CCN – Ballet de Lorraine

Afonso Massano, o bailarino português que ilumina “Crescendo” no Grand Palais


Durante três dias, 16, 17 e 18 de julho, o CCN – Ballet de Lorraine apresenta o programa “Crescendo”, uma criação de Maud Le Pladec, na monumental sala principal do Grand Palais. Entre os intérpretes destaca‑se o bailarino português Afonso Massano, natural de Gaia, que integra várias das peças deste programa e que, aos 24 anos, é dançarino permanente desta companhia desde 2020 e mora em Nancy.

Afonso Massano começou a dançar aos 13 anos, mas a relação com a dança nasceu muito antes. “Desde que era criança dançava muito, fazia sempre espetáculos para os meus pais e para a minha irmã”, recorda ao LusoJornal. Os pais inscreveram‑no numa escola de dança quando tinha apenas cinco anos, mas nessa altura “achava que era uma seca”. O gosto persistiu, porém, e aos 13 anos decidiu retomar a formação, inspirado pelos espetáculos de uma prima. “Eu disse aos meus pais: eu quero estar ali, quero estar do outro lado”, conta. Entrar numa escola de ensino artístico implicava uma mudança profunda, mas Afonso Massano não hesitou. “Se vais fazer isto, vais com cabeça”, avisaram os pais! E assim foi: “Ao fim do terceiro ano percebi mesmo que a dança era a minha vocação”.

O percurso levou‑o depois aos Estados Unidos, onde estudou com bolsa em Washington. A experiência foi enriquecedora, mas não definitiva. “Não me via a ficar nos Estados Unidos a viver”, admite. Regressou a Portugal, fez audições e acabou por ser selecionado para o Ballet de Lorraine numa audição realizada em Paris. Muitas semanas depois – por causa da Covid-19 – recebeu o telefonema do Diretor da época, Peter Jacobson: “Temos um contrato para ti”. Aceitou de imediato, claro. Chegou à companhia em agosto de 2020, em plena pandemia, num contexto particularmente difícil. “Cheguei a Nancy com duas ou três malas e um sonho”, diz. O apartamento que tinha alugado pela internet não correspondia ao anúncio, a cidade estava confinada, e o francês era ainda uma barreira. “Foi bastante complicado, não vou mentir. No primeiro ano praticamente não conheci os meus colegas. Andávamos todos de máscara”.

Com o tempo, tudo mudou. “Agora estou completamente inserido no grupo, o francês é muito natural”, afirma numa conversa com o LusoJornal, junto à Gare de L’Est, em Paris.

A companhia, com cerca de 24 bailarinos permanentes, vive um momento de transformação desde a chegada de Maud Le Pladec à direção, em 2025. O repertório tem vindo a diversificar‑se, recuperando elementos da técnica clássica – como o trabalho de pontas – e mantendo a aposta na dança contemporânea, com criações de coreógrafos internacionais e também portugueses, como Marco da Silva Ferreira. “Já fiz cerca de 20 peças em quase seis anos, e com uns 12 coreógrafos diferentes”, contabiliza Afonso Massano. “É uma riqueza imensa”.

Entre essas experiências, há momentos que o marcaram de forma especial. Um deles foi trabalhar com Marco da Silva Ferreira, cujo percurso acompanhava desde os tempos de estudante no Porto.

Um outro coreógrafo pediu-lhe para cantar um Fado numa das peças. “Eu não me considero cantor de fado, mas ele disse: ‘Temos um português, porque não?’ Foi muito engraçado”.

Quando lhe perguntámos o que traz de Portugal para o palco, responde com simplicidade: “O sol. A energia. O desenrasca à portuguesa” e ri-se. Acrescenta que “cada vez mais me sinto português. Portugal é a minha casa. Não era assim quando cheguei, mas este sentimento vai crescendo”.

A participação na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris 2024 foi um marco importante na sua carreira. “Às vezes nem acredito que participei”, confessa. O processo foi envolto em “secretismo”: ensaios na Disneyland, num espaço fechado, telemóveis selados em bolsas de plástico, centenas de intérpretes envolvidos… “O momento da dança quase não me lembro, mas lembro‑me muito dos ensaios”. A peça foi ontem à noite no Grand Palais, acompanhado por bailarinos freelancers e pelo Ballet de Lorraine.

Afonso Massano fala também da vida de bailarino como profissão e como vocação. Reconhece o desgaste físico, mas valoriza os cuidados que hoje existem: fisioterapeutas, osteopatas, acompanhamento regular. “Há uma mudança de paradigma. Os coreógrafos estão mais à escuta dos bailarinos”.

Despois destaca a “sorte que tenho em estar numa companhia como esta, com quase 60 anos de história, “com a estabilidade de quem tem um contrato de trabalho. Nos dias de hoje, em que o financiamento da cultura está sempre a baixar, isso é muito importante” diz ao LusoJornal.

CCN – Ballet de Lorraine

Sobre o futuro, não fecha portas: já obteve o “Diplôme d’État” que lhe permite ensinar, gostou da experiência de dar aulas no Conservatório de Nancy, e admite que um dia poderá explorar outras funções – talvez a coreografia, talvez a direção artística. “Ainda quero alimentar‑me mais. Tenho apenas 24 anos. Quero ver onde isto me leva”.

A companhia viaja regularmente, embora a próxima temporada seja mais centrada em França. Já dançou em cidades como Londres, Barcelona, Áustria, Suíça, Itália e Nova Iorque. “Uma das coisas boas é poder viajar e conhecer outros lugares e teatros”, diz. Nancy, onde vive, é uma cidade “mais escura, com pouca luz”, e as tournées “trazem movimento, estímulo e diversidade”.

A relação com outras artes é igualmente forte. Afonso Massano ouve música portuguesa – de Ana Moura a Bárbara Bandeira, de Ritchie Campbell ao fado tradicional – e música brasileira, frequenta rodas de samba, interessa‑se por moda, pintura, instalações contemporâneas… Trabalhar com coreógrafos brasileiros, como Volmir Cordeiro, reforçou essa ligação. “A língua portuguesa une‑me sempre muito” conta ao LusoJornal.

Em “Crescendo”, o público parisiense poderá descobrir não apenas o trabalho de Maud Le Pladec e a vitalidade do Ballet de Lorraine, mas também o percurso singular de Afonso Massano – um intérprete que carrega consigo o sol português, a curiosidade de quem quer aprender sempre mais e a consciência de que a dança é, ao mesmo tempo, profissão, encontro e descoberta.

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