Português acusado de roubar 42 camiões em França para os vender em Portugal


A justiça francesa continua a investigar o caso de um emigrante português acusado de liderar uma rede responsável pelo furto de 42 camiões em apenas quatro meses, um esquema que terá causado um prejuízo estimado em 1,3 milhões de euros e que, segundo os investigadores, abastecia um circuito de compradores já identificados em Portugal. O principal suspeito, Raphael C., de 37 anos, vive em França há 13 anos e está em prisão preventiva desde junho de 2025, sempre negando qualquer envolvimento nos crimes que lhe são imputados.

A investigação conduzida pela polícia de Hauts‑de‑Seine descreve um método repetido e altamente eficaz. Os furtos eram cometidos durante a noite, com os autores a abrir a cabine dos veículos, desligar os sistemas de geolocalização e utilizar dispositivos eletrónicos capazes de ligar o motor sem recurso à chave. Depois, os camiões eram deixados estacionados durante alguns dias para garantir que não existiam outros mecanismos de rastreamento. Só então eram conduzidos para Portugal com matrículas falsas, onde compradores aguardavam a chegada dos veículos. Segundo a polícia, o grupo conseguia realizar pelo menos um furto por semana.

Raphael C. é apresentado pela imprensa francesa como um homem discreto, pai de dois filhos, que trabalhava no restaurante da esposa e também no setor das obras públicas. Antes de emigrar, geriu uma sucata em Portugal, experiência que, segundo os investigadores, poderá ter facilitado contactos para a revenda dos veículos. Na sua residência, as autoridades apreenderam 27 mil euros em numerário e cerca de 80 mil euros em ferramentas e equipamentos, elementos que reforçaram as suspeitas de envolvimento numa atividade criminosa organizada.

Além de Raphael C., estão igualmente implicados o irmão e um cúmplice identificado como Paolo. Este último confessou integralmente os factos e assumiu a responsabilidade pelos furtos, tendo sido libertado em junho. Já Raphael C. e o irmão negam qualquer participação no esquema. O advogado do principal suspeito, Alexandre Simonin, afirma que o processo contém fragilidades e pediu ao Tribunal de Instrução de Versalhes que pusesse fim ao que considera ser um “desastre judicial”, mas o pedido foi rejeitado.

O caso ganhou grande atenção mediática depois de o jornal Le Parisien ter apelidado Raphael C. de “rei dos ladrões de camiões e máquinas de construção”, expressão que rapidamente se propagou para a imprensa portuguesa. A defesa considera que esta exposição pública contribuiu para uma perceção distorcida do processo, enquanto a acusação sustenta que o volume de furtos, a repetição do método e a existência de compradores em Portugal demonstram a existência de uma rede estruturada.

Raphael C. está formalmente acusado de associação criminosa, furto em grupo organizado e branqueamento de capitais. A investigação prossegue, com as autoridades francesas e portuguesas a colaborar para esclarecer o destino final dos veículos e identificar todos os intervenientes no circuito de revenda. Até ao momento, o principal suspeito mantém a mesma posição: garante que não liderou qualquer rede e que apenas esteve presente num dos episódios sem saber que se tratava de um furto.

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