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Sylvain Gonçalves: lusodescendente é especialista da remoção do amianto em França

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Sylvain Gonçalves é lusodescendente, nasceu em França, filho de pais portugueses de Torres Novas. Licenciou-se em engenharia civil e hoje é um dos especialistas em França na remoção do amianto e do chumbo das tintas. Gostava de trabalhar em Portugal e considera que a legislação portuguesa tem de ser melhorada.

A “Remove”, com sede em Croissy-Beaubourg (77), foi criada em 2015 “depois de eu ter conhecido a minha esposa. Ela influenciou-me e ajudou-me, sempre foi um apoio para mim” explica Sylvain Gonçalves ao LusoJornal, referindo-se à mulher, brasileira.

Primeiro trabalhou 10 anos numa grande construtora em França e depois considerou que havia uma oportunidade de negócio na remoção do amianto. “Acredito que temos algo a fazer neste planeta e despoluir faz todo o sentido. Temos que fazer com que este planeta fique melhor para as gerações futuras, para melhorar as vidas de amanhã” confessa.

O amianto é uma rocha natural e foi muito utilizado depois da Revolução industrial e da II Guerra mundial, sobretudo em França. “Sabia-se que este produto, misturado com outro material, ia melhorar o material para o tornar mais rígido, mais isolante a nível fónico e térmico, mais isolante contra os fogos e os produtos químicos. Só que não se sabia que podia ser perigoso para as pessoas que respirassem a fibra de amianto. Pelo menos naquela altura não se sabia”.

Por isso, há quem diga que, só em França, vão ser necessários mais de 50 anos para que não haja mais amianto na construção. “Mas também para remover o chumbo das tintas” lembra Sylvain Gonçalves.

 

O passo para a criação da empresa

Antes de dar o passo e de criar a “Remove”, Sylvain Gonçalves fez um complemento de formação. “É uma área de trabalho muito específico e com regras muito particulares” diz ao LusoJornal.

“Esta área é muito regulamentada em França. Para trabalhar na remoção do amianto é necessário ter um alvará e respeitar a regulamentação. Somos inspecionados regularmente” confirma Dália Mendes, responsável de marketing e comunicação do grupo.

Quando foi constituída, em 2015, a empresa iniciou a sua atividade com apenas 3 pessoas. Em apenas 5 anos, ultrapassou já a centena de colaboradores, essencialmente portugueses e brasileiros.

“Em março de 2021 recebemos um prémio nacional e internacional pelo crescimento da empresa, tanto pelo crescimento do volume de negócios, como também por termos aumentado consideravelmente o número de colaboradores” afirma Dália Mendes referindo-se aos 16° lugar na lista dos “Champions de la Croissance 2021” do jornal “Les Echos” e no 159° lugar da “FT 1000: Europe’s Fastest Growing Companies – 2021”.

Mathieu Salony é brasileiro, é atualmente Chefe de uma obra em pleno bairro da Madeleine, no centro de Paris e explica ao LusoJornal que “todos os colaboradores têm de ter a sua formação em dia e têm de ter a barba rigorosamente cortada porque a máscara que utilizam adapta-se à morfologia da cara. Cada colaborador tem a sua própria máscara”.

Mas antes de entrar no espaço de trabalho, têm de se equipar a rigor, não apenas com a máscara, mas também com um fato protetor, luvas e botas. “Tudo tem de ser vedado com fita adesiva para impedir todas as entradas de ar” explica. E o tempo de trabalho na zona de remoção do amianto também é rigorosamente contado. “Depende do grau de contaminação, mas cada operador não pode ficar com turnos superiores a duas horas e meia” explica Mathieu Salony. Trabalham em espaços completamente isolados e interditos a quem não estiver devidamente equipado.

A descontaminação também obedece a regras muito rígidas. “Os operadores têm de passar por 5 cabinas de duche antes de sair da zona de trabalho” explica o Chefe da obra. O primeiro duche é tomado ainda totalmente equipado e depois, pouco a pouco, vão tirando o fato, até ao último duche, um duche de higiene, já sem máscara.

 

Portugal está no visor do empresário

Sylvain Gonçalves já criou uma sucursal no Canadá. A legislação antiamianto naquele país é recente, mas também é muito rigorosa. Por isso, o empresário acredita numa oportunidade de negócio naquele país, até porque é um dos países que mais utilizaram o amianto.

“E qual é o emigrante que não mantém uma relação forte com Portugal?” questiona Sylvain Gonçalves. “Eu gostaria de fazer algo lá. Seria um orgulho para mim e mais do que ser um orgulho é um objetivo pessoal” diz ao LusoJornal.

Sylvain Gonçalves tem acompanhado a situação portuguesa e já assinou um Protocolo com a associação ambientalista Quercus.

“O que está a ser feito atualmente em Portugal é positivo, é bom, mas eu acho que é insuficiente” diz o especialista. “Em Portugal só se fala em amianto nas telhas das escolas e é o que está a ser removido atualmente”. Mas explica que o diagnóstico não está a ser feito convenientemente. O amianto não está apenas nos telhados de lusalite, está também noutros materiais e se o diagnóstico não for bem feito, o amianto não é removido.

“Aqui em França, qualquer obra de renovação tem que ter um diagnóstico em que se analisa todo o material utilizado na obra, porque o amianto pode encontrar-se em qualquer material, por exemplo nas juntas de silicone à volta das janelas” exemplifica Sylvain Gonçalves.

Portugal necessita de uma alteração normativa para identificar os materiais que têm amianto. Depois é necessário identificar a forma como remover esse material.

Por enquanto, o lusodescendente tem participado em congressos, em Lisboa, e “o objetivo é tentar explicar e aconselhar como se trata aqui a remoção do amianto. Talvez um dia as coisas mudem em Portugal”.

Mesmo se Sylvain Gonçalves nasceu em França, fez uma parte dos estudos secundários em Portugal, em Ermesinde, e por conseguinte sente-se à vontade com a língua.

 

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