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António Barbosa Topa é poeta, com vários livros de poesia publicados, mas também foi militante antifascista em Portugal, foi funcionário do então Instituto de Apoio à Emigração e às Comunidades Portuguesas, foi Secretário Geral do Sindicato dos Trabalhadores Consulares, foi quatro vezes candidato a Deputado pelo círculo eleitoral da Europa para a Assembleia da República Portuguesa e atualmente é intérprete em meio social.

Trabalha essencialmente com refugiados, com pessoas que solicitam asilo em França ou aquelas a quem o pedido foi rejeitado e que recorrem para o Tribunal nacional do direito de asilo. Traduz essencialmente de/para português, junto de Angolanos, Moçambicanos e Guineenses, mas também de/para espanhol, com pessoas que chegam da América Latina, nomeadamente da Colômbia e da Venezuela.

Numa “entrevista-live” ao LusoJornal conduzida por Dominique Stoenesco, explica que nasceu no Porto, na maternidade Júlio Dinis, em Cedofeita, mas a família vivia toda do outro lado do rio, em Gaia. “Sou filho de pai pedreiro e de mãe mulher-a-dias e tenho muita honra nisso”. Depois da quarta classe, os pais não tinham meios para o mandar estudar, “o meu pai não tinha posses para pagar os estudos, para pagar o exame de admissão ao liceu e à escola comercial e pediu-me que escolhesse uma profissão. Disse-me que podia fazer tudo, menos trolha, porque sabia aquilo por que tinha passado”.

Depois, com a colaboração dos vizinhos, da família e sobretudo da avó “conseguiram mandar o menino estudar” diz.

Acabou por realizar estudos no Instituto Comercial do Porto e trabalhou na Repartição de finanças de Vila Nova de Gaia. Com 19 anos começa a publicar poesia em vários jornais e revistas. “Eu comecei a publicar, como bastante gente da minha geração, graças ao trabalho importantíssimo realizado pelo Mário Castrim, já falecido, e depois retomado pela Alice Vieira, sua companheira e esposa, na página juvenil do Diário de Lisboa” explica António Barbosa Topa, lembrando-se ainda que o seu primeiro poema começava assim: “Hoje sei que não vou parar…”.

“Nessa altura, com outros amigos do grupo de Gaia, concebíamos a poesia não só como panfletária, mas tendo ao mesmo tempo uma intervenção cívica e política. Foi um período de resistência à ditadura e à censura” lembra António Barbosa Topa. “Lembro-me do primeiro recital de poesia onde eu participei em Avintes, com sala cheia. Alguns poemas vieram cortados pela censura, mas mesmo aqueles que eles cortaram, foram lidos por mim e pelos meus companheiros. E nós sabíamos que na sala estavam presentes agentes da sinistra Pide”. O episódio foi aliás noticiado pelo Jornal de Notícias.

Antes de vir para França, quando já tinha sido transferido para a Repartição de Finanças de Vagos, em Aveiro, António Topa participou, em 1968, no primeiro Congresso democrático da oposição, que teve lugar precisamente em Aveiro.

“Na altura tive a honra de conhecer grandes nomes como Mário Sacramento, uma figura que me marcou. Liguei-me com um grupo de gente jovem como eu, alguns que escreviam e publicavam, jovens que reagiam contra o regime daquela altura. Foi um período importante que me marcou muito” e foi assim que participou no Congresso. Aliás, António Topa consultou, na Torre do Tombo, a “ficha” que na altura a Pide fez sobre ele. “Não sei como souberam que eu participei nesse grupo com mais 75 jovens”.

Muito naturalmente recusou participar na Guerra colonial, mesmo se já tinha sido apurado e convocado, o que lhe valeu quatro mandatos de captura, mas em 1969 fugiu para França. “Resolvi, com o meu amigo Júlio Henriques, vir a salto, pagando a um passador, sem passaporte, sem nenhuma perspetiva,… Tinha só uma morada de uma senhora da Cimade” conta ao LusoJornal.

Quando chegou a Paris começou a trabalhar num hotel como rececionista, depois como chefe do economato no Grande Hotel do Louvre, fez uma formação e trabalhou como animador sociocultural em bairros de lata, em bairros de trânsito e mesmo na Maison des Jeunes de Nanterre.

Depois do 25 de Abril foi admitido como funcionário da Secretaria de Estado da Emigração, no então Instituto de Apoio à Emigração e às Comunidades Portuguesas (IAECP), na Passage Dombasle, em Paris.

“Eu não queria aderir ao Sindicato [ndr: Sindicato dos Trabalhadores Consulares, STCDE] porque sei como é que ele foi fundado, mas acabei por aderir e um ano depois fui eleito Secretário Geral” explica António Topa. Mais tarde acabou por ser “saneado por telegrama”. Recebeu uma ordem de mudança para outra cidade, mas como era dirigente sindical em Paris e até já era membro do Sindicato nacional da função pública, não aceitou. “Recorri e… perdi tudo”.

Foi também candidato ao Parlamento português por 4 vezes: 3 vezes enquanto cabeça de lista “mesmo se não era membro do Partido Comunista na altura, mas fui candidato em listas propostas pelo Partido Comunista”. Acabou por aderir mais tarde ao Partido, e na quarta candidatura, “exigi ficar em quarto lugar”.

A poesia de António Barbosa Topa está intimamente ligada ao seu percurso. O primeiro livro de poemas publicado em França chama-se “O fio da palavra”, editado pelas edições Acap 77. Em 2000 editou “Pelos lábios do silêncio”, com tradução de Jorge Sedas Nunes e no ano passado publicou “Davagar, nas asas do vento”, com tradução de Dominique Stoenesco, na Oxalá Editora.

António Barbosa Topa também tem um bonito texto no livro Exílios” editado pela Associação dos exilados políticos portugueses, com testemunhos de desertores portugueses entre 1961 e 1974.

 

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