A questão espinhosa que “enerva muitos portugueses de cá” ao ouvirem falar francês aos nossos emigrantes

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Caros leitores,

Por se ter reproduzido, no meu círculo de amigos e afins, uma enorme discussão sobre o facto dos nossos emigrantes “enervarem” muitas pessoas ao falarem francês entre eles e os filhos na rua ou nos supermercados, pretendo aqui deixar um esclarecimento sociológico em linguagem simples e compreensível para todas as instruções (exceto para iletrados, analfabetos ou invisuais).

Quando alguém sai do seu habitat natural, da sua terra, dos seus costumes, do seu “linguajar” habitual com os vizinhos, conterrâneos e concidadãos (por norma é necessitado, com pouca cultura e outras carências), e vai para uma outra sociedade estrangeira (mais culta em geral), onde não se fala a sua língua, não se têm os mesmos hábitos e costumes, códigos culinários etc. Esse alguém, sente enormes dificuldades iniciais para atingir os seus objetivos que são: ganhar a vida, adaptar-se e amealhar algum dinheiro para eventualmente fazer (se não a possui já), a sua casinha na aldeia ou no lugar onde vivia com os seus e, eventualmente, regressar.

Estes eram os dados decifrados por sociólogos e antropólogos da emigração dos anos 60 e 70, até ao “Mito do retorno”. Toda uma “panóplia” de transformações se iriam produzir para que o sucesso daquela “fuga da terra” seja realizado ou não.

Todos os cenários serão possíveis: desde o retorno rápido, às resistências ou à “subjugação”, ao modo de vida e à língua da sociedade do país que o acolheram. Pode esse emigrante trazer consigo a sua família nuclear ou alargada, ou vir sem ela. No entanto, para resumir este exposto, devo dizer o seguinte: Há algumas palavras “chave” que aqui devo desenvolver para se entenderem os porquês de, o nosso emigrante ao cá chegar de férias a Portugal, falar a língua do país de acolhimento de onde provém.

Cada país de proveniência é distinto: Um emigrante na Suíça, rarissimamente tem o mesmo comportamento linguístico com os filhos por cá em férias, que um emigrante francês por algumas razões que só com alguma experiência nestas lides se compreenderá com relativa facilidade. Não é qualquer um que entende!

Além de a emigração para este país seja muito mais recente que para os outros, aqui falam-se quatro línguas nacionais na Confederação: o Francês, o Alemão, o Italiano e o Romanche (similar ao nosso Romance do séc XII, saído do latim vernáculo reto-romano das legiões) e em todos os estados helvéticos há especificidades culturais, sendo o cosmopolitismo bem aceite (menos na zona germanófona). No entanto, quanto ao multilinguismo, coabita-se em perfeita harmonia. Toda a gente na Suíça fala a sua língua de origem sem ser olhada de “esguelha” nem vítima de “tácita” fobia.

Porém nem todos os países são como a Suíça onde com alguns conhecimentos de inglês se convive num multiculturalismo sem nódoas. Assim sendo, o nosso emigrante (não sendo muito letrado, invertendo-se agora esse fluxo), não é forçosamente obrigado a perder os seus códigos linguisticos ou alimentares, cedendo, todavia, alguns hábitos aos costumes locais como é natural: “Onde fores, faz como vires”. Isto deve-se não só à tolerância do multiculturalismo suíço, mas também à facilidade de as crianças aprenderem nas escolas básicas as línguas de origem sob regras que os Tratados Bilaterais entre Estados consignam.

Daí, depreende-se que os emigrantes provenientes da Suíça não tenham tanta tendência a falar francês em Portugal, porque também na Suíça não têm, no geral, vergonha de o falarem.

Na França e Bélgica, já os modelos são diferentes. Mesmo entre estes países há comportamentos nacionalistas diferentes entre eles, em relação ao estrangeiro.

Na França, país de enorme chauvinismo (assimilacionista) nacionalista, mas em simultâneo, país de referência cultural mundial, o nosso emigrante sofre na pele as imposições do meio que o rodeia e do dito assimilacionismo que é imposto a todos.

Em França, a pessoa que falar outra língua sem ser a francesa sofre desse olhar segregativo e desse tratamento algo “xenófobo” que se sente na pele, nem sempre agressivo, certo, mas contemplativo e displicente. (Por vezes tem-se vergonha em falar português na rua).

Ora, perante esta situação, o nosso emigrante (por norma pouco instruído), tem de se adaptar às regras que a sociedade gravitante impõe a todos na dita miscigenação étnica “creuset francês”. Então processa-se a Aculturação – palavra cujo conteúdo consiste em fazer face a uma cultura e uma língua diferentes da nossa, obrigado a perdas e a ganhos e a uma interpenetração de vocábulos que engendra um linguajar misto denominado por alguns de “Françuguês”.

As crianças escolarizadas em português na época atual são raras, embora nos anos 80-90 houvessem 450 professores de Língua Materna, destacados. Assim sendo, o francês é recebido pela televisão, pela escola, pelo trabalho dos pais que a utilizam como língua veicular interétnica. Induz-se, assim, que os hábitos locais combatem as resistências dos pais e dos filhos. A Língua intrafamiliar deixou de ser o português, substituída pelo francês ou pelo “Charabiar françuguês” exceto em meios socialmente mais cultos (tipo funcionários oficiais).

Em suma: a Aculturação reside paredes meias com a Assimilação, Enculturação, Adaptação e Integração. Só a Endoculturação e a transmissão de valores axiológicos serão uma problemática de fundo para os Lusodescendentes que com o tempo terão as raízes em Portugal e as folhas em França em permanente “Perplexidade identitária”…

Se entendermos isto, mais fácil será tolerarmos que os nossos emigrantes franceses, ingleses, americanos ou belgas, falem as línguas dos países de acolhimento, já que os filhos para os pais, em muitos casos, são a solução para os problemas administrativos locais e seria impossível travar a dinâmica social e a aprendizagem que se operam e o tempo forja.

Para os mais intolerantes, recomendam-se algumas leituras sobre o “comportamento humano” de Skinner, Watson e outros.

 

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3 Comments Deixe uma resposta

  1. ‘’Abstrus’’, ‘’Abscons’ ’Sibyllin’’ Tous ces mots expriment bien les pensées et analyses de votre texte…
    Loin d’être holistique, vous effleurez les problématiques sans penser une seconde que « ces dernières sont multiples et que chaque cas est différent et a son propre vécu, son propre ‘’jus’’»

    Vous analysez, vous jugez, vous conseillez même avec un certain aplomb, véritable sociologue, anthropologue à deux sous, baptisé et formé à la sauce Salazariste je présume !? Et que sais-je encore,
    prophète peut-être… ? Sorti tout droit de la « cuisine de Jupiter » comme disait ce pauvre ‘’Coluche’’… !?

    Vous savez ce que l’on dit ici sur les prophètes… ‘’ Si derrière toute barbe il y avait de la sagesse, les chèvres seraient toutes prophètes.”

    Vous jugez !? NON !?
    Me déplaise ?? Je dirais peut-être… !!?? Ce n’est pas tant les faits mais la manière, pas tant le contenu mais le contenant…

    Je dirais tant mieux !! Le débat n’est pas lancé et n’est pas nouveau mais reste néanmoins ‘’ Puant’’
    Désolé, je ne vous avais pas aperçu et remarqué jusqu’à présent mais si vous le dites, les lecteurs sont nombreux et les penseurs sont rares, qu’il m’en déplaise ou non !

    Abondants sont ceux qui ont deux grammes d’intelligence et qui pourraient traverser ce grand fleuve que sont les mots et les idées, mais plus abondants encore sont ceux qui préfèrent continuer sur le long de la berge, espérant peut-être y trouver un hypothétique pont.

    Le défi de la communication est moins de partager quelque chose avec ceux dont je suis proche que d’arriver à cohabiter avec ceux, beaucoup plus nombreux, avec lesquels je ne partage ni les valeurs ni les intérêts.
    Alors je dirais que c’est dans le malheur que nous comptons beaucoup plus d’amis, être le confident du bonheur exige des vertus plus rares, je ne peux pas parler pour ces personnes mais la porte reste grande ouverte…C’est quand vous voulez, plus on est nombreux et moins il y a de riz.

    Au fait…Con : Je n’ai pas d’urgence à le devenir mais c’est dur…

    PS ; je ne suis pas allé à l’école Portugaise et j’en suis le premier désolé… Peiné de vous écrire en Français, il n’y avait rien en ce temps là et même maintenant cela reste difficile d’apprendre à écrire le Portugais … ‘’Belle langue de surcroît’’ (Mon cœur reste Portugais mais pas ma plume, malheureusement !) Au fait ! Pas Google translate s’il -vous plait !!!

    José Manuel Marreiro

  2. Este tema já é velho e cada um dá uma explicação diferente, eu filho de emigrantes na Alemanha nos anos 60 nunca perdi o português, em casa os meus pais falavam português, na escola eu falava alemão, nunca mas nunca falávamos alemão em Portugal. Hoje sou emigrante na França, sou “avec” por tabela, em casa falase português e na rua, francês só com franceses. Também falo inglês, e nunca deixeirei de ser português fora de Portugal. Esse folclore de emigrante é para quem não tem raízes e personalidade lusitana. Sr. Hélder o seu discurso está desvazado, em pleno século 21 a emigração já se confunde com turismo.

  3. Caro Profesor, agradeco as horas de trabalho (e muitos momentos de rir😂) a ensinar-nos a nossa linda lingua portuguesa💕. bela época.

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