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Dia 16 de agosto, são 23h45, hora em que o comum dos mortais, normalmente, já não deve contar as estrelas, adormecido que está. Foi o momento escolhido para recordarmos momentos em momento único.

Os familiares adormeceram. Desfrutamos de uma espreguiçadeira exterior. Temos por paisagem o céu repleto de estrelas, a 50 metros a igreja com sua torre iluminada, afirmando-se na paisagem que domina. A seus pés, as vinhas que definem um país com o Douro lá mais abaixo. Na outra encosta, as ventoinhas eólicas previnem, com luzes vermelhas, o homem fazendo-se pequenino na paisagem que moldou. Adivinha-se pela encosta acima ou à beira do Douro, o alinhamento das luzes como que numa procissão em agradecimentos à inteligência do saber das mulheres e dos homens destes belos lugares, um prémio pelos esforços dos antepassados e presentes, um testemunho a transmitir às gerações futuras.

O lugar, a paisagem, o rio, fazem-nos lembrar uma cena, uma das últimas do filme “La cage dorée” de Ruben Alves. Pauleta dá um pontapé numa bola de futebol que aterra… talvez no Douro, talvez na nossa imaginação, nas nossas recordações, ou será talvez uma abertura para o mundo, para o futuro, para as futuras gerações?

De noite a paisagem, as luzes, são magistrais, o Douro, contudo, dá-nos menos impressão, a impressão de que só o rio poderá parar a nossa queda daqui do alto.

Momento único, noite única, talvez já não mais vivida daqui até… Depois de um passeio com o cão entre as vinhas, com ramas que se cortam por estes dias para que o sol torne o cacho mais maduro e facilitando a circulação dos colhedores.

Pousamo-nos, recordamos.

A nossa crónica remonta o tempo: a do filho de emigrante depois do Outeiro de São Miguel que migra para o colégio/internato de Manteigas, diz a anedota, a vila mais escorregadiça de Portugal.

Chega-se a manhã escolar do 25 Abril de 1974, manhã quase normal. Entre o Externato, onde assistimos às aulas, e o Internato, local em que comemos e dormimos, na hora do meio dia, algumas informações nos vão chegando.

Depois do almoço, na televisão não tempos direito, como habitualmente, à “La maison dans la prairie”, “Fifi brindacier”. Assistimos às declarações dos homens da Revolução, o MFA… meio dia de liberdade estava decorrido. Fala-se que, alguns dos emigrados forçados estão a caminho do Portugal livre, ou prestes a porem-se a caminho: políticos, intelectuais, cantores…

No deitar do 25 de Abril de 1974, praticamente nada mudou… perante uma certa falta de informação, alguns de nós, tendo pequenos rádios, debaixo das mantas e com o som baixo, aprendemos mais… Grândola Vila Morena, o desencadear, o Hino, o cravo, o símbolo, o soldado, o amigo…

Momento de ansiedade para os pais emigrados que deixaram os filhos em Portugal. As comunicações não eram fáceis.

O fim do ano escolar chega, altura em que o colégio organiza o tradicional passeio: visita ao Portugal dos Pequeninos. Angola, Moçambique, afirmam a “grandeza” de Portugal e a razão de ser do ditado salazarista: “Portugal pequeno na Europa, mas grande no mundo”. Todo um símbolo.

Depois do Portugal dos Pequeninos, visita de Conímbriga, a grandeza de um outro passado ainda mais longínquo, passagem por Santa Comba Dão, paragem em frente da casa em que nasceu Salazar, rezou-se pelo Ditador, estávamos em junho de 1974! Houve quem tivesse ousado mostrar-se revoltado com o mal emprego das “Avé Marias” ali recitadas!

Em 1975, o MFA, Movimento das Forças Armadas, sai dos quartéis para ajudar a construir um país, a educar a população.

O MFA ultrapassa resistências e impõe-se numa instituição católica particular para explicar no interior do colégio de Nossa Senhora de Fátima de Manteigas o que era a Revolução, o que era a liberdade. Fomos nessa altura entrevistados pela Rádio Renascença. Muito, muito timidamente, e sob vigilância, lá dissemos algo de banal, bem pouco revolucionário. Ousamos dizer que, na altura, pouco ou nada sabíamos de política.

No ano que se segue, o MFA volta a Manteigas, desta vez com artistas. Após o fim dos exames, quase todos os alunos regressaram a casa, nós esperávamos os nossos pais emigrantes para nos juntarmos a eles. O Padre, tendo que se ausentar, pensa bem fazer ao nos confiar as chaves do Internato. Momento escolhido pelo MFA para requisitarem a sala de espetáculos do Internato para apresentar um filme em primeira mão. Florbela Queirós fazendo parte do elenco, ali estando para debater. O filme era mais uma peça de teatro filmada que propriamente um filme.

Que crime cometido de “lèse majesté” por António Marrucho, ao entregar a chave para a apresentação do filme e para o debate que se seguiu. Ainda bem que eram os nossos derradeiros dias no colégio.

Depois do colégio, nova pergunta se colocava a nós e aos nossos pais emigrados: deixar-nos continuar os estudos ou levarem-nos para França.

Foi esta última hipótese a escolhida.

Seguiram-se dois anos de estudos liceais na Covilhã. Dois anos não completamente de aulas. No primeiro trimestre, entre a falta de professores e as greves, não houve aulas. Estávamos em fins de 1975, tudo era politizado, Portugal aprendia a viver em democracia, os muros enchiam-se de mensagens dos diferentes quadrantes políticos, professores houve nomeados, sem grande capacidade de ensinar, dando notas altas a todos os alunos, para minimizarem incompetências como formadores. Os antigos professores, amantes do seu trabalho, e para tal vocacionados, para equilibrarem as notas dos seus alunos com as dos professores recentemente nomeados, deram, por ricochete, notas altas no último trimestre de 1976… Jean Paul Sartre ficou surpreendido com a nossa nota de 20/20 em filosofia! Ficámos dispensados do exame de fim de ano… que alívio!

Dois anos de experiências escolares, trabalhos de grupo, aulas em plenos campos.

Os nossos pais não regressando a Portugal, decidimos de nos juntarmos a eles, para, em França, continuarmos os estudos universitários.

Já tínhamos 18 anos feitos, a nossa ida para junto dos parentes não foi considerada reagrupamento familiar, Portugal não fazia ainda parte da CEE.

Somos entretanto chamados a efetuar a Inspeção militar em Portugal.

Todos os anos, após as férias em Portugal, tínhamos que ir ao Distrito de Recrutamento de Castelo Branco solicitar autorização para atravessarmos a fronteira entre Portugal e a Espanha. Que rabugentos os Capitães que nos recebiam em Castelo Branco! Com uma nota de Santo António, acalmavam-se um pouco, deslumbrávamos na gaveta – não na da instituição, mas na segunda, a particular – quantidade importante de Santo Antónios. Davam mais que para o copito. Os cravos de Abril para algumas gentes não tinham ainda mudado certos hábitos. “L’argent n’a pas d’odeur”.

Quatro anos de Universidade foram concluídos com o “Mémoire” intitulado “A imigração portuguesa na vila de Roubaix”.

Somos chamados à tropa. Já não se fala no Ultramar. Seguem-se alguns meses na Escola Prática de Artilharia de Vendas Novas. O Alferes regressa a França.

Estávamos em 1983.

O que devia tratar-se de apenas alguns anos de estadia na França dos nossos pais, prolongaram-se, como se prolongaram para centenas de milhares de outros pais.

Em 2021, a quarta geração chegou ou está a chegar. Não será que o termo de geração deve ser banido? Portugal não se tornará simplesmente um lugar de férias, com, por vezes, visitas curtas às aldeias dos seus antepassados, o mar, as grandes cidades atraindo bem mais os filhos e os netos nascidos franceses? Não será que a palavra saudade, aliás, o sentimento de saudade, não está em vias de extinção?

O nosso testemunho é uma pequena contribuição para as cidades como Fundão, Sabugal, Vilar Formoso, Matosinhos, Famalicão… que pretendem fazer a recolha de testemunhos sobre a emigração.

O mundo muda, o mundo evolui, as recordações ficam, muitas desapareceram. Importante?

A manhã desperta sobre o Património Mundial da Unesco.

Mas amanhã, o mais importante é o que ainda não foi vivido. Haja saúde.

 

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