcasmo permite assim transmitir a mensagem mantendo alguma distância emocional. Podemos dizer que o sarcasmo nem sempre esconde uma verdade, mas muitas vezes permite dizer uma verdade de uma forma que seria mais difícil ou desconfortável de dizer diretamente.
A diferença entre sarcasmo e crueldade
A principal diferença está na intenção e no efeito sobre a outra pessoa. O sarcasmo é uma forma de comunicação que pode ser usada para fazer humor, criticar, provocar ou dizer algo indiretamente. Já a crueldade envolve, sobretudo, a intenção de magoar, humilhar ou causar sofrimento. No entanto uma pessoa pode fazer um comentário sarcástico sem querer realmente ferir alguém. Por exemplo, perante um amigo que chega atrasado, dizer sarcasticamente algo como: “pontual como sempre”… pode ser apenas uma brincadeira. Mas, se a pessoa sabe que aquele amigo se sente inseguro com os seus atrasos e usa constantemente esse comentário à frente dos outros, o sarcasmo começa a transformar-se em crueldade. Basicamente se o sarcasmo é utilizado de forma repetitiva na utilização de inseguranças previamente conhecidas acerca da pessoa em causa, então já estamos perante um quadro de crueldade e humilhação e não propriamente de sarcasmo.
Torna-se por isso pertinente distinguirmos o que foi dito, da forma como foi dito e porque é que foi dito. Assim a mesma frase pode ser engraçada numa relação de confiança e cruel numa situação em que existe uma vulnerabilidade. Quando se joga com a vulnerabilidade do outro podemos sim afirmar que o sarcasmo pode funcionar como uma forma de crueldade socialmente disfarçada.
No entanto nem todo o sarcasmo que magoa é necessariamente cruel. Podemos dizer algo sarcástico sem perceber que tocámos num ponto sensível da outra pessoa. O impacto é importante, mas a intenção também. Qualquer equívoco pode e deve ser devidamente desconstruído no momento certo.
Assim podemos considerar o sarcasmo como uma forma de comunicação, e a crueldade como uma intenção ou uma atitude. Tudo depende se queremos criar humor, dizer uma verdade difícil ou magoar intencionalmente alguém.
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Dra. Catarina Graça
Psicóloga
Clínica da Mente






