Clermont Ferrand: Uma das cidades com mais Portugueses pode perder ensino de português no colégio

O Reitorado de Clermont-Ferrand decidiu “congelar” o posto de português no Colégio Lucie Aubrac, naquela cidade, a partir do próximo ano, quando a professora que atualmente leciona, Mme Branco, se aposentar.

Mme Branco era professora titular, mas vai aposentar-se em julho de 2020 e para além de ensinar neste colégio, dá também aulas, em complemento de serviço, no Colégio de Lempdes, nos arredores de Clermont.

“No próximo ano escolar não haverá professor titular neste colégio e tememos o encerramento progressivo dos cursos de português” queixa-se ao LusoJornal Cláudia Pimenta, professora de italiano no mesmo colégio.

Contactada pelo LusoJornal, a Coordenadora Geral do Ensino de Português em França junto da Embaixada de Portugal, Adelaide Cristóvão, diz que logo que teve a informação da situação, pediu mais informações ao Inspetor de Português junto do Ministério Francês da Educação e aguarda resposta.

O ensino da língua portuguesa no Colégio Lucie Aubrac é importante porque é o único colégio na cidade de Clermont-Ferrand a propor um grande número de línguas vivas, como o alemão, o espanhol, o italiano e o português. Há vários anos que propõe projetos de abertura internacional. Ainda recentemente montou um projeto Erasmus+ sobre línguas e culturas latinas em parceria com a Espanha, a Itália e Portugal. O projeto foi aliás recompensado com o Prémio Iniciativas Europeias em maio do ano passado.

Em junho de 2019, o Colégio recebeu o Label Euroscol, por três anos, recompensando a dimensão europeia e o investimento no ensino das línguas vivas.

Ensinar a língua portuguesa nesta escola é pois importante.

Mas o ensino da língua portuguesa no Colégio Lucie Aubrac é vítima de duas situações que não favorecem em nada a estabilidade desta proposta. E constantemente, o recrutamento é difícil e o número de alunos é reduzido.

Por um lado, não há continuidade no Liceu de setor! Por mais incrível que pareça, o único Liceu de Clermont-Ferrand a propor a língua portuguesa é o Liceu Ambroise Brugière, que se encontra localizado… do outro lado da cidade. Os alunos do Colégio Lucie Aubrac seguem depois para o Liceu Jeanne d’Arc, onde não há ensino de português e, caso queiram continuar as aulas de português, têm de se inscrever nos cursos à distância do CNED.

Há anos que esta situação dura, sem que as autoridades tenham mostrado interesse em resolver este problema de continuidade, tantas vezes evocado.

Nesta situação, é difícil motivar os pais a inscreverem os filhos nos cursos de português no Colégio, optando naturalmente por línguas que depois podem ser seguidas no Liceu.

Mas há um segundo problema que depende de Portugal: apesar de Clermont-Ferrand ser uma das cidades com maior concentração de Portugueses, nenhuma escola primária do setor do Colégio Lucie Aubrac ensina português!

A questão da continuidade do ensino de português, tantas vezes evocado por Portugal quando denuncia os casos em que o Liceu não dá continuidade aos cursos do Colégio, é aqui colocado em sentido inverso.

Portugal – de quem depende o ensino da língua portuguesa nas escolas primárias – sabe que o Colégio Lucie Aubrac tem cursos de português e não conseguiu motivar as escolas primárias da região para aí abrir aulas de ensino de português em modo EILE (Ensino internacional de línguas estrangeiras).

Em Clermont Ferrand, ninguém percebe “esta apatia”.

“Não tem havido interesse por parte das escolas daquela zona para acolherem ensino de português” explica a Coordenadora do Ensino. Mas Adelaide Cristóvão garante “tudo o que depender de nós, vamos fazer”.

Sem alunos de português no ensino primário, é natural que haja menos inscrições no Colégio. “Nas escolas primárias do nosso setor, o português não é proposto, nem enquanto iniciação e descoberta, como acontece para outras línguas” explica a professora de italiano. “Se nada for feito para favorecer a informação e o desenvolvimento deste ensino, é natural que o número de alunos não evolua”.

Se o ensino da língua portuguesa vier a terminar no Colégio Lucie Aubrac, isto significa que mais nenhum colégio propõe o ensino de português na cidade de Clermont Ferrand!

A Comunidade portuguesa naquela região chegou a partir dos anos 60, quando os Portugueses vieram para trabalhar nas fábricas da Michelin. Várias localidades dos arredores da cidade também têm fortes Comunidades portuguesas. Apesar disto, Portugal decidiu encerrar o Consulado de Portugal naquela cidade, onde apenas funciona uma antena do Consulado de Lyon, no escritório da empresa do Cônsul Honorário Isidoro Fartaria, sem qualquer diplomata na cidade.

“A cidade de Clermont-Ferrand, geminada com Braga há muitos anos, acolhe uma forte Comunidade de origem portuguesa e é incrível que o ensino da língua portuguesa não seja mais desenvolvido e apoiado” queixa-se Cláudia Pimenta.

 

Por enquanto, os pais ainda podem inscrever os filhos nas aulas de português enquanto “Língua Viva 2” no Colégio Lucie Aubrac a partir de 5ème e até 3ème.

 

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2 Comments Deixe uma resposta

  1. Cada vez menos Português, especialmente para portugueses!
    E quem é que se admira?Desde 2011 que , com a passagem da tutela dos cursos de Língua e Cultura Portuguesas para o Instituto Camoes, depois de cerca de 32 anos a funcionarem relativamente bem, com ensino de qualidade e gratuito para todos os alunos, fossem eles portugueses ou estrangeiros, sob responsabilidade do Ministério da Educacao, que o Ensino do Português no Estrangeiro(EPE) se encontra em declínio, estando actualmente com menos de 50% da sua dimensao original.
    E isto nao acontece por acaso. Já em 2012 o entao SECP Dr. José Cesário preconizava “o estrangulamento progressivo da rede”, referindo-se ao EPE.
    O que é estranho é que tanto os deputados da emigracao dos vários Partidos, como os Conselheiros das Comunidades, como os pais, como os professores, continuem de olhos tapados, muitos deles voluntariamente, perante a destruicao deliberada da rede de cursos,pois conforme o número de cursos e professores diminui o mesmo sucede com os protestos, quase inexistentes.
    Com os alunos portugueses a pagar propina, a transformacao do Português Língua de Origem para Língua Estrangeira , seguindo o princípio primitivo de que se estamos no estrangeiro somos todos linguisticamente estrangeiros, a adopcao obrigatória de manuais de má qualidade mas dessa vertente, geralmente da autoria de indivíduos ligados ao citado Instituto, um certificado inútil em todos os aspectos, enfim, um ensino que já pouco passa das aparências e que no próximo ano lectivo, após abrandar a pandemia,vai evidenciar estragos que muitos agora nem imaginam, mas que serao inevitáveis, pois menos de metade dos alunos tem possibilidades de ensino à distância, possivelmente já nem para manter aparências vai ser suficiente.
    Porém, o Instituto Camoes nao está preocupado, pois desde há algum tempo descobriu ser fácil obter lucros económicos através da exploracao dos portugueses nos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, países onde nao contrata nem paga os professores, que estao a cargo das entidades locais, mas onde vende manuais de fraca qualidade e os inúteis certificados.
    Ora isto é o sonho de qualquer entidade empregadora, nao se paga a ninguém mas até se vende! E recebem-se elogios pelo bom trabalho,pois especialmente na Secretaria de Estado das Comunidades, que nem que fosse pelo nome que tem devia zelar pelos interesses dos portugueses no estrangeiro, tudo isto é conhecido mas ninguém faz absolutamente nada para acabar com aquilo que no fundo é uma vergonha nacional.
    Muito pelo contrário, colaboram activamente , objectivando o fim dos cursos de Língua e Cultura Portuguesas para os lusodescendentes, um direito constitucional.

    Teresa Duarte Soares- Sindicato dos Professores nas Comunidades Lusíadas

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