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Paulo M. Morais, 46 anos, já publicou 6 livros, entre ficção e não ficção, tendo começado a publicar em 2013, o que dá a média incrível de mais de um livro por ano. Antes de começar a publicar, o Paulo estudou comunicação social, foi crítico de cinema e viajou à volta do mundo. Então, aos 40 anos de idade, decidiu lançar o seu primeiro livro publicado: o «Revolução Paraíso» (Porto Editora, 2013).

Um livro que alterna realidade e ficção e que nos transporta aos agitados dias dos dois anos que se seguiram à Revolução do 25 de Abril.

Por esses dias, a tipografia de Adamantino – um dos personagens – está mergulhada, como de resto todo o país, num fervoroso ambiente revolucionário. Esse PREC (Processo Revolucionário Em Curso) tem repercussões no alinhamento do jornal e no dia a dia de todos os personagens, levando ao aumento das tensões entre o patrão Adamantino e os funcionários.

Por entre uma estagiária com sangue na guelra, um ex-PIDE que foge aos revolucionários e as intromissões de um proxeneta e de uma prostituta, a vida lisboeta, que durante 48 anos se arrastou pelo pântano salazarista, entra numa espiral revolucionária que nada deixará como dantes.

 

Paulo, a pergunta clássica que se impõe: por onde andavas tu no 25 de Abril?

Tinha só dois anos quando se deu o 25 de Abril, por isso não fui para a rua com os meus pais, nem nada disso. Fiquei em casa com a avó. Portanto, passei ao lado.

 

Falaste agora na tua avó. Eu sei que ela teve um papel essencial na génese do «Revolução Paraíso». Explica-nos qual foi?

A minha avó paterna, na altura do 25 de Abril, fez uma coleção de recortes de jornais que foi colando em álbuns e que retratavam o dia a dia desse período agitado do nosso país. E, um dia, ofereceu-me aquilo, mas como eram vinte e tal álbuns e como eu era um jovem inconsciente não liguei nada ao que lá estava. Folheei as primeiras páginas e pensei «OK, tá bem» e guardei aquilo numa caixa de cartão para nunca mais os ver. Entretanto, fiz um trabalho para a universidade com base naqueles recortes, nos cartoons que na época eram feitos, e mais nada. Só que, não sei, aquilo ficou na minha consciência. A minha avó tinha tido imenso trabalho a fazer aquilo e tinha de lhe dar uma outra finalidade. Então, quando me lembrei de escrever um romance, fui ver o que aquelas caixas tinham e fiquei absolutamente maravilhado com o que encontrei… e resolvi construir dali a base do romance.

 

E o processo de escrita do «Revolução Paraíso» foi para ti também um processo de aprendizagem sobre um momento tão importante para a História de Portugal… ou não?

Foi, sem dúvida. Quando disse que fiquei fascinado com o que encontrei, foi na verdade porque descobri uma realidade que me era desconhecida. Na escola, o tema do 25 de Abril tinha sido dado de forma muito superficial, falando somente do dia que ficou cristalizado no nosso imaginário coletivo. Mas tudo o que é sequente não foi tratado na escola, não me foi transmitido de outra forma pela família. Portanto, foi como viver o meu próprio 25 de Abril. Aquele acompanhar diário dos jornais, deu-me uma experiência de estar lá e de saber o que ia acontecendo às pessoas.

 

Eu estive a fazer as contas… Para os jovens que têm hoje 18 anos, o 25 de Abril de 1974 está para eles tão distante como estava para ti o fim da Segunda Guerra Mundial quando tinhas a mesma idade. É uma aritmética que nos faz sentir velhos, mas é a realidade. Diz-nos: existem elementos neste teu livro que possam ajudar essa juventude a recuperar uma memória histórica que não é a sua? Achas que a ficção pode ter esse papel?

Acho que a ficção pode ter o papel de reavivar memórias, de perpetuar momentos da vida das pessoas ou dos países. Isso, sem dúvida. Fizeste aí uma curiosa contabilidade, mas eu, de facto, cresci a saber muito sobre a Segunda Guerra Mundial, sempre foi um tema que me interessou muito, sempre bastante presente em filmes, por exemplo. O que me ajudou a ter uma perceção sobre o que forma esses tempos. Não sei é se haverá o mesmo material sobre o nosso 25 de Abril.

 

Acho que os americanos ainda não fizeram filmes sobre o 25 de Abril.

Ainda não fizeram (risos). Há um extraordinário filme sobre o próprio dia do 25 de Abril, «O Capitães de Abril». Mas quase toda a nossa História sobre esse período se limita a um dia. E existe uma riqueza tão grande em termos sociais e humanos do período que se seguiu. Se o meu livro conseguir despertar um bocadinho para isso é positivo. O livro tem muitas histórias de pessoas, da sociedade, pequenos episódios caricatos. E esses elementos poderão dar algum tipo de atmosfera, que é mesmo reconhecida pelas pessoas que viveram esse dia e que leram o livro. Agora, o romance não é um manual de História.

 

E como olhas para a sociedade portuguesa, 44 anos após a Revolução?

Eu acho que mudou muita coisa. Para melhor. Desde logo, as liberdades que foram adquiridas. As evoluções sociais que fomos vendo. Às vezes, noto uma enorme falta de consenso. É-nos difícil ter um rumo para o país, termos uma ideia para o país que queremos ser. Muitas vezes, somos europeístas, depois deixamos de o ser. Somos lusófonos… Enfim. Na educação, sabemos que chega um Ministro e que deita abaixo tudo o que o anterior fez. Ou seja, é difícil um pacto alargado que, creio, seria necessário para estruturar o país em certas áreas. Falta lutarmos todos para o mesmo lado. Eu sinto muito isso quando olha para a política de agora. Parece que estou a ler os recortes da minha avó. Mas evoluímos muito e, sem dúvida, que temos um país muito melhor agora do que antes do 25 de Abril.

 

Para acabarmos em beleza, sugere-nos uma leitura.

Estou a reler a obra do Machado de Assis e sugiro qualquer um dos livros. É um escritor excecional. É incrível como ao ler coisas «tão antigas», elas nos parecem tão modernas.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próximo convidado: Nuno Amado, autor do romance «Parem todos os relógios»

Quarta-feira, 02 de maio, 8h30

Domingo, 06 de maio, 14h25

 

 

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