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Nuno Gomes Garcia conversa com Carmen Lima: “O marketing acaba por ser o grande inimigo do ambiente”

Apesar de a exploração humana do universo ter atingido níveis inéditos – a busca incessante por um planeta habitável fora do nosso sistema ou o estudo da viabilidade de projetos de colonização da Lua ou de Marte – o único fator verdadeiramente plausível para as próximas décadas, quiçá séculos, é este: “Não há planeta B”. É esse mesmo o título do livro de Carmen Lima, ambientalista e coordenadora do Centro de Informação de Resíduos da Quercus e fundadora do SOS Amianto.

“Não há planeta B” é um livro cheio de dicas úteis, uma espécie de guia para um ambiente sustentável e, dadas as repetidas sabotagens políticas das ações globais contra o aquecimento global, as transformações climáticas e a poluição, a importância da mensagem de Carmen Lima é enorme dado ter o condão de alertar as nossas consciências individuais – embora sem nunca nos fazer perder a esperança num futuro melhor – para os problemas que a Terra enfrenta.

Uma leitura fluída que não termina na última página, visto tratar-se de um livro ao qual podemos voltar sempre que precisarmos de um guia de boas práticas ecológicas que nos possa, por exemplo, ajudar a consumir, a viajar ou até mesmo a comer de uma maneira ambientalmente responsável. Um livro que é um manifesto que todos deveriam seguir.

 

Carmen, graças a um confinamento de apenas dois meses, nós vimos as ruas das cidades a serem reconquistadas pelos animais, o céu azul como não há memória e o ar finalmente respirável. Acha que só a iminência de uma catástrofe levará a humanidade a tomar as medidas necessárias? É que a catástrofe está aí à porta, basta olhar para o degelo no Ártico…

É verdade, muita gente achava que as alterações climáticas eram uma espécie de alarmismo lançado pelos ambientalistas e que nunca viriam a acontecer. Temos vindo a verificar porém que, por um lado, a catástrofe está aí à porta e, por outro, devido à pandemia que nos obrigou a ficar fechados em casa, notamos um retorno ambiental. Como o Nuno referiu, o confinamento fez com que percebêssemos várias consequências positivas. Constatámos o aumento da qualidade do ar, logo a diminuição da poluição atmosférica diminuiu. As pessoas relatam que escutam o chilrear dos pássaros em plena cidade, algo que antes era impossível devido ao ruído, e que veem os animais selvagens aproximarem-se das zonas urbanas. Aquilo que se verificou é que houve uma espécie de castigo do planeta à humanidade, obrigando-a a fechar-se em casa para que o planeta pudesse respirar. Mas claro que isto não chega. Nós temos de aproveitar este período de pandemia para refletirmos sobre as práticas ambientais que temos vindo a adotar nos últimos anos e que nova normalidade vamos prever para o futuro. Nós sabemos que não podemos voltar ao normal do antigamente. Sabemos inclusive que esta questão da pandemia poderá ter tido origem na interferência humana na vida selvagem, ao ponto de o homem comer animais que não deveriam fazer parte do seu léxico alimentar. Este penetrar, este interferir na vida selvagem vai provocar consequências graves na própria humanidade. Foi então necessário um castigo deste género para que muitas pessoas, tanto a população em geral como políticos ou empresários, viessem afirmar que o novo normal não poderia ser igual ao anterior. Esse é de facto um ponto positivo causado pela pandemia.

 

Li um artigo há uns tempos que dizia que um consumidor agora comprava uma camisola para usar meia dúzia de vezes quando há umas décadas a usava até ela se estragar. Ora esses novos hábitos de consumo têm um efeito brutal nos ecossistemas, nomeadamente ao nível dos recursos hídricos. O que fazer para combater este consumismo desenfreado?

Sim, aquilo que temos verificado desde o ano 2000 até agora é que a população compra mais do dobro da roupa que comprava antes. Não o faz por necessidade, as pessoas no ano 2000 não precisavam de menos roupa do que as de 2020, mas, sim, por uma questão de impulso. Nós temos sentido que tem aparecido aquilo a que chamamos ‘fast fashion’, ou seja, a moda barata, acessível, que, graças a grandes campanhas de comunicação e de marketing, tem incentivado essencialmente as gerações mais jovens a comprar, usar e deitar fora. É esse chip – o comprar, usar e deitar fora – que temos de mudar. Nós não devemos comprar produtos para os usar apenas alguns dias e a seguir os descartar, não tendo nem sequer a preocupação de os entregar para reutilizar ou reciclar. E muitas vezes esta roupa, como é de fraca qualidade, tem uma durabilidade menor. Nós antigamente comprávamos a roupa como um investimento, não digo para uma vida, mas pelo menos para vários anos, e, agora, nós compramos porque “se usa”, porque é “moda”. Ora a moda não pode ser uma coisa descartável. Isso tem de mudar. Eu tenho um discurso muito positivo, e nós temos de acreditar que vamos conseguir mudar o mundo. E eu tenho visto muitos estilistas a mudar esse chip. Estilistas de renome mundial que vêm dizer que as suas peças de roupa vão ser feitas para durar. E esta mensagem é importante porque se vai repercutir também nas outras marcas e provavelmente, daqui a uns anos, teremos o marketing e a publicidade a dizerem que a roupa é para durar e para reutilizar e que a sua composição é feita de materiais reciclados. O que é muito importante nos dias que correm porque se nós continuarmos a descartar tudo aquilo o que usamos não vamos ter aterros suficientes para o lixo que produzimos e seremos incapazes de reciclar tudo o que deitamos fora, pois nem tudo aquilo o que utilizamos é reciclável.

 

Então, dito isso, a Carmen, quando olha para a sociedade, vê uma maior consciencialização em relação aos crimes cometidos contra a ecologia? Nota diferenças a esse nível entre as gerações?

Eu sinto que há maior informação a circular. Os meios de comunicação social são fundamentais para fazer circular esta informação de caráter ambiental que acaba por sensibilizar toda a diversidade da população e de todas as faixas etárias. O que se verifica é que há uma grande mobilização das gerações mais jovens, que se têm organizado e manifestado em prol das questões ambientais. Agora também têm de interiorizar essas questões, têm de passar para a prática do dia a dia tudo aquilo que defendem na teoria. No quotidiano, as novas gerações têm de reduzir aquilo o que consomem. Nós não temos de comprar o último grito da moda e, nos alimentos, temos de comprar apenas aquilo o que vamos consumir. Evitar comprar por impulso só porque estão produtos em promoção. O marketing acaba por ser o grande inimigo do ambiente. E temos de combater isso. E não chega combater apenas com marketing verde porque ele é por vezes enganador. Temos, sim, de fazer o combate com uma maior consciência ambiental, dando maior informação ambiental fidedigna aos consumidores. Eles muitas vezes até estão bem intencionados, vão comprar um produto a pensar que ele é mais amigo do ambiente e acabam por ser enganados.

 

Há uma outra questão que me tem preocupado nos últimos meses. Antes da pandemia, a questão dos plásticos estava na ordem do dia, os microplásticos nos oceanos, por exemplo, mas, agora, basta andar pelas ruas das grandes cidades, como por aqui, em Paris, para vermos materiais de proteção, luvas, viseiras ou máscaras um pouco por todo o lado, até pelo chão. A pandemia travou a luta contra os plásticos?

A pandemia, como disse inicialmente, teve muitos pontos positivos, mas também teve alguns aspetos negativos. E nós sentimos muito isso na questão dos descartáveis. Nós acabámos por recorrer a materiais descartáveis não só para combater a pandemia como para nos proteger. Temos verificado que o retomar da economia tem assentado no uso excessivo de materiais descartáveis, os copos para café, o material nos cabeleireiros… Nós, com isto, vamos ter um aumento na produção de resíduos que, na sua maioria, não são recicláveis. As pessoas neste momento têm medo de se contaminar e acabam por associar a sua proteção e segurança à utilização de materiais descartáveis. Uma associação, uma mensagem que poderá estar errada. É portanto muito importante que as autoridades de saúde e ambientais deem garantias para que a evolução positiva das mentalidades das populações em relação ao abandono do uso excessivo de descartáveis – algo que vínhamos a sentir – não venha a retroceder. O seu uso excessivo tem danos para o ambiente e para saúde, pois o plástico, até aquecido num micro-ondas, pode libertar componentes perigosos para a nossa saúde.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próximo convidado: São Gonçalves autora de “Correr Mundo”

Quarta-feira, 01 de julho, 9h30

Domingo, 05 de julho, 14h25

 

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