Todos os dias olhamos, lemos, conduzimos, reconhecemos rostos e contemplamos o mundo à nossa volta sem pensar no complexo mecanismo que torna tudo isso possível. No centro desse processo encontra-se a retina, uma fina estrutura de tecido nervoso que reveste o interior do olho e que tem uma função essencial: captar a luz e transformá-la em sinais que o cérebro interpreta como imagens.
No Dia Mundial da Retina, importa recordar que, sendo este um tecido extremamente vulnerável, a prevenção e a deteção precoce assumem um papel fundamental.
O aumento da esperança média de vida e a elevada prevalência de doenças como a diabetes representam desafios crescentes para a saúde da retina. Controlar adequadamente a diabetes, a pressão arterial e outros fatores de risco cardiovascular, bem como manter hábitos de vida saudáveis são formas de proteger a saúde ocular. Nas pessoas com diabetes, a vigilância oftalmológica regular é fundamental, mesmo na ausência de alterações da visão. Com o avançar da idade, particularmente na presença de fatores de risco ou antecedentes familiares de doença ocular, a avaliação periódica da retina assume também especial relevância. Algumas doenças capazes de comprometer a visão podem evoluir silenciosamente nas fases iniciais. Quando surgem os primeiros sintomas, as alterações retinianas podem já ser significativas.
Entre as doenças da retina mais frequentes encontram-se a degenerescência macular relacionada com a idade, a retinopatia diabética, as oclusões vasculares da retina e o descolamento da retina. Existem ainda doenças hereditárias, menos frequentes, mas que podem afetar a visão desde idades jovens.
O aparecimento súbito de distorção das imagens, diminuição da visão, flashes luminosos, aumento abrupto de “moscas volantes” ou uma sombra semelhante a uma cortina no campo de visão justifica uma avaliação oftalmológica rápida.
Felizmente, a Oftalmologia assistiu, nas últimas décadas, a uma extraordinária evolução na capacidade de diagnosticar e tratar estas doenças. Atualmente, exames como a tomografia de coerência óptica (OCT) permitem observar as diferentes camadas da retina com um nível de detalhe quase histológico, de forma rápida e sem contacto com o olho. A angiografia por OCT (OCTA) permite visualizar a microcirculação retiniana também de forma não invasiva. Por sua vez, as retinografias e angiografias de campo ultra-amplo permitem observar áreas cada vez maiores da periferia da retina. Estas e outras tecnologias de imagem acrescentaram informação de extrema importância, permitindo um diagnóstico cada vez mais precoce. Conseguimos hoje identificar alterações muito pequenas, acompanhar a sua evolução e, em muitas situações, iniciar tratamento antes de ocorrer uma perda visual irreversível.
Também os tratamentos mudaram profundamente o prognóstico de algumas doenças. Patologias que anteriormente conduziam frequentemente a perdas importantes de visão podem hoje ser controladas durante muitos anos. Paralelamente, a investigação em genética, terapias génicas e novas formas de administração de medicamentos abre perspetivas particularmente promissoras para doenças para as quais ainda dispomos de poucas opções terapêuticas.
A responsabilidade pela saúde da retina é assim partilhada: passa pela investigação e pela inovação tecnológica, mas também pela literacia em saúde, pelo controlo dos fatores de risco e pela realização dos exames adequados no momento certo.
Cuidar da retina influencia a forma como vemos – e vivemos – o mundo. É, em grande medida, cuidar do nosso futuro.
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Dra. Luísa Vieira
Oftalmologista
Coordenadora de Oftalmologia da Clínica Lusíadas de Oftalmologia de Entrecampos






