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Alice Brito nasceu em Setúbal em 1954. Advogada, lançou “As mulheres da Fonte Nova”, o seu primeiro romance, em 2012 e, três anos depois, regressou com “O dia em que Estaline encontrou Picasso na Biblioteca”. Já este ano, publicou “A noite passada”.

Este último livro retrata a classe média portuguesa na segunda metade do século XX, explorando temas como a opressão fascista, a guerra colonial, o grito revolucionário do 25 de Abril, o clima de quase guerra civil dos tempos PREC e até aquela modorra cavaquista e soarista que, apesar de uma certa euforia de modernidade, não conseguiu arrancar a pobreza sistémica de dentro de Portugal.

A característica mais marcante deste livro é a forma como Alice Brito trata todas estas temáticas da História contemporânea portuguesa sem se perder em dissertações abstratas. Bem pelo contrário, ela consegue manter os seus personagens muito vivos e sempre muito presentes, analisando a História de Portugal através das suas rotinas quotidianas.

Uma dessas personagens é Amélia. Uma jovem oriunda de uma respeitável família que se deixa levar na conversa de um cruel agente da PIDE, deitando-se com ele e colocando em perigo a sua honra e o seu futuro… a partir desse momento, a sua vida nunca mais será a mesma.

 

Ao ler este seu livro, nós vemos um grupo de mulheres a tentar lutar pela sua emancipação, mas parece que existe sempre uma força invisível que o impede. Se hoje, por um lado, vemos, pelo menos na Europa, uma evolução positiva da condição feminina, vemos, por outro, que a verdadeira igualdade de géneros tarda a chegar. Como explica essa demora?

É claro que tarda a chegar. De qualquer forma, entre as mulheres que são descritas no livro e as mulheres de hoje há um mundo de diferença. A Constituição que veio a seguir ao 25 de Abril, no seu artigo 13, consagra a igualdade plasmada nas leis que regem este país. Neste momento, e apesar do princípio constitucional, basta estar atento às notícias com as quais somos confrontados todos os dias nos telejornais. Nós percebemos que há ainda um longuíssimo caminho a percorrer. E que mesmo com todas as conquistas alcançadas, de um momento para o outro, essas conquistas podem desandar. Aliás, chamo à atenção que neste movimento internacional – conotado com o Bolsonaro, com os fascismos emergentes na Europa – as primeiras coisas que imediatamente sofrem um retrocesso é a condição feminina. Portanto, no que diz respeito à condição da mulher não há conquistas que se não possam perder. Pelo contrário, todos os dias é preciso lutar por elas.

 

É por isso mesmo, Alice, que lhe pergunto o seguinte: eu conheço mulheres que dizem “Ai, eu não sou nada feminista, que horror”. E eu lá lhes explico que para ser feminista basta defender a absoluta igualdade, a todos os níveis e sem exceção, entre o homem e a mulher. Que é isso o feminismo.

Exatamente! Quem defende essa posição desconhece o que é o feminismo. O feminismo é a luta pela emancipação da mulher.

 

Então por que razão existem estas mulheres, e são tantas, com um discurso antifeminista? Será apenas ignorância? Faz algum sentido?

É uma iliteracia social. É não saber, de facto, o que é ser feminista. Mesmo os homens podem ser feministas.

 

Claro que podem! Eu próprio e milhões de outros homens lutam todos os dias pela causa feminista. Somos feministas.

Sim, podem e devem. Veja. Quando metade da sociedade não é livre, nós estamos perante uma sociedade que não é livre. É tão simples como isso. Quando eu digo “não é livre”, eu não me refiro à liberdade na consagração dos direitos porque essa consagração existe. Eu falo do dia a dia, nas pequenas coisas. E hoje verificamos que há um movimento inverso àquele que aconteceu nas décadas anteriores, nomeadamente em Portugal com o referendo do aborto, etc. e com todas as conquistas alcançadas. Nós conseguimos isso, estamos todas muito satisfeitas, mas depois a realidade dura e crua põe-nos a pensar como é possível haver tantas mulheres assassinadas? Por companheiros, ex-companheiros, maridos, namorados… Como é que é possível o crime e a violência doméstica atingirem índices perfeitamente escabrosos em Portugal. Mas isto não é um problema apenas português. É um problema europeu e mundial. E, assim sendo, a questão da mulher é uma questão de primeira grandeza nas sociedades atuais. É uma questão civilizacional. Não há outra forma de encarar este problema.

 

Alice, vamos agora falar desta sua lealdade literária a Setúbal. A cidade é uma personagem que atravessa todos os seus três romances. Não é?

Sim, a cidade é um personagem.

 

Mas porquê? Por a conhecer muito bem? Por viver aí? Por ser uma cidade magnífica?

Nós só devemos escrever sobre aquilo que conhecemos. Claro que conheço outras cidades e já vivi noutras cidades. Os livros não são propriamente sobre Setúbal. Setúbal intervém nos livros, tal como diz, como personagem. Mas são sobretudo questões do nosso tempo que são postas nesse livro, que tem um cenário. Em algum sítio os livros têm de se passar. Escolhi Setúbal porque é a cidade que conheço melhor, é a cidade onde nasci. É a cidade que conheço melhor tanto na sua configuração como na sua História. Outra questão que aparece nos meus livros é a questão da memória e da História. Aliás quando faço a apresentação de qualquer dos livros, aquilo que eu pergunto é: “como é possível as pessoas estarem tão à margem da História e da Política se elas todos os dias comem à mesa connosco?” Nós somos os grandes destinatários das políticas que os Poderes tomam. Portanto, não nos podemos manter à margem do nosso tempo, não podemos enfiar a cabeça na areia como a avestruz porque todas as decisões que são tomadas nos caem em cima. Quando os Governos decretam austeridade ou leis que são desfavoráveis à maioria da sociedade, somos nós que as vamos pagar e é sobre nós que essas leis vão ser aplicadas. Da mesma forma, a História contém a Memória dos povos. Enfim, isto num chapéu grande em termos de palavras. Tal como uma pessoa que não tem memória, uma sociedade que passe ao lado da sua História da sua Memória, pode ser considerada uma sociedade louca. Se não se sabe de onde se vem, não se sabe para onde se vai. Eu creio que essas são as grandes temáticas do meu livro. O livro passa-se em Setúbal. Setúbal é a personagem, mas é um livro sobretudo sobre a atualidade. Fundamentalmente sobre a atualidade recente, embora com quarenta e tal anos. Nós percebermos que fomos vítimas de uma ditadura durante meio século e que ainda hoje estamos a pagar, enfim, às vezes de uma forma muito cruel, a fatura desses anos ditatoriais. Por outro lado, há uma parte do livro que se passa na contemporaneidade em que estamos.

 

Já a ouvi dizer numa entrevista que a cidade de Setúbal teve um “PREC especial”. E sei também que a Alice passou o PREC na cidade. Pode contar-nos como foi?

O Processo Revolucionário Em Curso, o PREC, hoje, à luz dos princípios do capitalismo neoliberal, é sempre referido com um sorrisinho irónico. As pessoas quando falam do PREC é para acusarem outras de estarem a ser irrealistas ou de estarem a ser muito emotivas naquilo que estão a dizer. “Parece que estás no PREC” é uma frase que se usa para apoucar o destinatário de qualquer discurso. E, no entanto, o PREC foi feito de momentos solares, únicos, em que se fez o impossível. Se pensarmos que aqueles dezanove meses que se seguiram à Revolução… e se pensarmos que dezanove meses antes estávamos com uma guerra colonial, estávamos com repressão, estávamos com pobreza, estávamos com miséria, estávamos com emigração em massa… Nós verificamos que nada é impossível na História. Assim sendo, esses dezanove meses de PREC, meses em chamas pelos quais Portugal passou. Em Setúbal passou-se muito particularmente. Foram meses mágicos em que se fez, digo mais uma vez, o impossível.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próximo convidado: António Bizarro, autor de “O invisível, a sua sombra e o seu reflexo”

Quarta-feira, 17 de outubro, 9h30

Domingo, 21 de outubro, 14h25

 

 

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