Há cerca de 20 anos na Juventude Lusitana de Toulon, Miguel Simões é Vice-Presidente e Ensaiador da associação. É também Vice-Presidente do Comité de Geminação Le Beausset – Terras de Bouro. Foi em representação destas duas estruturas que participou recentemente no Curso Mundial de Formação de Dirigentes Associativos, nos Açores.
Ao LusoJornal, o dirigente apresenta as atividades desenvolvidas no sul de França e conta o que retirou desta experiência nos Açores. Das redes sociais à inteligência artificial, passando pelos apoios financeiros e pelo encontro com responsáveis de outros países, Miguel Simões regressou com conhecimentos que quer partilhar com os restantes membros da Direção.
.
Como surgiu o Comité de Geminação Le Beausset – Terras de Bouro e que ligação tem à Juventude Lusitana de Toulon?
A Juventude Lusitana começou com a Marisa Pereira, filha do senhor Fernando Pereira (Presidente das associações), e uma colega. Entrei no mesmo ano em que elas criaram a associação. Mais tarde, a Marisa saiu e fiquei com o senhor Fernando a assegurar a gestão. Éramos os principais responsáveis. Depois, o senhor Fernando teve a ideia de criar uma geminação com a sua terra, Terras de Bouro. Apoiámos a iniciativa e avançámos, porque vimos ali uma oportunidade para desenvolver intercâmbios e reforçar os contactos com Le Beausset. Não tenho de cabeça a data exata da criação do Comité, mas sei que existe há mais de dez anos.
Que iniciativas têm desenvolvido para aproximar as duas localidades e os seus habitantes?
Temos promovido sobretudo intercâmbios entre Terras de Bouro e Le Beausset, envolvendo tanto os jovens como as pessoas de mais idade. O objetivo é criar encontros e trocas entre as pessoas. Mostramos a nossa cultura portuguesa aos franceses e, no sentido inverso, damos a conhecer a cultura francesa aos portugueses que vêm de Portugal, alguns pela primeira vez a França. É principalmente esse intercâmbio que temos desenvolvido entre os dois países.
Quanto à Juventude Lusitana de Toulon, quais são as principais atividades e como procuram divulgar a cultura portuguesa?
O nosso objetivo é sobretudo divulgar a nossa cultura e os nossos costumes através do grupo folclórico, das festas e dos festivais em que participamos ao longo do ano. Organizamos um festival em maio, para o qual convidamos grupos de Portugal e de várias regiões de França. É uma oportunidade para mostrar as nossas tradições aos franceses. Também realizamos outros eventos, como a celebração de Nossa Senhora de Fátima, em outubro. Temos ainda várias saídas previstas, nomeadamente uma participação num festival em Cannes. Procuramos dar a conhecer as nossas tradições, sobretudo as do Minho, porque somos um grupo ligado ao norte de Portugal.
Como surgiu a oportunidade de participar no Curso Mundial de Formação de Dirigentes Associativos e quais eram as suas expectativas antes de partir para os Açores?
Vários membros tinham apresentado uma candidatura para participar. Não conhecíamos muito bem o funcionamento do curso, mas o objetivo era aprender e perceber o que poderíamos melhorar nas nossas associações, tanto ao nível da comunicação como da organização. Queríamos adquirir conhecimentos que nos ajudassem a fazer avançar a Juventude Lusitana e o Comité de Geminação. Não sabemos tudo e ter professores com experiência a explicar-nos determinadas questões pareceu-nos uma boa oportunidade. A expectativa era essencialmente essa: aprender.
Como decorreram esses dias de formação e quais foram os temas mais úteis para si?
Foi tudo muito bem organizado, com uma organização espetacular. Foi um grande prazer estar com todos aqueles dirigentes associativos e participar no décimo Curso Mundial de Formação. Para mim, os conteúdos mais úteis foram sobretudo os relacionados com as redes sociais: como divulgar as nossas atividades, que plataformas devemos utilizar e quais são as mais acompanhadas em cada país. Também abordámos a inteligência artificial. Foi muito interessante perceber que nem tudo o que nos se apresenta corresponde à verdade e que devemos manter algum espírito crítico. É preciso ter sempre um pé atrás. Trabalhámos ainda os métodos de colaboração com outras pessoas, a forma como nos apresentamos e como recebemos quem vem ter connosco. Tudo isso pode ajudar uma associação a evoluir. Pessoalmente, foi na parte das redes sociais e da inteligência artificial que senti que aprendi mais.
Que aprendizagens pretende agora pôr em prática nas associações que representou?
Já tínhamos pensado em começar a utilizar a inteligência artificial. Ainda não dominamos muito o assunto, mas gostaríamos de avançar, porque pode ajudar-nos em determinadas tarefas e poupar bastante tempo. Acho que é uma ferramenta com futuro para as associações, desde que seja utilizada corretamente. Quanto às redes sociais, já as utilizávamos, mas não sabíamos necessariamente quais eram as mais importantes ou as mais adequadas. Podemos utilizar várias, mas é importante perceber quais são as essenciais para divulgar os nossos eventos. São conhecimentos que estou a transmitir às outras pessoas da Direção, para podermos melhorar alguns aspetos do nosso trabalho. É também para isso que servem estas formações: para aprendermos mais e corrigirmos práticas que nem sempre são as mais adequadas.
O programa também abordou os apoios financeiros. Considera que estas informações correspondem às necessidades atuais das associações portuguesas?
Acho que sim. Explicaram-nos como apresentar os pedidos e como calcular corretamente os financiamentos de que precisamos, sem pedir em excesso. Há fundos, mas não há fundos ilimitados. Não estávamos muito a par de alguns destes procedimentos e é importante conhecê-los para podermos beneficiar dos apoios disponíveis. Seja muita ou pouca, a ajuda que vier é sempre bem-vinda. É também com esses apoios que as associações conseguem avançar.
Que importância tiveram as trocas com dirigentes de outros países? Surgiram possibilidades de colaboração?
O contacto com os outros dirigentes foi muito bom. Conversámos e descobrimos métodos diferentes de trabalhar, entre associações e países com realidades distintas. Não estavam presentes apenas grupos folclóricos, mas também associações que ajudam pessoas. Existem contactos e ideias, embora a distância torne algumas colaborações mais difíceis. Havia muitos participantes do continente americano, nomeadamente do Brasil, do Canadá e dos Estados Unidos, e também um dirigente da África do Sul. Desenvolver um projeto com esses países não é tão simples como fazê-lo com uma associação mais próxima. Também é preciso ter em conta as atividades de cada estrutura. Há associações mais ligadas ao folclore e outras que trabalham noutras áreas. Ainda assim, surgiu a ideia de festejarmos o Dia de Portugal nos cinco continentes, no mesmo ano. É um projeto que estamos a tentar desenvolver entre todos e que pode ser interessante.
Durante a formação teve também oportunidade de falar com o Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas. O que reteve desse encontro?
Sim, tive oportunidade de falar com o senhor Emídio Sousa. Falámos sobre como é difícil viver longe de Portugal e sobre a importância de haver representantes do país por todo o mundo. Portugal tem uma grande comunidade espalhada por muitos países. Enquanto dirigentes associativos, podemos partilhar informações e métodos de trabalho das sociedades onde vivemos, que também podem ser úteis a Portugal. Acho que esse contributo é muito importante.
Que balanço faz desta experiência e do contributo destas formações para o movimento associativo português?
O balanço é muito bom. Foi uma grande oportunidade participar neste décimo Curso Mundial de Formação de Dirigentes Associativos. Quero agradecer à DGACCP pela oportunidade e pelo convite, à Dra. Rosa Campizes, à Dra. Celina, com quem falei, e a todas as pessoas envolvidas na organização, pelo excelente acolhimento e pela hospitalidade que tivemos nos Açores. Foi uma experiência espetacular, cinco estrelas, como se costuma dizer. É muito importante poder conviver com pessoas diferentes e perceber como funcionam as associações noutros países. Em França, conhecemos muito a realidade dos grupos folclóricos. Mas, na Venezuela e noutros países, há associações que trabalham para ajudar os mais pobres e os portugueses que vivem com dificuldades no estrangeiro. Essa realidade tocou-nos. Nem todos chegámos com as mesmas ideias ou com a mesma visão e foi importante descobrir outras formas de trabalhar. Participei com muito gosto e acho que seria uma experiência a repetir.
A renovação das gerações também é uma preocupação na Juventude Lusitana de Toulon?
Na nossa associação, felizmente, não temos sentido esse problema. Diria que cerca de 40% dos elementos têm até 18 anos. Temos crianças de cinco, sete e oito anos, mas também jovens de dez, catorze, dezassete e dezoito anos. Há uma grande diversidade de idades. A associação tem cerca de 20 anos e a entrada dos mais novos tem acontecido de forma natural. Durante a formação, ouvi vários dirigentes falar das dificuldades em atrair jovens. Foi um dos temas em que me concentrei menos, precisamente porque não enfrentamos essa dificuldade da mesma maneira.
Atualmente, quantos elementos fazem parte da associação?
Temos cerca de 80 aderentes. No grupo, contamos com aproximadamente 20 pares a dançar e cerca de 15 pessoas entre tocadores e cantadores. É muito bom para uma associação e, felizmente, temos conseguido manter essa participação.







