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Alfredo Cantarinha é filho de emigrantes portugueses que chegaram a França nos anos 60. Radiologista, partilha esta área medical com as irmãs que são também radiologista e enfermeira.

Nascido em Paris, com 47 anos, Alfredo Cantarinha, além do trabalho no dia a dia, tem dado conferências em torno dos exames realizados sobre as mulheres grávidas. O lusodescendente desenvolveu um estudo e um método que revolucionou a profissão.

Para o LusoJornal, Alfredo Cantarinha abordou a sua paixão pela radiologia e como chegou a encontrar soluções para os exames efetuados sobre mulheres grávidas.

 

Como nasceu esta paixão?

Esta paixão nasceu e desenvolveu-se ao longo dos anos. Recebi o meu diploma em 1994 e comecei a trabalhar nesta área. Os anos passando eu sempre tive a curiosidade de continuar a aprender para ser cada vez mais competente e foi assim que a paixão pela radiologia se desenvolveu. Desde 1994 até hoje, foi como uma relação amorosa.

 

O que representa a sua profissão?

A minha profissão corresponde a quem eu sou. Traz-me felicidade e orgulho ajudar as pessoas e esta profissão que está ligada ao ramo da medicina traz-me isso tudo. Fazemos exames às pessoas e com esses exames tentamos ajudar as pessoas que podem estar a sofrer. Sinto-me bem quando sei que estou a ajudar ou que posso ajudar alguém.

 

Qual foi o seu percurso?

Foram três anos para chegar ao diploma depois do 12° ano – BAC -, depois fiz 10 meses de serviço militar aqui em França, tendo ido para o Hospital Val de Grâce. Foram 10 meses excelentes em Paris com pessoas competentes na radiologia. Depois fui para o Hospital privado de Antony, e por fim desde 1996 estou no Hospital do Kremlin-Bicêtre. Cada hospital tem a sua especialidade e consegui crescer com essas experiências.

 

Que função tem a radiologia na medicina?

A radiologia responde às perguntas que têm os médicos, que é: uma pessoa tem certas dores ou está a viver uma situação particular, e as imagens dão uma resposta ou podem ajudar a encontrar uma resposta para essas pessoas. Temos de nos ocupar de todas as pessoas, quer sejam adultos, quer sejam crianças, quer sejam idosos. Em qualquer situação temos de realizar as melhores imagens para poder encontrar o problema que possa ter a pessoa. Eu sou “técnico em radiologia” e o médico que lê o relatório é que se diz que é radiologista.

 

Em que consiste então o seu trabalho?

O meu trabalho tem três ramos: o nosso trabalho no dia a dia, os estudantes que estão em estágio, e dar conferências ou fazer comunicação para transmitir a outras pessoas o que desenvolvemos porque há especialidades em cada hospital, podendo ajudar a ter melhores resultados. É preciso saber que as máquinas evoluem muito e desde que eu entrei nesta profissão já não tem nada a ver, e ainda vai mudar muito até eu chegar à reforma daqui por 20 anos (risos). Temos que nos adaptar sempre. Eu diria que somos como cozinheiros: com alguns detalhes, o resultado final pode ser muito diferente. O saber não é para ser guardado, é para ser partilhado.

 

Tem dado conferências…

Tenho dado conferências porque fiz um trabalho sobre as mulheres grávidas, que é um assunto complicado porque estamos a tratar uma mulher, mas também a criança que ela tem. Estudei, aprendi muitas coisas e depois partilhei tudo. Agora acho que sou um especialista neste ramo porque tenho sido convidado para conferências em França e no estrangeiro, como na Tunísia por exemplo. O primeiro sucesso que tive foi na conferência de radiologia em Paris, no Palais des Congrès, que dura cinco dias. Foi assim que o meu trabalho foi conhecido e por isso é que tenho sido convidado para países francófonos por exemplo. O meu trabalho, também o escrevi em artigo e até já foi traduzido em inglês. Para mim a melhor recompensa que tenho é que o trabalho que desenvolvi funciona e as pessoas dizerem que utilizam o meu método e que funciona. Temos de nos adaptar às pessoas, como as mulheres grávidas, isso é o essencial. Estamos num mundo onde a radiologia tem uma produção industrial, onde é necessário para cada doente fazer uma produção artesanal porque cada doente tem especificidades únicas e temos de nos adaptar. No hospital onde estou há 3.500 partos por ano, e acho que consegui encontrar soluções para essas mulheres.

 

Qual foi exatamente o seu estudo?

O trabalho é «La recherche d’embolie pulmonaire sur une femme enceinte». Era muito difícil fazer esse exame numa mulher grávida, e sabemos que há casos em que pode acontecer que haja uma embolia pulmonar. Na população em geral o exame tem pouca qualidade em 7% dos casos, mas nas mulheres grávidas esse número subia até quase 30%. Era mais difícil realizar esse exame numa mulher grávida porque ainda por cima não se pode realizar várias vezes o exame porque não se pode expor uma criança muitas vezes aos raios-X. Neste caso não podemos errar, é tão simples quanto isso. Eu quis estudar esses casos porque uma mulher veio fazer um exame e o médico pensava que ela tinha uma embolia pulmonar, fizemos os exames como sabíamos fazer na altura e o resultado não foi perfeito, sendo que o médico não podia afirmar que aquela mulher tinha uma embolia pulmonar. Senti-me mal por causa do exame, mas ainda bem que tudo correu bem para essa mulher. No entanto foi esse caso que fez com que eu tivesse tido a vontade de realizar um estudo específico sobre isso.

 

Foi complicado encontrar soluções?

Foi um estudo longo, em que tive de ler artigos em inglês porque muitos estudos são feitos pelos ingleses e pelos norte-americanos. Depois também falei com vários técnicos em diferentes cidades francesas para perceber o que podia ser melhorado. Percebi numa primeira análise que o melhor material, e é preciso ter meios para isso, trazia os melhores resultados. Mas eu queria saber como ajudar nos casos em que o material não era o melhor. A principal dificuldade é que não se pode fazer experiências em mulheres grávidas. Então também voltei a ler todos os exames que já tínhamos feitos. Com todos esses dados, compreendi muitas coisas e tudo me pareceu óbvio.

 

E qual é o seu método?

Quando injetamos o produto, temos dez segundos para fazer a ‘fotografia’ no momento certo. O desafio é fazer as ‘fotografias’ naquele momento para não expor muito as crianças aos raios-X. Tudo tem uma razão matemática e não inventei nada, mas foi necessário ter em conta vários critérios. Foi com tudo o que li que percebi que o sangue circula mais rápido nas mulheres grávidas e que por isso só temos aqueles dez segundos para fazer a melhor ‘fotografia’ e ter um exame perfeito para descobrir se há ou não uma embolia pulmonar. Também fiquei a saber que uma mulher ou um homem podem ter 4 litros de sangue em circulação, enquanto uma mulher grávida tem 6 litros, o que significa que temos de injetar mais débito para o produto ser visível nas imagens. É como pôr a mesma quantidade de café num litro ou em dez litros de água. Não fiz experiência nenhuma, mas os estudos que fiz, mostraram que era possível. Todos os primeiros exames foram bons e neste momento estamos com 103 exames realizados com esse método no hospital e apenas 5-6 exames não foram ótimos, o que significa que estamos em 5%. Passámos de cerca de 30% para 5% de exames com pouca qualidade, quando se sabe que os exames do resto da população têm 7% de exames com pouca qualidade. Foi uma melhoria incrível!

 

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