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A ilustradora portuguesa Fatinha Ramos apresentou na semana passada, na Livraria Flammarion do Centre Georges Pompidou, em Paris, a versão francesa de um livro de arte para crianças sobre a artista plástica Sonia Delaunay, edito pelo MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. O livro chama-se «Sonia Delaunay: Une vie en couleurs» e foi escrito por Cara Manes, curadora do MoMA. Fatinha Ramos apresentou algumas das ilustrações e dedicou o livro.

Em entrevista à Lusa, Fatinha Ramos, de 39 anos e a viver em Antuérpia, contou que foi escolhida pelo MoMa, entre três ilustradores candidatos, depois de ter tomado a iniciativa de mostrar o portefólio ao Museu. «Sabia que o MoMa estava a trabalhar numa coleção de arte para crianças, decidi mostrar-lhes o meu trabalho. Já estavam a trabalhar no livro quando me pediram para fazer um teste de ilustração, mas nunca pensei que seria escolhida. É uma honra», disse.

Para o livro, que conta o percurso de Sonia Delaunay (1885-1978) e o trabalho criativo, Fatinha Ramos não quis esquecer as influências da época em que a artista visual viveu com a família em Portugal. «Tem muita cor, muita luz, reflete as memórias dela».

Para «Sonia Delaunay: A life of color», Fatinha Ramos utilizou trabalho gráfico digital e manual. «Desenho, depois digitalizo e imprimo, desenho por cima, volto a digitalizar e a imprimir, pinto novamente e o processo segue assim».

Recorda ainda o esforço na concretização da obra: «Fiz o livro praticamente deitada, porque na altura parti uma perna e só me lembrava se tivesse feito sobre a Frida Kahlo [que por razões de saúde passou grande parte do tempo deitada a pintar]», disse entre risos.

Fatinha Ramos nasceu em Aveiro, estudou Design Gráfico no Porto, por ser o mais próximo que encontrou do trabalho de ilustração que sempre quis fazer. Elenca Henri Rousseau, Bosch, Louise Bourgeois e a fotografia conceptual como algumas das referências para a identidade visual.

Vive há 16 anos em Antuérpia, na Bélgica, onde quer continuar a trabalhar. «Construi uma rede de trabalho aqui, não estou longe de Portugal, estou no centro da Europa».

O LusoJornal foi ao seu encontro.

 

Como veio para Antuérpia?

Nasci em Aveiro e acabei os meus estudos no Porto, em design e comunicação, e aí conheci o meu namorado Belga, da Flandres. Foi assim que vim para cá onde vivo em Antuérpia há 16 anos. Faço ilustração, inicialmente para revistas e há pouco tempo para livros infantis. O meu primeiro livro foi só há 3 anos e meio. E como havia estudado design gráfico no Porto, trabalhei aqui como diretora artística e design gráfico. Mas como sempre quis ilustrar decidi seguir essa via e deixei de fazer design gráfico.

 

Encontra facilmente projetos?

Eu não fico à espera que as coisas aconteçam. Graças às redes sociais e ao meu site, o meu trabalho começa a ser conhecido e tenho feito apresentações, workshops, a dar aulas aqui e acolá.

 

Tem exposto os seus trabalhos?

Já expus em Antuérpia e no Porto, a solo e em exposições coletivas com outros ilustradores. No Porto tive uma exposição intitulada «Portugal» e foi aí que o meu trabalho sobre a saudade ficou tão famoso, que pude expor noutros sítios, nomeadamente em Nova York.

 

O seu primeiro em ilustração foi para o livro das fábulas de La Fontaine, publicado pela Porto Editora, não foi?

Foi. Tive que desenhar muitos animais, foi interessante porque já não me lembrava muito bem e voltar às fábulas gostei muito. Algumas dessas ilustrações foram premiadas nomeadamente em Los Angeles e também esteve lá exposto, na Coreia também e tem corrido muito bem. Ilustrar não é o mesmo que desenhar, é pegar no conceito ou numa ideia que já existe e dar uma mais valia ao texto, não é praticamnete pôr o que está no texto mas que as pessoas possam descobrir algo de novo.

 

Tem alguma técnica particular?

Trabalho muito com texturas e conceitos muito fortes e a forma como desenho as minhas personagens é muito reconhecível. Tenho um feedback positivo das pessoas, que reconhecem o meu trabalho.

 

O segundo livro está escrito em holandês…

O segundo livro chama-se «Ik Ben Heel Veel Liefde», em holandês, o que significa «eu sou muito muito amor», de Waly de Doncker, cuja história é muito bonita e que me tocou imenso. Eu também só ilustro histórias que me toquem bastante, caso contrário nota-se no meu trabalho e não vale a pena fazer.

 

E de que fala o livro?

É um diálogo entre uma menina e os pais e acaba por ser muito filosófico sobre o resultado do amor entre uns e outros. No fundo é uma história de amor, num mundo que hoje tem acontecimentos tão tristes. Espero que seja traduzido em português e noutras línguas.

 

Não tenciona voltar para Portugal?

Hoje em dia o mundo tornou-se tão pequeno que pouco importa onde se vive. Gostava obviamente, como toda a gente, de envelhecer numa casinha à beira mar, em Portugal, mas para já vou tentando fazer o meu trabalho cá. Mas gosto de andar de um lado para o outro. Penso que damos sempre valor ao que não se tem, ao sol, ao mar, mas hoje, com as novas tecnologias é muito fácil comunicar e ir mais facilmente a Portugal, e há muitos Belgas que gostam de Portugal e vão muito a Portugal. E tenho muito orgulho em ser Portuguesa.

 

 

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