As Éditions Douro acabam de anunciar, no dia 1 de maio, de “La vie de Matthias Loïc”, o mais recente romance do escritor luso-congolês António de Sousa. A obra, profundamente marcada pela memória, pela perda e pela reconstrução identitária, acompanha o percurso de um homem que nasce sob o signo da ausência: o pai morre no dia em que ele vem ao mundo, como se a vida tivesse trocado os seus lugares. Contra todas as probabilidades, o recém-nascido sobrevive – e cresce com essa dívida silenciosa, tornando-se historiador para procurar no passado aquilo que nunca pôde conhecer no presente.
A narrativa atravessa geografias e séculos, da Baixa-Saxónia aos povoados portugueses, passando pelo Congo e pelas margens da Volga. A viagem íntima de Matthias Loïc cruza-se com as grandes fraturas da história: exílios, guerras, silêncios familiares e culpas herdadas. Ao revisitar as vidas dos seus antepassados – colonos germano-russos, huguenotes perseguidos, uma antepassada africana -, o protagonista recompõe uma identidade fragmentada, feita de deslocações, rupturas e sobrevivências.
Em paralelo, o romance mergulha na juventude do narrador, evocando um amor fundador e amizades que resistem ao tempo. São fragmentos íntimos que dão corpo à memória e que sustentam o pacto narrativo central da obra: para reparar a morte, o pai oferece ao filho uma vida escrita. Entre a erudição e a emoção, António de Sousa interroga a transmissão, a filiação e o poder da literatura como gesto de resistência contra o esquecimento.
O autor, nascido em 1957 na aldeia de Putubongo, no então Congo-belga, hoje República Democrática do Congo, viveu entre África e Portugal antes de se fixar na Alemanha. A sua biografia, marcada por deslocações, cruzamentos culturais e pertenças múltiplas, ecoa no romance e reforça a autenticidade do olhar que lança sobre a história e sobre as identidades mestiças.
Numa nota pessoal que acompanha o lançamento, António de Sousa sublinha a origem íntima do livro: “Este livro nasceu de um luto e de uma necessidade: dar uma voz àquele que não teve tempo de falar. Matthias Loïc é o filho que não perdi, o filho a quem ofereci uma vida, uma memória e um amor. Escrever foi uma forma de inverter o tempo, de reparar o irreparável”.
Com “La vie de Matthias Loïc”, as Éditions Douro – une editora instalada em Chaumont (52) e dirigida por António de Morais Cardoso – reforçam a sua aposta em obras que exploram a memória, as diásporas e as identidades cruzadas, dando espaço a narrativas que iluminam as relações históricas e afetivas entre África e Europa. O romance chega ao público como um testemunho literário de grande densidade humana, onde a escrita se torna lugar de cura, de transmissão e de permanência.







