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A recente inauguração de uma rua com o nome de Vieira da Silva, em Paris, trouxe novamente à atualidade uma das pintoras mais conhecidas de Portugal e da França.

Maria Helena Vieira da Silva nasceu em Lisboa a 13 de junho de 1908, mas morreu, com 83 anos, em Paris, a 6 de março de 1992, cidade onde aliás morou uma grande parte da sua vida, sem, porém, nunca ter cortado o cordão umbilical com Portugal.

Figura ímpar da “Escola de Paris”, embora tivesse começado a desenhar e a pintar na Academia de Belas Artes de Lisboa com apenas 11 anos, a inauguração da rua Vieira da Silva, em pelo 14° bairro de Paris, junto ao Hospital Paris Saint Joseph, foi uma justa homenagem.

Vieira da Silva despertou muito cedo para as artes, graças sobretudo ao avô, que foi o fundador do jornal “O Século”.

Com 20 anos veio para Paris – a “capital das artes” – e dois anos depois casou com o pintor de origem húngara Árpád Szenes, com quem sempre viveu.

Em Paris estudou na Académie La Grande Chaumière, com o escultor Antoine Bourdelle e com pouco mais de 20 anos, já tinha estudado pintura com nomes como Fernand Léger, Charles Dufresne ou Henry de Waroquier. Estudou também a gravura com Stanley Hayter e Johnny Friedlaender, assim como tapeçaria, cerâmica e vitrais. Teve pois uma formação sólida e multidisciplinar, como poucos artistas têm. Mas optou sobretudo pela pintura, impondo um estilo próprio, abstrato e geométrico, e é considerada uma referência do movimento estético conhecido de Paisagismo abstrato.

Durante a II Guerra mundial, o casal Maria Helena Vieira da Silva e Árpád Szenes foi viver para Lisboa, onde encontraram aliás alguns outros pintores franceses que, também eles, fugiram à guerra. Viveram ainda algum tempo no Brasil, mas voltaram a Paris quando a guerra acabou.

Os dois acabaram por naturalizar-se franceses em 1956, passando Vieira da Silva a ter a dupla nacionalidade.

Maria Helena Vieira da Silva da Silva já tinha exposto em Paris desde 1930, dois anos apenas depois de ter chegado à capital francesa, mas foi no pós-guerra que se tornou, não apenas uma das pintoras mais reputadas da capital francesa, mas também uma artista com renome internacional.

O estilo que criou, fortemente influenciado, entre outros, por Paul Cézanne, com formas geométricas fragmentadas e com uma palete de cores reduzida, próprias do cubismo e da arte abstrata, fez com que Vieira da Silva fosse uma artista única. Foi aliás a primeira mulher a receber o Grande Prémio Nacional das Artes do Governo francês. Até ela, nenhuma outra mulher tinha recebido este prémio.

António Costa e Anne Hidalgo já tinham inaugurado uma placa na casa onde o casal de artistas tinha o seu atelier em Paris.

Curiosamente, a Comunidade portuguesa de França não conhece bem Vieira da Silva, mas os quadros da artista estão nas mais diversas coleções mundiais. Por exemplo, o casal Macron escolheu dois quadros da pintora franco-portuguesa para o vestíbulo do Palácio do Elysée, por onde passam os Chefes de Estado que visitam o Presidente francês. Também a Igreja de Saint Jacques de Reims tem vitrais concebidos por Vieira da Silva.

A partir de Paris, Vieira da Silva expôs nos mais conceituados museus e galerias do mundo e ganhou muitos prémios, como o da Bienal de São Paulo em 1961, o Grande Prémio Florence Gould, o Terceiro Prémio da Bienal de Caracas em 1955, o Primeiro prémio de Tapeçaria da Universidade de Bâle em 1954,… Tem obras atualmente nas coleções do Guggenheim Museum de New York, no Centre Georges Pompidou de Paris, ou na Tate Moderne de Londres.

No início da sua carreira, em 1930, Maria Helena Vieira da Silva conheceu Jeanne Bucher que passou a comercializar as suas obras e cujos laços de amizade se prolongaram durante a vida. Ainda hoje, a Galeria Jeanne Bucher Jaeger expõe obras de Vieira da Silva em Paris e abriu mesmo uma antena da galeria em Lisboa.

Aliás, Lisboa acolhe a Fundação Árpád Szenes-Vieira da Silva, inaugurada em 1994, dois anos depois da morte da artista e que acolhe uma importante coleção de obras do casal.

Quatro anos depois da morte de marido, Árpád Szenes, o Grand Palais dedicou uma grande exposição pessoal a Vieira da Silva, em 1988. Aliás, foi a primeira mulher viva a ter uma exposição individual de grande envergadura no Grand Palais. Há quem evoque a necessidade de voltar a trazer esta artista franco-portuguesa para a ribalta, com uma nova exposição retrospetiva num espaço emblemático de Paris.

A França, para além de lhe ter atribuído a Légion d’Honneur em 1979, editou dois selos de correio reproduzindo obras da artista: um em 1986 com os vitrais da Igreja de Saint Jacques de Reims e um outro, em 1993, com a obra “Gravure Rehaussée”.

Por seu lado, Lisboa atribuiu-lhe a Medalha da cidade em 1988 e desde 1970 foi membro da Academia Nacional de Belas Artes.

Os quadros de Vieira da Silva podem hoje ultrapassar os dois milhões de euros. Até os desenhos da artista podem chegar aos 200 mil euros.

 

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