O Tenente General Joaquim Chito Rodrigues é o Presidente da Liga dos Combatentes, a organização que foi criada logo depois da I Guerra Mundial e que preserva a memória dos soldados portugueses, nomeadamente dos que combatem no estrangeiro.
A Liga dos Combatentes tem delegações em França e é esta estrutura que se ocupa da manutenção do Cemitério Militar Português de Richebourg e do Talhão Português no Cemitério de Boulogne-sur-Mer.

Como foi criada a Liga dos Combatentes e quais os seus objetivos?
A Liga dos Combatentes tem a sua origem na I Guerra Mundial. A ideia surge no final da Guerra em que Portugal regressa com problemas graves de saúde e o Governo não conseguiu dignificar aqueles que se bateram por ele e foi então que um punhado de Portugueses resolveu criar uma instituição que apoiasse mutilados e doentes em 1921. Mas só em outubro de 1923, três Portugueses – um marinheiro e dois homens do exército – reuniram-se e a primeira Assembleia Geral teve lugar. A Liga desenvolveu um trabalho em duas grandes direções que ainda hoje são os nossos dois objetivos: por um lado a promoção dos valores históricos do país e por outro lado a prática de solidariedade e apoio mútuo e é isso que nos tem feito viver ao longo dos anos. Historicamente começámos com a Grande Guerra, depois a nossa geração fez a Guerra no Ultramar, e neste momento estamos a passar testemunho aos que se batem nos conflitos e em operações de paz humanitária.
A Liga ocupa-se da manutenção dos dois Cemitérios em França. Porquê?
Por uma questão muito tradicional. A Liga é uma instituição que se bate por valores e solidariedade. E nos valores estamos a honrar os mortos. Nós em Portugal temos 250 talhões onde estão sepultados os militares portugueses que se bateram em conflitos, mas não é só em Portugal. Inicialmente, e antes da Guerra no Ultramar, preocupava-nos o facto daqueles que caíram na Grande Guerra. As Forças Armadas, durante anos, preocuparam-se com a manutenção do Cemitério de Richebourg. Acontece que recentemente a Liga dos Combatentes estabeleceu um plano estruturante, ou seja um levantamento global que demorou 2 anos a fazer, para localizar as campas daqueles que no mundo inteiro se bateram pelo país. Esse plano deu origem a planos particulares, já tínhamos os nossos interesses na Europa e concretamente nos Cemitérios de Richebourg e de Boulogne sur Mer. Além de haver mais alguns pontos onde temos inumados militares portugueses da I Guerra Mundial, estudámos todas as áreas do mundo onde os Portugueses estiveram.
Não apenas na Europa…
Demos prioridade à África e temos um plano de conservação das memórias onde os objetivos são localizar, identificar e concentrar os corpos que vamos levantando no mato, em cemitérios abandonados, até agora fizemos várias operações na Guiné e em Moçambique, recuperámos corpos e concentrámos num ossário em Nampula, construímos também um ossário em Bissau. Hoje podemos dizer que a Liga dos Combatentes e os Portugueses tem um cemitério semelhante ao de Richebourg, em Bissau. Estamos a fazer o mesmo em Moçambique. Já recuperámos o Cemitério de Mindelo e de São Tomé. Como vê, a Liga não é só responsável pelos Cemitérios de Richebourg e de Boulogne-sur-Mer, mas por todos os lugares onde se encontram soldados portugueses espalhados pelo mundo. É uma questão de afirmar sempre para que ninguém se esqueça de manter viva a memória daqueles que um dia caíram por Portugal.
No que se refere a Richebourg, em que consiste exatamente a operação da Liga dos Combatentes?
Consiste em dois aspetos fundamentais. O primeiro: a manutenção do que está feito. Uma tarefa que jamais acaba, mas temos conseguido manter a dignidade no Cemitério de Richebourg e de Boulogne com graves problemas que temos por resolver. Em Richebourg fizemos já nos últimos 6 anos obras de fundo, com verbas significativas para manter a dignidade dos que lá estão. Temos problemas difíceis a resolver. A obra foi feita e não é fácil de manter as campas que são construídas com um tipo de material para proteção do meio ambiente mas que não resistem ao tempo. Alguns nomes começam a desaparecer e temos que encarar todo um processo de substituição de placas.
O de Boulogne está pior, não é?
Em Boulogne-sur-Mer também já recuperámos um altar que estava completamente destruído, vamos tentar recuperar outras coisas, para além disso temos uma manutenção permanente. Temos uma empresa que garante a limpeza e a manutenção, mas as obras de fundo que já fizemos por duas vezes, é uma manutenção permanente, para que os que estejam sepultados seja em lugares dignos. Nos dois garantimos a manutenção e temos projetos para que se mantenham o melhor possível. É honoroso. Mas tenho esperanças que com algumas parcerias possamos tornar o projeto viável.
O Cemitério de Richebourg é simbólico, não é?
É um lugar de memória, de silêncio e de respeito. Olhando aquela placa ao entrarmos no cemitério e ver a bandeira portuguesa, a placa com o escudo com as quinas, nosso símbolo nacional, ali respira-se Portugal! Estão lá vivos no nosso pensamento, na nossa alma, 1.831 mortos que se bateram por esse símbolo ao serviço da justiça e da liberdade.

E o Monumento de La Couture?
Foi um monumento que a Liga ofereceu à França. É um monumento em mármore branco, bonito e simbólico oferecido pelos Combatentes, erguido no lugar onde se deu a última resistência portuguesa durante a I Guerra Mundial assim como a Batalha de La Lys. A comissão dos Padrões da Grande Guerra resolveu em nome de Portugal colocar ali o monumento muito significativo. No próprio ato de entrega, há um sentimento de reciprocidade entre a França e Portugal. A França recebeu esse monumento com grande significado para a Pátria, que representa o soldado português numa luta desigual contra a morte, mas tentando vencê-la. Um monumento imponente colocado ali em 1928 e que está sob a responsabilidade da Mairie local, o monumento foi recuperado e respeita aqueles que ali se bateram e honra a França e Portugal.
Mas o terreno onde está o monumento é português…
A Liga dos Combatentes e a Comissão dos Padrões da Grande Guerra entregaram à França este monumento, mas o terreno onde ele se encontra foi cedido pela França a Portugal a título perpétuo. Portanto, também ali houve uma demonstração que Portugal e a França se bateram no mesmo sentido e a favor da justiça e liberdade de tal forma que na Liga dos Combatentes nos honramos pela origem que temos e nunca fechámos as portas em quase 100 anos, pois ali vamos anualmente dizer que nunca os esqueceremos.
Como acha que deviam evoluir comemorações?
Acho, e talvez de uma forma utópica que nos move na Liga dos Combatentes, mas pela Paz e não pela Guerra. Qualquer cidadão português pode ser membro da Liga dos Combatentes. Nós temos sócios combatentes, sócios efetivos e sócios extraordinários que são as famílias dos que se bateram pelo país. Devia ser transmitido nas escolas e universidades, os valores do Governo que um dia pediu para que se batessem pelo país. E eles foram de armas na mão defender os seus companheiros e a sociedade em que viviam. Então, se em vez de Guerra tivermos Paz, o que desejo é que a prioridade da Liga dos Combatentes seja garantida pelas famílias dos que se bateram pelo país. Quanto às comemorações em Richebourg… daqui por 50 anos, que sejam garantidas pelos netos e bisnetos daqueles que estão ali inumados. Todos poderão evocar um dia a memória não só daqueles que combateram na Grande Guerra, mas também no Ultramar ou ainda nas operações da Paz, honrar a memória daqueles que fundaram a nação desde D. Afonso Henriques. Portanto todos aqueles que foram caindo merecem essa homenagem da sociedade. Gostaria que a educação ao nível das escolas garantisse que as cerimónias de Richebourg daqui por 50 anos não fossem feitas pelos Combatentes mas que fossem garantida pela família e pela sociedade.

Daí fazer sentido estar a comemorar uma derrota, porque afinal a Batalha de La Lys foi uma derrota?
Não, não concordo. Não estamos a comemorar nenhuma derrota, nem a comemorar nada. Nessas cerimónias evocamos e não comemoramos. E aliás a Batalha de La Lys não foi nenhuma derrota! Em termos militares encontramos duas forças em confronto e houve uma das forças que decidiu desencadear uma ofensiva e quando o corpo do exército decide desencadear uma ofensiva é porque pensava que ia ter êxito. Só se lançam ofensivas quando o potencial de combate é de 3 para 1, ora está provado que foi quase de 5 para 1. Portanto assim não há defensiva alguma que resista. E sabemos que no norte da França o terreno não tem caraterísticas defensivas, o terreno é uma planície total! Não eram os Portugueses que iam à frente e também não havia hipótese de aguentar a primeira linha. Mas aguentou-se nas linhas de retaguarda, porque receberam reforços. Estávamos em abril de 1918 e os Portugueses não atuaram sozinhos, atuaram integrados numa força. Não foi uma derrota portuguesa. Os Portugueses contribuíram decisivamente para a vitória da I Guerra Mundial. Cinco meses depois, as ações dos Portugueses em La Lys foram uma contribuição para a vitória das tropas aliadas e isso é que deve ser apontado aos Portugueses. Eu insisto que não foi uma derrota das forças portuguesas!
No entanto a participação portuguesa passa completamente despercebida em França. São rarissimos os livros de história que falem disso…
Passa despercebido em termos estratégicos, mas não localmente. As pessoas conhecem os cemitérios e falam dessa participação.





Boa tarde Senhor Diretor.
Apesar de não estar na profissão militar e o Senhor Tenente-General Chita Rodrigues ter magnífica formação doutrinal no assunto, como leigo, discordo da sua tese sobre La Lys.
Para mim, a batalha de La Lys, onde estiveram os portugueses, foi uma derrota estrondosa pois nela faleceram imensos portugueses. Talvez não tenha sido do ponto de vista tático e em abstrato. Mas, para mim, do ponto de vista estratégico revela uma derrota fenomenal do braço armado do Estado português: mal preparado taticamente e em armamento, mercê do empenho político já naquele tempo neste setor. Por este, e outros motivos, alguns militares do tempo foram de mau grado para a 1ª guerra mundial e um deles, pelo menos num documentário de Jacinto Godinho na RTP1, mal se viu em Lisboa e na eminência de para lá voltar, e já era Capitão, escreveu ao Ministro da Guerra, então Presidente da República, o Sr Major Sidónio Pais, a solicitar para não ir alegando estar a ser perseguido por ser da direita republicana. Se li bem a tese do Senhor Doutor António Telo, Professor Catedrático da Academia Militar, num dos seus livros surge esta verdade trágica nacional. A História pode talvez dizê-la por escrito, não um responsável militar de alto nível. Compreendo perfeitamente…
Do ponto de vista humano, lendo um belo artigo jornalísitico publicado, um Sr Comandante dos Fuzileiros Especiais em África disse “Durmo bem à noite, pois nenhum dos homens do meu batalhão faleceu”. Quantos Comandantes superiores o podem dizer tendo estado em La Lys?
Obrigado pelo espaço.